Escola Multisseriada da Amazônia Paraense: Tecendo a formação, a práxis e os processos de resistência dos/as educadores/as
ODS vinculados
- 4 - Educação de Qualidade
Resumo
Desenvolver uma pesquisa com as Escolas Multisseriadas, ancora-se na necessidade de aprofundar o estudo sobre este fenômeno que prevalece no contexto das escolas do campo, das águas e das florestas. As escolas multisseriadas cumprem a função social de garantir o Direito à Educação aos estudantes que vivem nas pequenas comunidades do campo, marcando presença em territórios diversificados em sua composição geográfica, social e cultural. Estas instituições escolares fazem parte do processo de territorialização dos povos tradicionais e camponeses e a presença destas escolas nos territórios do campo, das águas e das florestas são essenciais para a continuidade de existência das comunidades e de fortalecimento do campo como espaço de vida, e de gente com seus de modos de vida. A pesquisa tem como perspectiva compreender a abrangência da Amazônia paraense, o fenômeno das escolas multisseriadas e, com isso, dar visibilidade à sua existência, às práticas educativas que nelas são efetivadas, considerando seus limites e possibilidades, com a perspectiva de incidir sobre a formulação de políticas educacionais mais assertivas para essas escolas. Nesta pesquisa, propomo-nos dialogar a partir das categorias: Escola Multisseriada, Formação de educadores/as com destaque para a formação continuada e a práxis educativa com os princípios do Movimento Nacional de Educação do Campo, por entendermos que tais princípios estão associados a um projeto de sociedade, de educação, de formação que busca criticamente, posiciona-se contra os projetos empresarias, de educação rural e do agro/hidro/mineral/carbono-negócio que buscam apagar a vida e a cultura dos sujeitos camponeses. A seguir refletimos sobre as categorias que serão investigadas ao longo deste projeto. A escola multisseriada (ou unidocente) caracteriza-se por reunir, em uma mesma sala de aula, estudantes de diferentes idades, séries e níveis de conhecimento sob a responsabilidade de um único professor. Trata-se da principal e muitas vezes única alternativa de oferta da Educação Infantil e anos iniciais do Ensino Fundamental para comunidades do campo, das águas e das florestas do Brasil e da Amazônia. Hage (2014) ao realizar estudos por mais de 20 anos sobre escolas multisseriadas afirma que há um paradoxo em sua existência. De um lado, há um cenário histórico de abandono institucional, precarização de infraestrutura (falta de energia, água tratada e esgoto), carência de formação específica para os docentes e o intenso fechamento destas escolas. De outro, manifesta-se como um espaço de práticas criativas, inovadoras, que podemos chamá-las de resistências no cotidiano escolar, onde professores/as e alunos/as desafiam as adversidades e engajados nos movimentos socioterritoriais lutam de forma permanente para que a escola continue a existir nas comunidades. A escola multisseriada atual nada mais é do que o reflexo do modelo seriado urbano de ensino transplantado, de forma precarizada, para o campo. Sob essa lógica hegemônica, a escola tenta fragmentar e padronizar tempos, currículos e avaliações de forma isolada para cada série dentro da mesma sala, o que inviabiliza que o professor enxergue a turma como um coletivo único e desvaloriza os saberes locais. Longe de ser um "mal necessário" a ser extinto pela homogeneização urbana, a escola multisseriada abriga uma heterogeneidade intrínseca (geracional, de gênero e de saberes) como elementos enriquecedores e potencializadores do processo de ensino e aprendizagem. Nesse sentido, conceitua-se a escola multisseriada como um território de disputa e de emancipação que exige a transgressão do paradigma seriado urbano. Para isso, faz-se necessária a construção coletiva e democrática de projetos político-pedagógicos e currículos, por áreas de conhecimentos, inter-multiculturais e interdisciplinares que reconheçam e legitimem a sociobiodiversidade, o trabalho e os modos de vida dos sujeitos do campo, das águas e das florestas. A formação de educadores/as fundamentado nos princípios da epistemologia da práxis e no materialismo histórico e dialético, propõe-se a estudar a formação continuada como um direito dos profissionais da educação do campo, das águas e das florestas, em contraposição direta aos modelos hegemônicos de educação centrados na racionalidade técnica, na epistemologia da prática e na lógica de mercado. Os processos de formação dos/as educadores/as dos territórios camponeses não deve ser um processo generalista, fragmentado, a distância, aligeirado ou puramente técnico-profissional (focado apenas no "saber fazer" para atender o mercado capitalista ou o agronegócio). A formação de perspectiva Crítico-Emancipadora é concebida como um processo de emancipação humana e política. Ela visa libertar os sujeitos da situação de alienação, subalternidade e opressão, transformando-os em sujeitos históricos e socialmente referenciado. A formação não nasce da abstração acadêmica, mas sim da materialidade das lutas sociais, do trabalho e da cultura dos povos do campo, das águas e das florestas. Rompe com a lógica tradicional e rígida das disciplinas isoladas. A formação deve permitir que o/a educador/a compreenda a realidade em sua totalidade contraditória e conflituosa, articulando o pensar e o fazer pedagógico. De modo a promover a resistência e a afirmação da identidade docente, estimulando os educadores a agirem como intelectuais orgânicos comprometidos com a transformação social e com as agendas de luta de suas comunidades. A práxis é entendida por Silva (2017) como a atividade concreta e consciente pela qual os seres humanos modificam a realidade objetiva e, ao mesmo tempo, transformam a si mesmos. Ela é descrita como uma "crítica radical que passa do plano teórico ao prático" com vistas à emancipação. Inspirada na teoria freireana e nas experiências dos movimentos sociais (como o MST), a práxis nas escolas do campo, das águas e das florestas se materializa pelo diálogo verdadeiro e pela inserção crítica dos oprimidos no mundo. É por meio dela que os sujeitos desvelam as opressões e se engajam coletivamente para superá-las. A Escola pública do campo, das águas e das florestas, multisseriada, multietapa, ciclada, etc, encontra sua resistência para mudar sua forma escolar no momento em que é compreendida como uma escola em movimento e no movimento social e sindical, pois vai ser entendida como o lugar dos sonhos, da cultura que abriga a história dos povos camponeses. É uma escola onde o ensino e a aprendizagem se territorializam nas práticas sociais e se convertem em um instrumento contra-hegemônico de transformação social.