Sintaxe e ensino: das inconsistências da gramática tradicional a uma análise epilinguística no contexto ensino/aprendizagem de Português e Apurinã (Aruák)
ODS vinculados
- 4 - Educação de Qualidade
Impacto na Amazônia
- Comunidades Tradicionais – Ações com Povos Indígenas ou Originários
Resumo
O presente projeto, intitulado Sintaxe e ensino: das inconsistências da gramática tradicional a uma análise epilinguística no contexto ensino/aprendizagem de Português e Apurinã (Aruák), busca oferecer a alunos de iniciação científica um modo de pesquisar/ensinar sintaxe que fuja dos moldes tradicionais, cuja principal preocupação tem sido reproduzir antigas e ultrapassadas práticas de prescrição de regras (muitas vezes distanciadas do uso linguístico atual) , classificação de itens linguísticos, uso de metalinguagem técnica, sem um efetivo pensar sobre a língua em seus diferentes contextos de uso. Ao contrário do que faz parecer o senso comum, o ensino/aprendizagem de sintaxe não se resume à mera classificação dos termos da oração em sujeitos, predicativos, objetos indiretos, etc., tampouco na classificação das orações coordenadas e subordinadas substantivas, adjetivas e adverbiais. Pesquisar/ensinar sintaxe, na realidade, extrapola os limites do mero reconhecimento e classificação de constituintes. Pesquisar/ensinar sintaxe pressupõe admitir que a sintaxe se articula não apenas com a morfologia, mas também com a semântica, com a pragmática, com a esfera discursiva. Segundo Perini (2019), alguns linguistas acreditam que [...] a sintaxe se resume à exposição dos arranjos formais possíveis em uma língua, sem referência a seu significado. Mas essa posição é mais adotada em princípio do que na prática; fazer sintaxe sem levar em conta alguns aspectos do significado acaba restringindo a descrição gramatical [...] (PERINI, 2019, p. 22). Adicionalmente, sobre os impactos da sintaxe nas esferas pragmático/discursivas, verifica-se que certos arranjos sintáticos agregam a determinados usos linguísticos muito mais do que a sintaxe pura poderia explicar: vejam-se os casos de paralelismo em textos literários e de ambiguidades estruturais, na produção do efeito humorístico. Em se tratando da pesquisa/ensino de sintaxe em língua portuguesa, observam-se diversas inconsistências na maneira como certos aspectos referentes à classificação de categorias sintáticas são apresentados nos livros didáticos de português: a função sujeito, por exemplo, classificada como um termo essencial da oração, ao mesmo tempo em que se prevê a categoria oração sem sujeito (cf. KENEDY e OTHERO, 2018), em sentenças como Chove muito em Belém, por exemplo; a proposição de uma partícula apassivadora que se confunde com um índice de indeterminação do sujeito, o que é chamado por Bagno (2001) de pseudo passiva sintética; a noção de transitividade enquanto propriedade apenas do verbo, em oposição a uma noção escalar de transitividade (cf. CUNHA e SOUZA, 2011), entre outras incongruências. Nesse sentido, propõe-se, neste projeto, a pesquisa em sintaxe aplicada ao ensino de língua portuguesa, de modo a problematizar as inconsistências encontradas nas gramáticas tradicionais e nos livros didáticos de português, acerca do conhecimento sintático, com base na adoção de atividades de reflexão linguística (ou atividades epilinguísticas) e na produção de estratégias e materiais didáticos alternativos (cadernos de atividades, jogos, exercícios, por exemplo) que auxiliem nesse propósito . Em se tratando da pesquisa/ensino de sintaxe na língua Apurinã, a primeira questão a se levantar é a escassez de materiais didáticos na língua que se voltem para o conhecimento sintático. Em projeto de pesquisa anterior, foram produzidos alguns materiais didáticos na língua, envolvendo aspectos outros, daí a necessidade de se investir na produção de novos materiais que possam dar conta de questões ligadas à sintaxe. Para tanto, faz-se necessário selecionar textos em Apurinã, analisar padrões oracionais, verificar em que medida certos arranjos sintáticos estão ligados a aspectos pragmáticos, discursivos para, posteriormente, proceder à elaboração de materiais didáticos (cadernos de atividades, jogos, exercícios, por exemplo) . Esse tipo de contribuição, primordialmente, é um importante instrumento de revitalização e manutenção dessa língua indígena, uma vez que apenas uma minoria de seu povo domina a própria língua, pois o português já passou a ser predominante entre os indígenas, o que põe a língua Apurinã em risco de extinção. Adicionalmente, a pesquisa na língua Apurinã aplicada à elaboração de materiais didáticos prepara os orientandos de iniciação científica no processo de seleção, organização, análise e descrição de línguas naturais, sendo uma boa base para a formação de pesquisadores. Em suma, a pesquisa/ensino de sintaxe proposta no presente projeto, tanto em Apurinã quanto em português, busca servir a um propósito aplicado, voltado para a elaboração de materiais e estratégias de ensino/aprendizagem em sintaxe, sob um viés epilinguístico, partindo de uma visão ampla de sintaxe, admitindo-se as fronteiras instáveis dessa área em relação à semântica, à pragmática, ao discurso.