Amazônia como fronteira: Floresta, domínios e conflitos (séculos XIX e XX)
Resumo
Nos ocupamos, neste projeto, na problematização dos discursos dos representantes oficiais das províncias amazônicas, bem como de posseiros e proprietários, em um contexto de modernização da propriedade rural e da instituição de um mercado de terras no Brasil da segunda metade do século XIX e primeiras do XX. Procuraremos compreender as experiências de posses, de relações de domínio e conflitos fundiários que marcaram o modo de vida de roceiros, extratores e criadores que ocupavam os sertões amazônicos, região de fronteira e marcada por conflitos em torno do domínio das terras de florestas. Baseado em um escopo documental diverso, como os informes governamentais, os relatórios derivados das expedições militares, as correspondências entre os diversos níveis de representação (local, regional, nacional e internacional), relatos de indivíduos ou grupos, periódicos e documentações cartorárias ?, objetiva-se, portanto, recuperar as diversas interpretações daqueles atores sociais sobre aqueles temas, especialmente através da análise das redes de cooperação criadas para assegurar a posse e a propriedade da terra. A elaboração de noções sobre uma moderna propriedade e uma agricultura melhorada, que se buscou efetivar na Amazônia, principalmente após a aprovação da Lei de Terras de 1850 e de seu regulamento, de 1854, esbarraram diretamente nos interesses das elites locais que, a partir de seus projetos, manipularam as determinações previstas nos marcos legais. A trajetória de pesquisa sobre a Amazônia tem demonstrado, assim, como diversas interpretações sobre as leis, bem como a sua aplicabilidade ou ignorância, foram fundamentais para garantir a reprodução da riqueza e patrimônio das classes abastadas. Esse processo, do mesmo modo, também se caracterizou pelas resistências exercidas pelos povos da floresta e das águas, dotado de referenciais históricos e culturais diversos daqueles que se pretendiam, do ponto de vista do Estado e das elites políticas, como hegemônicos.