Quintais e conexões ancestrais: práticas educativas do cuidar feminino em comunidades tradicionais da Amazônia
ODS vinculados
- 4 - Educação de Qualidade
- 5 - Igualdade de Gênero
Resumo
O tema abordado nesse estudo é Quintais e conexões ancestrais: práticas educativas do cuidar feminino em comunidades tradicionais da Amazônia. As práticas educativas e culturais de mulheres de comunidades tradicionais amazônicas se constituem na convivência e das experiências compartilhadas, atravessadas pelos campos simbólico, afetivo, político e cultural produzindo sentidos sobre os processos vividos, e, configurando vivências de afetos e memórias que fortalecem os vínculos e saberes ancestrais e o protagonismo feminino. Assim, mais do estudar com as mulheres de comunidades tradicionais amazônicas sobre os saberes e práticas de cura, o olhar deste estudo, se volta às suas experiências, visualizando-as ao campo da educação, mais especificamente das práticas educativas, no sentido de traçar as linhas de suas subjetividades e conectá-las as multiplicidades de representações que atravessam suas vivências em diferentes territórios amazônicos. Desta forma, objetiva-se analisar as práticas educativas e culturais que ocorrem nos quintais de mulheres de comunidades tradicionais amazônicas sobre o cuidar feminino e suas conexões com os saberes de cura ancestrais. Para tanto, se propõe: a) Diagnosticar experiências das mulheres de comunidades tradicionais nos quintais produtivos relacionadas aos saberes do cuidado feminino; b) Identificar a transmissão, os ensinamentos e a aquisição desses saberes explorando como aprendem e aplicam o manejo dos remédios ligados aos quintais; d) Compreender em que medida as práticas do cuidado feminino revelam conexões com os saberes de cura ancestrais; e) Analisar pontos convergentes e divergentes das produções dos quintais das mulheres amazônicas de diferentes territórios (água/campo/florestas) e os saberes e práticas do cuidados feminino. Observa-se que os Quintais Amazônicos como lugar que transcende a ideia de extensão da casa, ele guarda perfeita integração com a mata, o rio ou mar e com a própria natureza correlacionada a própria biodiversidade territorial. Os quintais produtivos apresentam características territoriais e agroecológicas, mas também e, sobretudo, se configuram como lugar de luta e reexistências de mulheres de populações tradicionais amazônicas. Lugar de produção, circulação e consumo evidenciando diferentes espécies alimentícias, medicinais, condimentares, além de diferentes criações animais. Desta forma, no sentido de abranger parte dessa pluridiversidade a pesquisa será desenvolvida com mulheres de comunidades tradicionais da Amazônia Paraense, em três territórios específicos: a) Mulheres de territórios do Estuarino Costeiro; b) Mulheres de Territórios Quilombolas; c) Mulheres de territórios Indigenas. Metodologicamente orientada pela pesquisa participante optou-se por metodologias que permitisse as mulheres narrarem suas histórias, saberes e experiências cotidianas. Assim, adotou-se as técnicas de pesquisa qualitativas da história oral e da autoetnografia. Organizadas em quatros momentos: a) Primeiro Momento Escutas das histórias de vida das Mulheres da Pesquisa; b) No segundo Momento Cartografia Social dos territórios lócus da e seus quintais produtivos; c) Terceiro Momento observação participante; e, b) o quarto discussão, interpretação e sistematização dos resultados. Como resultado e impacto desta pesquisa espera-se: 1) Sistematização coletiva dos conhecimentos e divulgação do conhecimento amazônico envolvendo o protagonismo mulheres pesquisas à outras formas de produção do conhecimento; Por ser uma pesquisa interdisciplinar se configura como uma experiência metodológica que se propõe articular diferentes áreas saber e o desenvolvimento de diferentes ações para garantir o processo de superação da relação sujeito-objeto e potencializar uma pesquisa que materialize práticas emancipatórias e dê visibilidade aos mulheres pesquisadas. Assim, o impacto desta pesquisa, se configura não apenas na construção de uma metodologia interdisciplinar na área da educação, mas no objeto pesquisado na articulação dos saberes de cura ancestrais às práticas produtivas e culturais desenvolvidas por mulheres amazônicas em seus quintais. Assim, o projeto envolve o empoderamento e pertencimento mulheres amazônicas às complexidades socioculturais e ambientais Amazônicas voltadas à construção da consciência de mudança, como também, às práticas do fazer pesquisa na articulação da área da educação à área interdisciplinar. Configurando as sujeitas participes da pesquisa, como autores sociais, produtoras de conhecimentos e sujeitas da construção de novas sociabilidades e s formas de se pensar a educação. 2) O autoconhecimento sobre as práticas de cultivo potencializa o melhoramento dos quintais no que tange o cuidado de saúde. As interações de Mulheres de comunidades Tradicionais na Amazonia com seus quintais têm garantido a diversidade de sementes, a biodiversidade das plantas medicinais e um conjunto de práticas agroecológicas que permitem que hoje, a construção de uma identidade cultural, envolve não somente o respeito e cuidado com a natureza, mas também, a segurança alimentar dos povos do campo, qualidade nutricional da alimentação, além do tratamento de doenças de muitas famílias (Brumer, 2008). Nessa direção, compreendemos a importância desta pesquisa para a visibilidade dos saberes de cura ancestrais e para a sistematização de tecnologias agroecológicas. A necessidade de reflexão desse Lugar (quintais) não apenas como extensão da casa, mas como espaço de produção, saberes e re(existências) das mulheres nas Amazônias Paraense. Neste sentido, aplicação e difusão dos conhecimentos gerados nessas práticas, configuram-se com uma rede de saberes de práticas que carregam significações estratégicas para a melhoria da qualidade dos modos de vida das populações amazônicas. 3. O autoconhecimento sobre os saberes de cura ancestrais potencializa fomentar o processo de descolonização do ser, do saber e fazer da mulher Amazônica. Ao apontarmos que o processo de descolonização das mulheres amazônicas, a ideia não é fazer desta pesquisa uma expressão endógena da cultura Amazônica, nem de exaltar à sua excelência de forma imobilizada no tempo. Mas, trata-se de discutir e contestar a ideia de uma cultura Amazônica como inferior, pobre e, revelar a originalidade, a riqueza e potencializar seus traços essenciais, assim, como contribuir para o debate de gênero sobre o papel das mulheres na segurança alimentar e nas práticas de saúde. Compreende-se que a relação das mulheres com a natureza é tão intima e orgânica, que projetos de desenvolvimento predatório são colonizadores (Santos, 2021). Neste sentido, a pesquisa deve contribuir para que o pensar o Amazônia na confluências do envolvimento das mulheres para além do debate de implementar novas tecnologias e insumos para aumentar a produção e ampliar o capital econômico. O processo de autoconhecimento fortalece formas de resistência ligadas a suas práticas de cuidado, cultivo e consciência em seus quintais. Parafraseando Nêgo Bispo (2023) contribuir para o despertar de olhares descolonializados diante dos atuais processos de colonização, que criam rupturas e novas identidades não reconhecidas pelos sujeitos amazônicos.