PY-PÓRA: PEGADAS DISCURSIVAS E VERIDICÇÃO NA CARACTERIZAÇÃO DO NARRADOR AMAZÔNIDA
ODS vinculados
- 4 - Educação de Qualidade
- 10 - Redução das Desigualdades
- 11 - Cidades e Comunidades Sustentáveis
- 13 - Ação Contra a Mudança Global do Clima
- 14 - Vida na Água
- 15 - Vida Terrestre
Resumo
Esta proposta é desdobramento do projeto de pesquisa Moranduba: interculturalidade e interdisciplinaridade para uma epistemologia da narrativa em comunidades autóctones na Amazônia estuarina, que teve por objetivo apresentar uma epistemologia de narrativas de origem oral em comunidades da região estuarina do rio Amazonas, especificamente no Estado do Pará, em áreas litorâneas e ribeirinhas, contemplado com Bolsa Produtividade em Pesquisa PQ2, no período de 2022-2024. Desde o recorte específico de narrativas míticas e orais do projeto anterior, postulamos agora caracterizar as marcas discursivas do narrador por meio da predominância e relevância dos fatores discriminados no modelo de Análise Morfológica de Narrativas (AMN)1, buscando-se a caracterização veridictória do narrador de fatos e/ou ficções2 da realidade amazônida (aqui considera-se Amazônia como o bioma), como elemento extradiegético que intervêm e condiciona os elementos intradiegéticos da enunciação narrativa. Além deste condicionamento do narrador, este per si também é condicionado pela conjuntura do ato narrativo (a situação de narração) e pelo contexto histórico e ideológico de ocorrência da narrativa, pois aprendemos a ver o mundo e a falar dele com a linguagem do nosso grupo (Baldan, 1988, p.48). E esta ótica de mundo pode ser condicionada pela predominância do narrar ou descrever, que confere ao narrador a atitude de participar ou observar dos acontecimentos através dos personagens (Lukács, 2010) São esses elementos intra e extradiegéticos que podem favorecer a caracterização do ato narrativo mediante a estruturação que cada enunciado narrativo poderá comportar através dos elementos estruturantes3 da narrativa e a partir da perspectiva do narrador e de suas marcas discursivas ao narrar acontecimentos, sejam eles reais ou não, o que afasta a ideia da existência de um narrador neutro em relação aos fatos (Fernandes, Fonseca, Seruffo, 2019a, p.129). Por essa condição que se abrem os questionamentos desta pesquisa, quanto ao enunciado comportar ou não uma representação que seja veridictória do relatado: as condições apresentadas em relação ao fato referenciado traduzem a verdade dos fatos? Existe isonomia do narrador quanto à apresentação de fatos e ao caráter imputados a cada um dos demais elementos antropomórficos (personagens)? Há uma verdade existencial e ôntica quanto à concepção universalizante de Amazônia mediante a representação narrativa de narradores e personagens, dispostos em um cenário local? A fim de dar cabo a estas perguntas-problema iremos aplicar o modelo AMN a narrativas escritas e orais que mais podem se aproximar da construção de representações acerca da Amazônia, em leque que considera aspectos diacrônicos (extensão temporal) e sincrônicos (amplitude cultural), partindo da a) Literatura de Viajantes, que aqui estiveram, a partir do século XVIII (a exemplo de Claude dAbbeville, La Condamine, Henri Coudreau, Bates, Wallace); passando pelos escritores da intitulada b) Literatura da Amazônia (ver Fernandes, 2005a), tais como José Veríssimo, Inglês de Souza, Alberto Rangel, Raimundo Morais, Dalcídio Jurandir, Bruno de Menezes e Haroldo Maranhão até os mais recentes como Milton Hatoum e Edilson Pantoja; e aportando nas c) Narrativas Orais presentes no imaginário popular (ver Fernandes, 2015b). A metodologia será baseada em modelo de Redes Bayesianas (RB), inferindo-se as dependências condicionais que se estabelecem entre as variáveis de ocorrência/não-ocorrência, predominância e relevância de fatores previamente tratados em Fernandes, Fonseca e Seruffo (2019a), que totalizam 12 grupos com 29 fatores4. Este modelo será posto à prova de forma mais ampliada, considerando-se agora também o desenho de epistemologia da narrativa tratado em projeto de pesquisa anteriormente apoiado por bolsa de produtividade em pesquisa. Por fim, almeja-se com esta proposta de pesquisa a construção de método, e consequentemente, um programa computacional que possa processar narrativas de diversas modalidades da língua oral e escrita e de diferentes formas culturais cultura artística, cultura midiática e cultura popular com a demonstração que existe uma estrutura estruturante nas narrativas, que sofre variações em conformidade com as escolhas discursivas e ideológicas dos narradores, o que poderá favorecer outras áreas do conhecimento como o direito (narrativas judiciais em processos criminais e cíveis), a psicanálise (as narrativas de desejo e recalcamento) e a história (os não-ditos em narrativas oficiais e o espelhamento dos testemunhos silenciados pela história). Oxalá a adequação do modelo AMN centrado no narrador possa contribuir para o desvelamento dos rastros deixadas por este no discurso: em nheengatu (Stradelli, 1929), ou língua geral amazônica, py-póra significa pegada o espaço (póra) cheio de pés (py) em que se constitui a narrativa, pegadas dos personagens e pegadas do narrador, que devemos decifrá-las para não sermos devorados pelas verdades de cada ser antropomórfico na narrativa!