Literatura da Amazônia e Direitos Humanos
ODS vinculados
- 4 - Educação de Qualidade
- 5 - Igualdade de Gênero
- 9 - Indústria, Inovação e Infraestrutura
- 11 - Cidades e Comunidades Sustentáveis
- 13 - Ação Contra a Mudança Global do Clima
- 14 - Vida na Água
- 15 - Vida Terrestre
Impacto na Amazônia
- Comunidades Tradicionais – Ações com Povos Indígenas ou Originários
Resumo
Trata da relação entre literatura e direitos humanos, essa em que o ato de fabular coloca aquele que o experimenta diante do diferente, de um outro, de uma vida fora dos hábitos e das familiaridades instituintes de valores cristalizados, de fabulação de uma outra vida ou de uma vida que não há, e mais, de uma religação com a vida. estamos diante de uma questão-problema para um projeto de pesquisa que tem como principal motivação a procura de uma mudança no caminho trilhado por quem estuda Literatura e Direito no Brasil, caminho que tem seguido uma deficiência estrutural do poder judiciário e do sistema de justiça a partir da formação social brasileira. Esse caminho deficiente é possível ser transformado por uma perspectiva de literatura e direitos humanos como novos direitos, numa objetivação do tipo que relações políticas, sociais e econômicas estariam numa relação instrumental com o conteúdo moral dos direitos humanos; e a de que a fundamentação filosófica dos direitos humanos passa pela inclusão do outro. No campo da literatura em específico, mas não exclusivamente, amazônico. O projeto pretende percorrer os territórios interartísticos e interculturais à cata dos sentidos estético-culturais que ajudem a ativar a melhor compreensão do tempo e espaço amazônico, brasileiro e latino-americano a fim de intermediar simbolicamente a questão do humano nessa região, bem como as identidades. O presente projeto buscará recompor o campo citado na dinâmica da modernidade e pós-modernidade, em um estudo contemporâneo de cultura. Apresentar os objetos artístico-culturais pesquisados que já não se sustentam unicamente nas noções de culturas populares, cultura de massa, alta cultura, baixa cultura, cultura nacional e regional. Processos globalizantes têm interferido nos direitos humanos na Amazônia, bem como nos sistemas e circuitos culturais locais e demandado novos sistemas disciplinares sobre conhecimentos resultantes dessa globalização. Tais processos estão ativos na Amazônia, a ponto de deslocarem as noções uniformes e de senso comum de uma terra isolada ou de fronteira, de ciclo da natureza a reger a cultura do homem. Em todas as versões de projetos de pesquisa que tenho realizado a relação do homem-natureza-civilização tem sido focado sob as lentes ¬dos bens de cultura e interpretados em dissertação, tese, artigos, artigo-documentário e conferências, bem como por orientandos, iniciantes à pesquisa e colaboradores em nível de graduação e pós-graduação, na Universidade Federal do Pará, para melhor compor uma cartografia de saber e conhecimento sobre a Amazônia e sua intermediação simbólica pela literatura. Dentre esses bens de cultura encontram-se relatórios de governos, mapas, fotos, relatos e crônicas de viajantes, narrativas e poéticas indígenas, narrativas e poéticas orais populares, textos literários em diversos gêneros, além de textos teórico-analíticos sobre a Amazônia como espaço em transformação. Retomo também o que já argumentei em outro projeto sobre que, a partir das indagações sobre quem teria, ou não, representado o espaço amazônico em transformação e do trabalho interdisciplinar influenciado pela formação teórico-crítica da literatura comparada contemporânea, eu cheguei à relação entre literatura como bem de cultura e a geografia. Na revista Gragoatá de número 33, 2012, disponível em http://www.uff.br/revistagragoata/revistas/gragoata33web.pdf, Michel Collot define bem o campo da geografia literária ao dizer que se trata de uma significativa convergência entre as duas disciplinas [Geografia e Literatura]: os geógrafos encontram na literatura a melhor expressão da relação concreta, afetiva e simbólica a unir o homem aos lugares, e os escritores se mostram, do seu lado, cada vez mais atentos ao espaço em que se desenvolve a escrita (p. 19). Nesse artigo, Collot divide os campos disciplinares dessa relação em geografia da literatura, geocrítica e geopoética. A primeira diz respeito ao contexto de produção e circulação das obras literárias no espaço; a segunda refere-se à representação do espaço pelo e no texto literário; e a terceira à forma resultante de um espaço em que gêneros e espécies novas de literatura são ativadas, com pensamento e imaginário singulares àquele espaço. O ponto aqui, neste projeto, é articular essa relação da literatura com o imaginário do lugar e a construção das identidades, com a questão do humano oriunda dos direitos humanos. A partir dessa síntese teórica pode-se justificar que o presente projeto insere-se em uma epistemologia da Literatura Comparada, dos Estudos de Cultura e dos Direitos Humanos, bem como o da Geografia literária e cultural. Na minha tese Lanterna dos Afogados: literatura, história e cidade em meio à selva (UFMG, 2004), que foi publicada em livro em 2021, escrevi que Há um exercício humano nas diversas conformações fronteiriças que assume a cidade. Um exercício de alteração do espaço natural segundo a percepção e compreensão do sujeito que imprime a ação de transformar esse espaço natural que o cerca. A cidade é um espaço em que os objetos produzidos pelos diversos sujeitos revelam seu teor de modernidade e sua historicidade. Mas o espaço urbano está presente também no território que o margeia, afinal a cidade está viva no imaginário daqueles que estão de fora. Daí ser possível dizer que a cidade não é somente a prova material de um projeto, é também o movimento simultâneo dos diversos agentes que se cruzam e transformam as bases materiais que pareciam querer cristalizar-se (1º capítulo: Cidade em meio à selva). E ainda, em suas diferentes etapas históricas, produzem os bens simbólicos e de cultura que dão forma às imagens e paisagens desse lugar em transformação.