Ecoliteratura: animalidade e vegetalidade na ficção latino-americana
ODS vinculados
- 4 - Educação de Qualidade
Resumo
Ecoliteratura, o que é? Segundo Martín Testa Garibaldo, na tese intitulada, Mediadores Didácticos en la Educación Ambiental de Panamá, la ecoliteratura o la ecocrítica, nombra a la corriente literaria que interpreta la relación del ser humano con la naturaleza. Por supuesto que este fondo literario no tiene nada de novedoso para los lectores o escritores atentos a la relación armoniosa con el medioambiente. Lo que sí es novedoso es abordar la ecoliteratura como una herramienta de educación ambiental. Su expresividad a través de talleres, concilian las contradicciones de la realidad y la fantasía inteligente, para manifestar en todo momento los valores ambientales del desarrollo sostenible (Garibaldo 2026, p. 50). Garibaldo aproxima a ecoliteratura da ecocrítica, conceito que veremos a seguir, atestando que se trata de uma corrente literária que promove a interpretação da relação entre o ser humano e a natureza. Garibaldo trata a ecoliteratura como uma ferramenta de educação ambiental. O termo se mostra bastante complexo. Às vezes é pensado em aproximação ao conceito de ecocrítica, que relaciona os estudos da literatura e do meio ambiente, tendo desembocado en la creación de una escuela de crítica literaria dedicada al estudio de la representación del medio ambiente en las obras literárias (Campos-F.-Fígares, García-Rivera, 2017, p. 96). Seguiremos os passos de Garibaldo considerando a ecoliteratura como uma corrente literária que interpreta a relação do ser humano com a natureza. Neste sentido promove-se a aproximação dos estudos literários com os estudos ambientais. Marie-Hélène Torres no ensaio Ecoteorias, ecotradução e (re)descoberta dos relatos de viagem na e sobre a Amazônia (2023) utiliza o termo ecoliteratura também associando a conceitos próximos à noção de ecocrítica ou da ecoficção: A literatura verde, a ecoliteratura e seus ecotemas revelam a natureza, o meio ambiente, a Terra, como temáticas, personagens ou figura do discurso narrativo e mostram, de certa forma, as relações da natureza e do homem, através de um olhar crítico sobre a forma e o trabalho de escrita, isto é, sobre o que representa a essência da literatura (Torres, 2023, p. 218). Neste caso, conforme podemos notar, Torres utiliza o termo ecoliteratura como representativo da literatura verde, a que representa as relações da natureza e do homem, assim como outras temáticas ligadas a isso. Buscando explicitar o que conceito de ecotradução, matéria da qual se ocupa, Torres correlaciona ecotradução como uma vertente da ecoliteratura: Ainda à luz da ecoliteratura, a ecotradução, concerne aos textos (literários no que me ocupa) que trazem de uma forma ou de outra a natureza como tema, personagem, reflexão (Torres, 2023, p. 222). Neste caso, segundo a percepção de Torres, ela refere a ecoliteratura como aquela que tem como tema, perspectivas ou personagens ligados à temática verde ou ambiental. Ela também cita um artigo de Guilherme José Purvim (2020), Ecoliteratura brasileira no século XIX?, do qual também nos servimos, por destacar em seu título o termo ecoliteratura como sinônimo de literatura que fala sobre a presença de temáticas do meio ambiente e suas implicações na literatura. Adotamos o termo ecoliteratura para nomear este projeto por entender tratar-se de uma ferramenta de educação ambiental, como sugere Garibaldo, em que se pode encontrar temas e figuras ficcionais e outros elementos da narrativa ligados à matéria ambiental nos textos literários. Conforme vimos, por vezes, a palavra ecoliteratura é confundida com outra terminologia, como ecocrítica, mas enquanto a primeira volta-se à literatura a segunda enfoca outros gêneros, mídias e saberes distintos da literatura. Cherryl Glotfelty (1996) definiu a ecocrítica como uma vertente do campo literário voltado para o estudo da relação que os seres humanos têm com a natureza. Há é claro um pendor interdisciplinar, pois a ecocrítica transita entre outros saberes e mídias, mostrando-se além das fronteiras literárias e culturais. Como vimos no caso de Garibaldo, muitos associam o termo ecocrítica como sinônimo de estudo da literatura e meio ambiente, o que, neste caso, abarcaria o conceito de ecoliteratura. Na introdução de The Ecocriticism Reader, Cherryl Glotfelty conceitua o que entende por ecocrítica: Dito em termos simples, a ecocrítica é o estudo da relação entre a literatura e o ambiente físico. Assim como a crítica feminista examina a língua e a literatura de um ponto de vista consciente dos gêneros, e a crítica marxista traz para sua interpretação dos textos uma consciência dos modos de produção e das classes econômicas, a ecocrítica adota uma abordagem dos estudos literários centrada na terra (Glotfelty, 1996, p. xix). Greg Galard, em Ecocrítica, fala sobre a postura política assumida pela ecocrítica, a exemplo do feminismo e do marxismo: Os ecocríticos costumam vincular explicitamente suas análises culturais a um projeto moral e político verde. Nesse aspecto, ela se relaciona de perto com desdobramentos de orientação ambientalista na filosofia e na teoria política. Desenvolvendo as percepções de movimentos críticos anteriores, os ecofeministas, os ecologistas sociais e os defensores da justiça ambiental buscam uma síntese das preocupações ambientais e sociais (Galard, 2006, p. 14). A propósito da concepção marxista, Robert Sayre e Michael Löwy (2021), em Anticapitalismo romântico e natureza: o jardim encantado, seguindo a corrente ecocrítica, destacam a importância de uma abordagem do anticapitalismo romântico voltada às humanidades ambientais: A primeira característica definidora desse movimento é, naturalmente, a conexão integral entre as questões ambientais e as preocupações abordadas pelas humanidades, ou seja, questões que envolvem fenômenos culturais. Essa abordagem entende as crises ecológicas como crises de cultura. Nossa exploração da valorização romântica do mundo natural e o protesto contra os efeitos destrutivos sobre esse mundo do capitalismo industrial moderno é um exemplo importante, no contexto da civilização ocidental, da interação íntima entre meio ambiente e cultura (Sayre; Löwy, 2021, p. 24). A ecocrítica romântica, inserida nos domínios dos estudos culturais e ambientais, pensada por Sayre e Löwy, mostra-se como uma revolta cultural e moral radical contra os danos resultantes da interação das sociedades humanas modernas com a natureza, em nome de valores qualitativos perdidos na modernidade (Sayre; Löwy, 2021, p. 24). Essa abordagem sofre críticas em razão de valorizar os textos de teor do movimento romântico, incluindo nesses julgamentos algumas perguntas que nortearam a concepção de Glotfelty, segundo considerações de Galard (2006). Dessas perspectivas fica-nos a indicação de que a orientação moral e política adotada pela ecocrítica e o caráter interdisciplinar são essenciais. Greg Galard define que o objeto de estudo da ecocrítica é o estudo da relação entre o humano e o não-humano, ao longo de toda a história cultural humana e acarretando uma análise crítica do próprio termo humano (Galard, 2006, p. 16). A ênfase, que queremos dar a este projeto, a partir dos pensamentos dos autores até aqui abordados, para a abordagem literária e cultural é clara, reconhecendo o caráter interdisciplinar e intermidiático que a matéria exige. Em razão disso, consideramos oportuno coadunar o estudo da ecocrítica com os postulados sobre o perspectivismo ameríndio e o multinaturalismo, consoante Viveiros de Castro, presente em A inconstância da alma selvagem e outros ensaios de antropologia. O multinaturalismo é um termo usado para [..] assinalar um dos traços contrastivos do pensamento ameríndio em relação às cosmologias 'multiculturalistas' modernas. Enquanto estas se apóiam na implicação mútua entre unicidade da natureza e multiplicidade das culturas- a primeira garantida pela universalidade objetiva dos corpos e da substância, a segunda gerada pela particularidade subjetiva dos espíritos e do significado -, a concepção ameríndia suporia, ao contrário, uma unidade do espírito e uma diversidade dos corpos. A cultura ou o sujeito seriam aqui a forma do universal; a natureza ou o objeto, a forma do particular (Viveiros de Castro, 2002, p. 349). A unidade do espírito e uma diversidade dos corpos (Viveiros de Castro, 2002, p. 349) leva-nos a considerar a forma como na literatura a animalidade e a vegetalidade, por são representadas. Viveiros de Castro tem como ponto de partida a perspectiva que indígenas da Amazônia manifestam sobre a natureza. A longa citação de Viveiros de Castro ajuda-nos a entender de que trata o perspectivismo ameríndio: O estímulo inicial para esta reflexão foram as numerosas referências, na etnografia amazônica, a uma concepção indígena segundo a qual o modo como os seres humanos vêem os animais e outras subjetividades que povoam o universo- deuses, espíritos, mortos, habitantes de outros níveis cósmicos, plantas, fenômenos meteorológicos, acidentes geográficos, objetos e artefatos-, é profundamente diferente do modo como esses seres vêem os humanos e se vêem a si mesmos. Tipicamente, os humanos, em condições normais, vêem os humanos como humanos e os animais como animais; quanto aos espíritos, ver estes seres usualmente invisíveis é um signo seguro de que as 'condições' não são normais. Os animais predadores e os espíritos, entretanto, vêem os humanos como animais de presa, ao passo que os animais de presa vêem os humanos como espíritos ou como animais predadores: "O ser humano se vê a si mesmo como tal. A lua, a serpente, o jaguar e a mãe da varíola o vêem, contudo, como um tapir ou um pecari, que eles matam", anota Baer (1994: 224) sobre os Machiguenga. Vendo-nos como não-humanos, é a si mesmos que os animais e espíritos vêem como humanos (Viveiros de Castro, 2002, p. 350). Esta visão contrária à concepção ocidental a respeito da relação animalidade e humanidade leva-nos a considerar outro ponto óbvio: o homem antes de tudo é um animal. A separação da parte da animalidade da humanidade é a questão. Quanto ao pensamento ocidenatal, a ecocrítica, a ecoliteratura e a zooliteratura, por exemplo, nos ajudarão a pensar tal questão assim como outras pertinentes. Na perspectiva ameríndia o ponto nodal é outro: animais também são pessoas. Viveiros de Castro explica essa questão de perspectiva: Em suma, os animais são gente, ou se vêem como pessoas. Tal concepção está quase sempre associada à idéia de que a forma manifesta de cada espécie é um envoltório (uma 'roupa') a esconder uma forma interna humana, normalmente visível apenas aos olhos da própria espécie ou de certos seres transespecíficos, como os xamãs.3 Essa forma interna é o espírito do animal: uma intencionalidade ou subjetividade formalmente idêntica à consciência humana, materializável, digamos assim, em um esquema corporal humano oculto sob a máscara animal. Teríamos então, à primeira vista, uma distinção entre uma essência antropomorfa de tipo espiritual, comum aos seres animados, e uma aparência corporal variável, característica de cada espécie, mas que não seria um atributo fixo, e sim uma roupa trocável e descartável (Viveiros de Castro, 2002, p. 350). Narrativas orais indígenas ou mesmo outros gêneros literários que enfoquem a perspectiva indígena necessitariam desse tipo de ponto de vista para serem bem interpretados. Aliás, a própria cultura ocidental poderia e deveria servir-se desse tipo perspectiva para pensar o humano e o não humano ou o animal humano e o animal não humano em suas relações entre si e com o mundo, conforme o ponto de vista presente nos textos literários. Para Glotfelty (1996, p. xix), ecocriticism expands the notion of the world to include the entire ecosphere, ou seja, a ecocrítica expande a noção de mundo para incluir toda a ecosfera (Tradução nossa). É aqui que o mundo vegetal e animal ganham relevo, ultrapassando a condição de coisas formadoras do ambiente para exercerem papeis de sujeitos.