PERTURBAM A POSSE E ATENTAM AO DIREITO: Criadores, roceiros e extratores e as terras em litígio nos sertões amazônicos do século XIX
ODS vinculados
- 16 - Paz, Justiça e Instituições Eficazes
Resumo
Nos ocuparemos, neste projeto, com a problematização dos discursos dos representantes oficiais das províncias amazônicas (Pará e Amazonas), bem como de posseiros e proprietários, em um contexto de modernização da propriedade rural e da instituição de um mercado de terras no Brasil da segunda metade do século XIX. Procuraremos compreender as experiências de posses, de relações de domínio e conflitos fundiários que marcaram o modo de vida de roceiros, extratores e criadores que ocupavam os sertões amazônicos; região de fronteira marcada por conflitos em torno do domínio das terras de florestas. Baseado em um escopo documental diverso como os informes governamentais, os relatórios derivados das expedições militares, as correspondências entre os diversos níveis de representação (local, regional, nacional e internacional), relatos de indivíduos ou grupos e documentações cartorárias e processo judiciais , objetiva-se recuperar as diversas interpretações daqueles atores sociais sobre temas, especialmente através da análise das redes de cooperação criadas para assegurar a posse da terra. A elaboração de noções sobre uma moderna propriedade e uma agricultura melhorada, que se buscou efetivar na Amazônia, principalmente após a aprovação da Lei de Terras de 1850 e de seu regulamento, de 1854, esbarraram diretamente nos interesses das elites locais que, a partir de seus projetos, manipularam as determinações previstas nos marcos legais. No caso, atentaremos para estudos de casos de litígio de terras que envolveram pequenos posseiros e que se viam como proprietários ou queriam ser assim reconhecidos a partir de suas experiências de posse, suas estratégias de legitimação, concepções e práticas de propriedade construídas em suas redes de vizinhança. Discutiremos ações que expressam noções de direito pautadas na defesa do acesso à terra e que vão mobilizar tanto o repertório empírico de práticas costumeiras de apossamento quanto o recurso à formalização jurídica que está sendo construída e reconstruída. A abordagem está associada na vertente da História Social da Propriedade, em que se questiona a naturalização da noção de propriedade a partir de sua formalização institucional e sua consagração como lei. No caso, se entende que a propriedade deve ser pensada no seu fazer histórico, como prática, a partir das relações sociais. A trajetória de pesquisa sobre a Amazônia tem demonstrado, assim, como diversas interpretações sobre as leis, bem como a sua aplicabilidade ou ignorância, foram fundamentais para garantir a reprodução da riqueza e patrimônio das classes abastadas. Esse processo, do mesmo modo, e neste projeto procuramos defender, e é a tese que justifica esta pesquisa, também se caracterizou pelas resistências exercidas pelos povos da floresta e das águas, dotado de referenciais históricos e culturais diversos daqueles que se pretendiam, do ponto de vista do Estado e das elites políticas, como hegemônicos.