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EDITAL 15/2026 – PROPESP - Projeto de Pesquisa: Formação docente e colonialidade do saber: A temática indígena na formação de pedagogos para a Educação Básica na Amazônia.

Unidade
CAMPUS UNIVERSITARIO DE CASTANHAL
Subunidade
FACULDADE DE PEDAGOGIA - CASTANHAL
Coordenador
RAFAEL ROGERIO NASCIMENTO DOS SANTOS
Período
- a -
Grupo
Pesquisa

ODS vinculados

  • 4 - Educação de Qualidade
  • 10 - Redução das Desigualdades

Impacto na Amazônia

  • Comunidades Tradicionais – Ações com Povos Indígenas ou Originários

Resumo

O projeto tem como objetivo investigar de que maneira a formação inicial de pedagogos/as pode contribuir para problematizar representações estereotipadas sobre os povos indígenas e tensionar a colonialidade do saber presente no conhecimento escolar. A proposta parte da compreensão de que a temática indígena, embora tenha ganhado maior visibilidade nas últimas décadas, ainda é frequentemente abordada no espaço escolar por meio de imagens simplificadas, homogêneas e associadas a um passado distante, o que dificulta o reconhecimento da historicidade, da diversidade e da contemporaneidade dos povos indígenas no Brasil e, especialmente, na Amazônia. A pesquisa se insere no campo dos estudos sobre formação docente, ensino de História, História Indígena e decolonialidade. Parte-se do entendimento de que a Lei nº 11.645/2008, ao tornar obrigatório o ensino de História e Cultura Indígena na Educação Básica, representou um importante marco legal para a construção de um currículo mais plural. No entanto, sua efetivação ainda encontra limites no cotidiano escolar, sobretudo pela permanência de representações que tratam os povos indígenas como sujeitos genéricos, exóticos, românticos ou em desaparecimento. Essas imagens não decorrem apenas da ausência de informação, mas também da permanência de hierarquias epistêmicas que historicamente desqualificaram os saberes indígenas e os reduziram à condição de tradição, folclore ou cultura menor. Nesse sentido, o projeto mobiliza o conceito de colonialidade do saber como chave analítica para compreender a permanência de formas de conhecimento marcadas por matrizes eurocentradas. A colonialidade do saber permite observar como determinados conhecimentos foram historicamente legitimados como universais, científicos e escolares, enquanto outros foram marginalizados ou considerados inferiores. No caso da temática indígena, essa dinâmica se manifesta quando os saberes, experiências e histórias dos povos indígenas são tratados de maneira secundária, fragmentada ou subordinada às narrativas nacionais e coloniais. A pesquisa também dialoga com os avanços da chamada Nova História Indígena, campo que, desde a década de 1990, vem questionando interpretações tradicionais que situavam os povos indígenas apenas como vítimas da colonização ou como grupos destinados ao desaparecimento. A partir de autores como Manuela Carneiro da Cunha, John Manuel Monteiro e Maria Regina Celestino de Almeida, a historiografia passou a enfatizar a agência histórica dos povos indígenas, suas estratégias de negociação, resistência, adaptação e participação ativa nos processos históricos. Essa mudança historiográfica é fundamental para a formação docente, pois permite construir abordagens pedagógicas que reconheçam os povos indígenas como sujeitos históricos, e não como personagens fixados em um passado colonial. O projeto assume como recorte empírico específico a análise de histórias em quadrinhos que abordam a temática indígena. As HQs são compreendidas como narrativas que articulam linguagem verbal e visual, constituindo-se como produtos culturais e discursivos capazes de produzir sentidos sobre sujeitos, tempos históricos, identidades e relações sociais. Por circularem em contextos educativos, didáticos, paradidáticos ou de ampla difusão entre estudantes, as histórias em quadrinhos permitem observar como determinadas imagens sobre os povos indígenas são construídas, reiteradas ou tensionadas. A análise das HQs será orientada por uma perspectiva discursiva e dialógica, especialmente a partir das contribuições de Mikhail Bakhtin. Nessa abordagem, entende-se que todo discurso é atravessado por múltiplas vozes sociais e se constitui em relação com outros discursos já existentes. Assim, as histórias em quadrinhos serão analisadas não apenas pelo conteúdo que apresentam, mas pelos modos como organizam visual e verbalmente determinadas representações sobre os povos indígenas. A pesquisa observará a construção dos personagens indígenas, os contextos históricos representados, as formas de descrição cultural, as relações entre indígenas e não indígenas e a presença de estereótipos ou deslocamentos críticos em relação a essas imagens. A metodologia será desenvolvida em etapas articuladas. Inicialmente, será realizada uma revisão bibliográfica sobre colonialidade do saber, ensino da temática indígena, formação docente, História Indígena e uso de histórias em quadrinhos na educação. Em seguida, será feito o levantamento e a seleção de um corpus reduzido de HQs que abordem a temática indígena e que possam ser analisadas no contexto da formação de pedagogos/as. Posteriormente, as narrativas selecionadas serão examinadas a partir de seus elementos verbais, visuais e discursivos, considerando as formas de representação dos povos indígenas e suas relações com discursos historicamente consolidados no ensino escolar. A terceira etapa consistirá na interpretação das representações identificadas à luz do debate sobre colonialidade do saber e historiografia indígena. Busca-se compreender em que medida as HQs analisadas reproduzem, tensionam ou reconfiguram hierarquias epistêmicas que historicamente marginalizaram os povos indígenas. A partir dessa análise, o projeto pretende refletir sobre as possibilidades pedagógicas das HQs na formação inicial de pedagogos/as, especialmente para o ensino da temática indígena nos anos iniciais da Educação Básica. O projeto justifica-se pela relevância da formação inicial de professores como espaço estratégico de mediação entre a produção acadêmica e o ensino escolar. Na Licenciatura em Pedagogia, essa questão ganha especial importância, pois os/as pedagogos/as atuam diretamente nos anos iniciais da Educação Básica, etapa em que se constituem as primeiras referências históricas, culturais e sociais dos estudantes. Por isso, discutir a temática indígena na formação de pedagogos/as significa intervir em um momento fundamental da construção do conhecimento escolar, contribuindo para práticas pedagógicas menos estereotipadas e mais comprometidas com a diversidade histórica e cultural brasileira. No contexto amazônico, essa discussão assume relevância ainda maior. A Amazônia é marcada por uma ampla diversidade de povos indígenas e por uma longa história de relações entre populações indígenas, frentes coloniais, políticas indigenistas, disputas territoriais e processos contemporâneos de resistência. Apesar disso, as narrativas escolares ainda tendem a apresentar os povos indígenas de maneira genérica, descontextualizada ou presa ao passado. O projeto, portanto, busca contribuir para que a formação docente na Amazônia reconheça os povos indígenas em sua historicidade, diversidade e contemporaneidade. Espera-se que a pesquisa contribua para a qualificação da formação inicial em Pedagogia, para o fortalecimento do ensino da temática indígena e para a construção de práticas pedagógicas epistemologicamente mais críticas e interculturais. Como resultados, prevê-se a sistematização de bibliografia especializada, a seleção e análise de HQs sobre povos indígenas, a produção de relatórios de pesquisa, a apresentação dos resultados em evento acadêmico e a elaboração de reflexões que possam subsidiar o trabalho docente nos anos iniciais da Educação Básica. Dessa forma, o projeto articula pesquisa, ensino e formação docente, contribuindo para o enfrentamento da colonialidade do saber no espaço escolar e para a valorização dos povos indígenas como sujeitos históricos e produtores de conhecimento.