Análise Epidemiológica da Raiva e das agressões por morcegos hematófagos em humanos e não-humanos na Região Amazônica
ODS vinculados
- 3 - Saúde e Bem-Estar
Resumo
A raiva é uma encefalomielite aguda progressiva que tem como agente causal um vírus RNA do gênero Lyssavirus. A doença tem caráter zoonótico e afeta mamíferos domésticos e silvestres, sendo transmitida ao ser humano por contato com material infeccioso, geralmente saliva, através de mordidas, arranhões ou ferida aberta causadas por um animal infectado. A doença constitui-se em um importante problema de saúde pública global. Em todo mundo mais de 55.000 pessoas morrem da raiva por ano, das quais mais de 99% estão em países em desenvolvimento, onde a raiva é endêmica em populações de cães domésticos. Entretanto, países da América Latina têm produzido bons resultados no controle da raiva humana transmitida por cães, com uma redução de aproximadamente 95% dos casos humanos por esse ciclo de transmissão. Nesses países a raiva transmitida por espécies silvestres, em especial os morcegos hematófagos, tem aumentado consideravelmente. No Brasil, o ciclo silvestre tem se expandido, sendo o morcego da espécie D. rotundus o vetor mais frequente da doença e responsável por surtos em humanos. A maioria das mortes está concentrada em áreas rurais das regiões Norte e Nordeste do país. No biênio 2004-2005 essa tendência foi claramente percebida, quando ocorreram 51 casos de raiva humana transmitida por morcego, em comparação a 11 casos de raiva humana transmitida por cães. Esses casos ocorreram nos estados brasileiros do Pará e Maranhão e o morcego hematófago, que sempre foi apontado por perdas econômicas diretas e indiretas em herbívoros, também se tornou o principal problema de saúde pública em regiões tropicais e subtropicais das Américas, particularmente na Região Amazônica. Alguns casos foram notificados na mesorregião do nordeste paraense. Acredita-se que a população de morcegos vampiros tenha aumentado devido ao avanço do desmatamento, muitas vezes relacionado com a geração de área de pastagens e consequente aumento no número de cabeças de gado na América do Sul, o que estaria modificando seu habitat natural e reduzindo suas presas naturais. Os morcegos hematófagos possuem maior predileção por animais de produção em relação a animais silvestres, pois esses animais são abundantes e tendem a permanecer no mesmo local durante períodos prolongados. Quando uma colônia de morcegos hematófagos localiza um rebanho de animais, os indivíduos são capazes de retornar ao mesmo rebanho em noites subsequentes (Johnson et al., 2014). Nesse sentido essa espécie também é responsável por enormes perdas econômicas na América Latina, sendo o principal mantenedor da raiva em bovinos, embora D. ecaudata, D. youngi e outras espécies neotropicais desempenhem um papel importante na circulação viral. Para os humanos a raiva é uma doença com letalidade próxima a 100%. Há somente dois casos registrados de cura, que deixaram sequelas significativas. Porém, relatos recentes revelaram que mordidas sucessivas por morcegos hematófagos podem expor os indivíduos a pequenas doses do vírus dando a oportunidade para o desenvolvimento de imunidade natural à doença e impedindo o início da doença clínica. Fatores de risco comuns para a infecção humana incluem condições precárias de habitação, aumento das taxas de contato com o reservatório silvestre (grupos populacionais em áreas remotas), falta de acesso a serviços de saúde, e a alta frequência com que as pessoas são agredidas, o que leva à falta de preocupação da população em procurar o tratamento profilático da doença. Muitas vezes, a mordida pode passar despercebida devido ao comportamento do vampiro e sua forma de alimentação que é feita enquanto a vítima dorme. Embora não seja uma nova forma de transmissão, a raiva transmitida por morcegos requer um controle mais complexo de estratégias, imprescindíveis para a efetiva ação da vigilância epidemiológica e que ainda precisam ser aprimoradas. A prevenção da raiva humana tem como base dois procedimentos que são a profilaxia pré e pós-exposição que são realizados através de imunização com a administração de vacinas e soros hiperimunes, nas unidades básicas de saúde. Nas comunidades rurais da Região Amazônica as agressões por morcegos, transmissores do vírus rábico, são banalizadas pela população que desconhece os riscos aos quais está submetida. Nesse contexto, por um lado, a população precisa ter conhecimento do risco ao qual está exposta, sem deixar de se preocupar com a conservação da espécie agressora, que também é vítima do vírus. Por outro lado, o profissional de saúde precisa estar devidamente treinado para realizar a abordagem correta do agravo, uma vez que a não utilização correta pode acarretar em custos elevados em doses de vacina, assim como ao risco de não tratamento dos agravos considerados graves, como a mordida de morcegos. O Sistema de Saúde, em seu nível local/regional, tem papel fundamental no controle e profilaxia de diferentes enfermidades. Os profissionais de saúde que lidam diretamente com o público são imprescindíveis no processo de identificação, notificação e prevenção de diferentes agravos, em especial na profilaxia da raiva. A subnotificação e mal preenchimento das fichas epidemiológicas do agravo já foram relatados em estudos anteriores e dificultam a ação da vigilância. Um profissional bem informado e equipado faz a diferença na abordagem desse agravo. Para uma boa atuação, particularmente, os agentes comunitários de saúde precisam estar devidamente informados sobre os protocolos de atendimento para que seja dada a devida importância à doença. Tendo em vista que os padrões de ocupação do espaço influenciam diretamente diferentes aspectos da saúde pública e o meio onde vive uma população, a utilização de técnicas de geoprocessamento na análise da distribuição espacial dos problemas de saúde possibilita determinar locais de risco e delimitar áreas que concentram situações mais vulneráveis tornando-se assim um poderoso conjunto de ferramentas para a vigilância epidemiológica. Enfim, estudos envolvendo a epidemiologia, distribuição, e ocorrência de mordeduras de morcegos hematófagos envolvendo a espécie humana em ambiente natural, ainda são escassos no Pará e nos demais países que compõem a região amazônica, apesar do histórico de raiva humana transmitida por esta espécie e dos relatos frequentes de agressões por morcegos nessa região, justificando assim, a realização desta pesquisa. Nesse sentido, esse projeto pretende conhecer os fatores relacionados a possível circulação do vírus rábico e a espoliação humana por morcegos hematófagos em população vulnerável da região Amazônica. Serão alvo de estudo as microrregiões do Salgado e Bragantina, além das áreas circunvizinhas da Amazônia brasileira, como a região amazônica Colombiana, onde o cenário de agressões por morcegos em humanos se repete, especialmente em comunidades indígenas. Nessas populações serão investigadas a circulação viral em animais domésticos, silvestres e humanos. Ações relacionadas ao treinamento de profissionais de saúde e informação da população também serão conduzidas com o intuito de avaliar o nível de conhecimento da população antes e após as intervenções. Estudos retrospectivos descritivos estão previstos analisando dados dos sistemas de informação em saúde dos países envolvidos a fim de se estabelecer um diagrama de controle da situação. Espera-se com isso gerar mapas de risco que possam auxiliar na vigilância da doença nos países envolvidos e contribuindo para prevenção de novos surtos.