LEVANTAMENTO FAUNÍSTICO E DETECÇÃO DE PARASITOS EM ANIMAIS SILVESTRES ATROPELADOS NA RODOVIA BELÉM--BRASÍLIA: TRECHO ENTRE OS MUNICIPIOS DE CASTANHAL E AURORA DO PARÁ, NO ESTADO DO PARÁ, BRASIL
ODS vinculados
- 15 - Vida Terrestre
Impacto na Amazônia
- Biodiversidade e Bioeconomia – Conservação Ambiental
Resumo
A expansão da infraestrutura viária constitui um dos principais fatores de transformação da paisagem natural, promovendo fragmentação de habitats, alteração dos processos ecológicos e aumento da mortalidade da fauna silvestre por atropelamentos. No contexto amazônico, onde a biodiversidade apresenta elevada riqueza e complexidade ecológica, os impactos decorrentes das rodovias assumem importância ainda maior, especialmente em áreas submetidas à crescente pressão antrópica. Nesse cenário, a ecologia de estradas emerge como uma área estratégica de investigação, permitindo compreender os efeitos das rodovias sobre a fauna e subsidiar ações de conservação e mitigação dos impactos ambientais. Os atropelamentos de animais silvestres representam uma das principais causas de mortalidade não natural da fauna terrestre, afetando diretamente a dinâmica populacional das espécies, a conectividade ecológica e a manutenção de serviços ecossistêmicos. Além das consequências conservacionistas, a mortalidade de vertebrados em rodovias possui implicações epidemiológicas relevantes, uma vez que diversas espécies atuam como hospedeiros e reservatórios de agentes parasitários e patógenos de importância para a saúde animal, humana e ambiental. Dessa forma, o monitoramento da fauna atropelada pode fornecer informações valiosas sobre a circulação de agentes infecciosos em ambientes naturais, contribuindo para a vigilância epidemiológica sob a perspectiva da Saúde Única (One Health). O presente projeto tem como objetivo principal identificar os principais pontos de atropelamento de animais silvestres e detectar a ocorrência de endoparasitos e ectoparasitos em espécimes encontrados mortos por atropelamento ao longo da rodovia BR-010 (BelémBrasília), no trecho compreendido entre os municípios de Castanhal e Aurora do Pará, Estado do Pará. A pesquisa busca integrar abordagens ecológicas, parasitológicas e epidemiológicas para ampliar o conhecimento sobre os impactos das rodovias na biodiversidade amazônica e sobre a circulação de agentes infecciosos em populações silvestres. A área de estudo abrange aproximadamente 150 km da BR-010, atravessando municípios inseridos no bioma Amazônia e caracterizados por intensa modificação da paisagem devido à expansão urbana, agropecuária e rodoviária. As atividades de campo serão realizadas mensalmente entre dezembro de 2025 e novembro de 2026, totalizando doze campanhas de monitoramento. Durante cada campanha, o trecho será percorrido por equipe especializada em veículo automotor, seguindo protocolos padronizados de amostragem em ecologia de estradas. Todos os animais encontrados serão fotografados, georreferenciados e registrados quanto à localização, características ambientais, estado de conservação da carcaça e condições climáticas observadas no momento do registro. As carcaças coletadas serão encaminhadas ao Instituto de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Pará, onde serão submetidas à necropsia para obtenção de amostras biológicas. Serão coletados fragmentos de coração, pulmão, fígado, baço e pele destinados à investigação molecular de agentes parasitários. Paralelamente, serão realizadas inspeções detalhadas para coleta de ectoparasitos, incluindo carrapatos, pulgas, piolhos e larvas de dípteros, os quais serão preservados e posteriormente identificados por meio de chaves taxonômicas especializadas. A identificação dos endoparasitos será realizada por técnicas moleculares baseadas na Reação em Cadeia da Polimerase (PCR). Inicialmente, será efetuada a extração e avaliação da qualidade do DNA genômico obtido dos tecidos coletados. Posteriormente, as amostras serão submetidas a protocolos específicos para detecção de agentes de relevância epidemiológica, incluindo Trypanosoma cruzi, Leishmania spp., Histoplasma capsulatum, Babesia spp., Ehrlichia canis e Anaplasma platys. A utilização de ferramentas moleculares permitirá elevada sensibilidade diagnóstica e contribuirá para o conhecimento da diversidade de patógenos circulantes na fauna silvestre amazônica. Os dados obtidos serão analisados por métodos estatísticos e ecológicos visando estimar riqueza, abundância e diversidade de espécies atropeladas, bem como identificar áreas críticas de mortalidade (hotspots) ao longo da rodovia. As informações georreferenciadas permitirão a realização de análises espaciais para determinação de trechos prioritários para implementação de medidas mitigadoras, tais como passagens de fauna, cercamentos direcionadores e sinalização específica. Adicionalmente, os registros contribuirão para a avaliação do status de conservação das espécies afetadas, incluindo aquelas classificadas como ameaçadas de extinção pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Sob a perspectiva da Saúde Única, o projeto apresenta caráter inovador ao associar o monitoramento de atropelamentos à investigação parasitológica da fauna silvestre. Essa abordagem possibilita compreender não apenas os impactos das rodovias sobre a biodiversidade, mas também os potenciais efeitos dessas alterações na dinâmica de transmissão de agentes infecciosos entre animais silvestres, animais domésticos e seres humanos. Considerando a crescente ocorrência de zoonoses emergentes e reemergentes associadas às mudanças ambientais, o estudo poderá fornecer informações estratégicas para programas de vigilância epidemiológica, prevenção de doenças e conservação da biodiversidade. Como resultados esperados, o projeto pretende elaborar um inventário da fauna silvestre atropelada na região de estudo, identificar áreas prioritárias para mitigação de atropelamentos, ampliar o banco de DNA de animais silvestres do Laboratório de Sanidade Animal da UFPA e gerar conhecimento científico aplicável à conservação da fauna amazônica e à vigilância em Saúde Única. Dessa forma, a pesquisa contribuirá simultaneamente para a ecologia de estradas, a epidemiologia de doenças parasitárias e a formulação de políticas públicas voltadas à proteção da biodiversidade e à promoção da saúde ambiental na Amazônia brasileira.