← Voltar

INFLUÊNCIA DA LITERACIA EM SAÚDE SOBRE A SEGURANÇA DA INSULINOTERAPIA E O CONTROLE GLICÊMICO EM PACIENTES INSULINODEPENDENTES DA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE

Unidade
INSTITUTO DE CIENCIAS DA SAUDE
Subunidade
FACULDADE DE FARMACIA
Coordenador
ANA CRISTINA DOS SANTOS BAETAS OLIVEIRA
Período
- a -
Grupo
Pesquisa

ODS vinculados

  • 3 - Saúde e Bem-Estar
  • 4 - Educação de Qualidade

Resumo

O Diabetes Mellitus (DM) constitui atualmente uma das doenças crônicas não transmissíveis de maior impacto para a saúde pública mundial, sendo responsável por expressiva carga de morbimortalidade, perda de qualidade de vida e elevados custos para os sistemas de saúde. De acordo com a Federação Internacional de Diabetes, o número de pessoas vivendo com diabetes continua crescendo em todos os continentes, configurando um importante desafio para gestores, profissionais de saúde e formuladores de políticas públicas (INTERNATIONAL DIABETES FEDERATION, 2021; FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DE DIABETES, 2025). Além do aumento da prevalência, o diabetes está associado ao desenvolvimento de complicações microvasculares e macrovasculares, incluindo nefropatia, retinopatia, neuropatia, doenças cardiovasculares e amputações, que impactam significativamente a capacidade funcional e a expectativa de vida dos indivíduos acometidos (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2024; CONASS, 2024). No Brasil, o Diabetes Mellitus figura entre as principais condições crônicas acompanhadas pela Atenção Primária à Saúde (APS), exigindo monitoramento contínuo e ações integradas de promoção da saúde, prevenção de complicações e acompanhamento farmacoterapêutico (BRASIL, 2013a; BRASIL, 2013b). Nesse contexto, a APS desempenha papel fundamental na coordenação do cuidado, sendo responsável pelo acompanhamento longitudinal dos usuários e pela implementação de estratégias que favoreçam a adesão ao tratamento e o autocuidado. Entre as diferentes modalidades terapêuticas utilizadas para o manejo do diabetes, a insulinoterapia ocupa posição central no tratamento dos indivíduos com Diabetes Mellitus tipo 1 (DM1) e de parcela significativa dos pacientes com Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2). Apesar de sua reconhecida eficácia clínica, a utilização da insulina envolve uma série de procedimentos técnicos que exigem conhecimento, habilidades práticas e compreensão adequada das orientações recebidas pelos profissionais de saúde (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION PROFESSIONAL PRACTICE COMMITTEE, 2025; SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2024). A efetividade da insulinoterapia depende diretamente da correta conservação, transporte, preparo, administração e monitoramento do tratamento. Os pacientes necessitam compreender aspectos relacionados ao armazenamento adequado da insulina, manutenção da temperatura recomendada, homogeneização correta de determinados tipos de insulina, escolha e rodízio dos locais de aplicação, descarte seguro de materiais perfurocortantes e reconhecimento precoce de sinais e sintomas de hipoglicemia e hiperglicemia (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2024; AMERICAN DIABETES ASSOCIATION PROFESSIONAL PRACTICE COMMITTEE, 2025). Entretanto, diversos estudos demonstram que erros relacionados ao uso da insulina permanecem frequentes na prática clínica. Problemas envolvendo armazenamento inadequado, falhas na técnica de aplicação, reutilização excessiva de agulhas, baixa adesão ao tratamento e dificuldades na monitorização glicêmica estão associados ao pior controle metabólico e ao aumento do risco de complicações relacionadas à doença (DA SILVA et al., 2023; BOONPATTHARATTHITI et al., 2024). Dessa forma, compreender os fatores que influenciam o uso seguro da insulina torna-se fundamental para o aprimoramento das ações assistenciais voltadas aos pacientes diabéticos. Nesse cenário, destaca-se a importância da literacia em saúde, definida como a capacidade dos indivíduos de acessar, compreender, avaliar e utilizar informações relacionadas à saúde para tomar decisões adequadas sobre prevenção, tratamento e autocuidado (NUTBEAM, 2008; BERKMAN; DAVIS; MCCORMACK, 2010). Atualmente, a literacia em saúde é reconhecida como um importante determinante social da saúde, influenciando diretamente a forma como os pacientes interpretam prescrições, compreendem orientações terapêuticas, interagem com os serviços de saúde e participam das decisões relacionadas ao próprio tratamento. A literatura científica demonstra que indivíduos com baixos níveis de literacia em saúde apresentam maiores dificuldades para compreender informações clínicas, menor capacidade de autocuidado e piores resultados em saúde quando comparados àqueles que apresentam níveis adequados de compreensão (BERKMAN et al., 2011). Em pacientes portadores de doenças crônicas, a baixa literacia tem sido associada ao aumento das taxas de hospitalização, maior utilização de serviços de urgência e emergência, menor adesão terapêutica e maior ocorrência de eventos adversos relacionados ao uso de medicamentos (BERKMAN et al., 2011). No contexto específico do Diabetes Mellitus, estudos nacionais e internacionais evidenciam que a literacia em saúde influencia significativamente o conhecimento sobre a doença, a adesão ao tratamento, a realização do autocuidado e os indicadores de controle glicêmico (SCHILLINGER et al., 2002; SOUZA et al., 2019; FOPPA et al., 2023). Pacientes com menor capacidade de compreensão frequentemente apresentam dificuldades para interpretar prescrições, compreender ajustes de doses, reconhecer situações de risco e adotar comportamentos adequados diante de alterações glicêmicas. Mais recentemente, revisões sistemáticas têm demonstrado que intervenções voltadas ao fortalecimento da literacia em saúde podem promover melhorias significativas na adesão terapêutica, no autocuidado e nos indicadores clínicos de controle glicêmico em pessoas com diabetes (CARVALHO et al., 2023). Esses achados reforçam a necessidade de compreender a influência da literacia em saúde sobre aspectos específicos do tratamento, especialmente aqueles relacionados à segurança da insulinoterapia. Apesar da crescente relevância do tema, ainda existem importantes lacunas de conhecimento relacionadas à influência da literacia em saúde sobre o uso seguro da insulina, particularmente em populações acompanhadas na Atenção Primária à Saúde. Essa lacuna torna-se ainda mais relevante quando considerada a realidade amazônica, marcada por importantes desigualdades sociais, educacionais e de acesso aos serviços de saúde. Evidências produzidas na Região Norte sugerem que fatores socioeconômicos e educacionais podem influenciar diretamente a compreensão das orientações terapêuticas e o manejo do diabetes pelos pacientes (PALHETA et al., 2023). Diante desse contexto, o presente estudo tem como objetivo avaliar a influência da literacia em saúde sobre a segurança da insulinoterapia e o controle glicêmico em pacientes insulinodependentes acompanhados na Atenção Primária à Saúde. A pesquisa está vinculada ao projeto matriz “Cuidado Farmacêutico no Controle do Diabetes Mellitus em Pacientes Insulinodependentes: Implantação do Serviço de Acompanhamento Farmacoterapêutico”, fortalecendo uma linha de investigação voltada à qualificação do cuidado farmacêutico e à produção de evidências aplicáveis à realidade do Sistema Único de Saúde. O estudo será desenvolvido na Unidade Básica de Saúde Esmailda Marinho de Oliveira, localizada no município de Castanhal, Pará, cenário oficial de implantação do serviço de acompanhamento farmacoterapêutico. Trata-se de um estudo observacional, analítico, transversal e de abordagem quantitativa, envolvendo pacientes adultos com diagnóstico de Diabetes Mellitus tipo 1 ou tipo 2 em uso regular de insulinoterapia. A coleta de dados contemplará informações sociodemográficas, clínicas e farmacoterapêuticas, incluindo idade, sexo, escolaridade, renda, tempo de diagnóstico, tempo de uso da insulina, presença de comorbidades e histórico de episódios de hipoglicemia. A avaliação da literacia em saúde será realizada por meio do instrumento Short Assessment of Health Literacy for Portuguese-speaking Adults (SAHLPA-18), validado para utilização na população brasileira. Como diferencial metodológico, será utilizado o Escore de Segurança da Insulinoterapia (ESI), instrumento clínico estruturado com base nas recomendações da Sociedade Brasileira de Diabetes, do Ministério da Saúde e da American Diabetes Association. O escore avaliará aspectos relacionados ao armazenamento, transporte, técnica de aplicação, rodízio de sítios anatômicos, monitoramento glicêmico, reconhecimento de hipoglicemia e descarte adequado de materiais utilizados na insulinoterapia (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2024; AMERICAN DIABETES ASSOCIATION PROFESSIONAL PRACTICE COMMITTEE, 2025). A adesão ao tratamento será mensurada por meio da Morisky Medication Adherence Scale (MMAS-8), enquanto os indicadores de controle glicêmico serão obtidos por meio dos valores de hemoglobina glicada (HbA1c) e registros de glicemia capilar disponíveis nos prontuários da unidade de saúde. Os dados serão submetidos a análises estatísticas descritivas e inferenciais, permitindo identificar associações entre os níveis de literacia em saúde, a segurança da insulinoterapia, a adesão terapêutica e o controle glicêmico. A relevância científica do projeto fundamenta-se na necessidade de ampliar o conhecimento sobre fatores não farmacológicos que influenciam os resultados clínicos em pacientes diabéticos. Embora a disponibilidade dos medicamentos seja essencial, evidências demonstram que a efetividade terapêutica depende também da capacidade do paciente de compreender e aplicar corretamente as orientações recebidas durante o acompanhamento em saúde (BERKMAN et al., 2011; CARVALHO et al., 2023). Do ponto de vista assistencial, os resultados poderão subsidiar o desenvolvimento de estratégias educativas mais efetivas, individualizadas e centradas nas necessidades dos pacientes. A identificação de grupos com baixos níveis de literacia permitirá direcionar intervenções farmacêuticas específicas, fortalecendo a comunicação profissional-paciente e promovendo o uso seguro e racional da insulinoterapia (BRASIL, 2015; OLIVEIRA et al., 2020). Além disso, a pesquisa contribuirá para o fortalecimento das ações de cuidado farmacêutico na Atenção Primária à Saúde, área que tem demonstrado impacto positivo na adesão terapêutica, no controle clínico e na qualidade de vida de pessoas com diabetes (LIRA-MERIGUETE et al., 2023; CAHYANINGSIH et al., 2023; UDDIN et al., 2025). Estudos recentes também reforçam o papel crescente do farmacêutico na prevenção de complicações, monitoramento clínico e educação em saúde de pacientes diabéticos (ROTTA et al., 2023; GARABELI et al., 2022). Sob a perspectiva da saúde pública, espera-se que os resultados contribuam para a redução de erros relacionados ao uso da insulina, melhoria dos indicadores de controle glicêmico, diminuição de complicações evitáveis e fortalecimento das políticas de promoção do uso seguro de medicamentos. Adicionalmente, a investigação poderá gerar evidências inéditas para a Região Amazônica, contribuindo para a formulação de estratégias assistenciais mais adequadas às características socioculturais da população local. Por fim, o projeto apresenta importante potencial para a formação científica de recursos humanos, proporcionando ao bolsista experiência prática em pesquisa clínica, epidemiologia, avaliação de serviços de saúde, validação de instrumentos, análise estatística e produção científica. Dessa forma, espera-se que a pesquisa produza evidências capazes de contribuir para a qualificação do cuidado farmacêutico, o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde e a melhoria dos resultados clínicos de pacientes insulinodependentes acompanhados no Sistema Único de Saúde.