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Formação docente em Letras para o Português Língua Não Materna

Unidade
CAMPUS UNIVERSITARIO DE CASTANHAL
Subunidade
FACULDADE DE LETRAS - CASTANHAL
Coordenador
INEIA DAMASCENO ABREU
Período
- a -
Grupo
Pesquisa

ODS vinculados

  • 4 - Educação de Qualidade
  • 10 - Redução das Desigualdades

Resumo

De acordo com o site Ethnologue (2023), existem hoje mais de 7 mil línguas no mundo. Esse número é variável devido às constantes pesquisas linguísticas, à forma como as informações são contabilizadas, aos vários critérios diferentes e, também, porque as línguas são vivas e dinâmicas, atreladas às constantes mudanças das sociedades modernas. Uma língua pode ser definida pela capacidade de comunicação entre seus falantes. Duas línguas podem ser consideradas distintas se falantes de uma e de outra língua forem mutuamente ininteligíveis. Por exemplo, falantes de português do Brasil e de Portugal comunicam-se sem grandes dificuldades, apesar das peculiaridades de cada variante, seja a nível fonético, morfológico, sintático ou lexical. São dois países distintos que compartilham a mesma língua ainda que a distância geográfica seja grande. Já o Português e o Espanhol, não obstante a proximidade geográfica no caso de Portugal e Espanha, na Europa; e, na América do Sul, Brasil e os vários países hispanofalantes com os quais divide fronteiras (Uruguai, Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela), não compartilham o mesmo idioma, embora possuam muitas semelhanças . Tal semelhança pode ser justificada pela descendência indireta do latim (Coutinho, 2005; Teyssier, 2014). O sociólogo holandês Abram De Swaan, em seu livro Words of the World (2001), apresenta a teoria sobre o sistema linguístico global, segundo a qual é possível calcular o potencial comunicativo das línguas. Para exemplificar acerca desse potencial, podemos mostrar a situação das línguas periféricas. De acordo com este pesquisador, 98% das línguas do mundo são consideradas periféricas e, embora haja milhares delas, juntas são faladas por menos de 10% da humanidade. A maioria dessas línguas é ágrafa e falada por menos de 1000 falantes, o que as coloca numa posição de perigo de extinção. Como exemplo podemos citar a língua indígena Xypaia, localizada na cidade de Altamira, no Pará (Brasil) que tem hoje, conforme o site dos Povos Indígenas do Brasil, vinculado ao Instituto Socioambiental (ISA), uma população de apenas 173 pessoas, das quais a maioria fala português (Patrício, 2021). Apenas alguns poucos anciãos sabem a língua Xypaia, mas não a usam cotidianamente. Além disso, há cerca de uma centena de línguas centrais no mundo, usadas por cerca de 95% da humanidade na educação e na maioria dos meios de comunicação. Geralmente são línguas nacionais, algumas vezes oficiais, usadas para registro, ou seja, não apenas são línguas faladas mas também escritas, documentadas e conservadas para a posteridade. Por fim, existem as línguas supercentrais, que são grandes grupos linguísticos formados por línguas centrais conectadas por falantes multilíngues. Muitas foram impostas durante o período colonial e continuaram sendo usadas depois da independência, como idioma oficial, como é o caso da LP no Brasil. Hoje são reconhecidas 11 línguas supercentrais: português, árabe, chinês, francês, alemão, hindi, japonês, malaio, russo, espanhol e suaíle. Nesse sistema linguístico, o inglês ocupa a posição hipercentral, assumindo atualmente o papel de língua de comunicação global. Neste âmbito de internacionalização das línguas, é necessário definir a LP como Língua Não Materna (PLNM). Ançã, que é uma das pioneiras nos estudos de PLNM em Portugal, orienta-nos com reflexões muito precisas a respeito da construção do saber linguístico: Assumindo que ensinar em língua segunda a sujeitos e por sujeitos para quem o Português não é essencialmente língua materna, implica o recurso, que se quer consciente, às línguas e às culturas de origem. A construção do saber realiza-se não a partir do vazio, mas partindo e partilhando as diferentes dimensões que se vão traçando face ao outro, face ao mundo e na apreensão dos universos semiológicos e antropológicos circundantes e/ou interiorizados (Ançã, 2002, p. 1). Os estudos de Ançã trouxeram grande contribuição à área do PLNM e do ensino de Português para falantes de outras línguas. Outros autores corroboram as reflexões e fortalecem a teoria apresentada por Ançã, discutindo sobre o ensino de Português a estrangeiros no Brasil, a exemplo de São Bernardo (2016) e Amado (2013): Sobre o contexto brasileiro, sabemos que o ensino de PL2 é embrionário se comparado ao ensino de inglês e atualmente de espanhol como línguas estrangeiras. Da mesma maneira, podemos verificar que os cursos de PL2, na maioria dos casos, fica concentrado nas universidades e atendem majoritariamente alunas/os estrangeiros que vêm estudar no país. Igualmente, a prática de ensinar PL2 se isola, na maioria dos casos, em cursos embasados pela Abordagem Gramatical, nos quais o foco central é a gramática, como o próprio nome já diz, pois o principal objetivo desses/as alunas/os é atender às exigências das instituições com relação à aquisição e produção de conhecimento científico (São Bernardo, 2016, pp. 61–62). O ensino de português como língua estrangeira (PLE) no Brasil tem apresentado um crescente movimento nas últimas décadas, com a criação de cursos de PLE em escolas de idiomas e de cursos de extensão à comunidade acadêmica nas universidades. Os primeiros, contudo, voltam-se, majoritariamente, a um público de trabalhadores de grandes empresas e suas famílias; já os últimos prestam um serviço para alunos intercambistas e professores visitantes que, via de regra, permanecem de um a dois anos no Brasil (Amado, 2013, p. 6). Inserido no conceito de PLNM existe ainda o conceito de Português Língua de Acolhimento (PLA) apresentado por Ançã (2003, 2017), Grosso (2010), Amado (2013) e São Bernardo (2016). Para essas autoras, o conceito de PLA extrapola os conceitos de PL2 e PLE pois abarca em si a noção de afetividade e sobrevivência, já que a LP, nesse caso, acolhe tanto o imigrante, que busca melhoria de vida, quanto o refugiado, que sofre perseguições, traumas e muitas vezes abandona tudo que tem, inclusive família, para reconstruir uma vida nova e sobreviver num país por vezes tão diferente da sua terra natal. Assim, “para essa população, recém-chegada, o Português não é a sua LM, no entanto, é em Português que a escolarização decorre e que as aprendizagens se realizam” (Ançã, 2003, p. 3). No entanto, antes mesmo de chegar à escolarização, muitas barreiras são enfrentadas pelos imigrantes e refugiados recém-chegados ao país que recebe essas pessoas. A primeira e, talvez, a maior delas é a barreira linguística, o que dificulta imensamente a adaptação à sociedade de acolhimento (São Bernardo, 2016). O Brasil é ainda muito pouco preparado para essa situação. Assim, o projeto de pesquisa “Formação em Letras para o Português Língua Não Materna” pretende capacitar os alunos da Faculdade de Letras (curso de Português e de Espanhol) do Campus Universitário de Castanhal a atuarem em contexto de Diversidade Linguística e Cultural, nomeadamente em salas de aula da Educação Básica do município de Castanhal e região, onde há presença de alunos imigrantes e/ou indígenas, que não tem o Português como língua materna.