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A pesquisa (socio)linguística do Mundurukú: Perspectivas sobre a vitalidade da língua

Unidade
INSTITUTO DE LETRAS E COMUNICACAO - ILC
Subunidade
FACULDADE DE LETRAS
Coordenador
GESSIANE DE FATIMA LOBATO PICANCO
Período
2023-10-01 a 2026-09-30
Grupo
Pesquisa

ODS vinculados

  • 4 - Educação de Qualidade
  • 5 - Igualdade de Gênero

Impacto na Amazônia

  • Comunidades Tradicionais – Ações com Povos Indígenas ou Originários
  • Políticas Públicas – Apoio à Formulação

Resumo

INTRODUÇÃO O primeiro registro dos Mundurukú data de 1768, no relato do Padre José Monteiro de Noronha (Noronha, 1862), sob o codinome Maturucú. A partir daí, os relatos sobre o povo descrevem-no sempre como “gentios hostis e selvagens”, lançando constantes ataques a outras tribos e povoados na região amazônica. Ouvidor Sampaio, em “As viagens do ouvidor Sampaio (1774-1775)”, descreve que “Os Muturicús, que de quatro annos a esta parte hostilisão as nossas povoações do rio Topajóz, trazem consigo as mulheres, as quaes na ocasião do conflito, lhes subministrão as frechas (...)” (Sampaio, 1985, p. 42). Foi somente com Lobo d’Almada, segundo Reis (1940, p. 41), que se iniciou o processo de “pacificação” com os Mundurukú, em 1793, e “Antes de findar o seculo os Mundurucús, arrastando os Maués, estavam agrupados em Tupinambarana, Maués, Canumá, Abacaxy, Juruty, collaborando com o povoador.” Entre o antes e o agora, os Mundurukú passaram por grandes mudanças. O antigo território, que chegou a ser denominado Mundurucânia, era limitado pelos rios Amazonas, Juruena, Tapajós e Madeira, mas “suas expedições de guerra excediam largamente esses limites, ultrapassando a leste o rio Xingu e chegando mesmo às proximidades de Belém do Pará”, segundo Leopoldi (2007, p. 175). Destes descendem os Kuruaya, da Terra Indígena de mesmo nome, na região da bacia do Xingu, cuja língua é considerada distinta do Mundurukú, compondo essa família linguística (Rodrigues, 1986). O restante do povo está distribuído principalmente em três estados: Amazonas, Mato Grosso e Pará, onde se encontra a maior parte da população, especificamente na Região do Tapajós, entre Santarém e, principalmente, Itaituba e Jacareacanga. Do ponto de vista linguístico, a língua permanece ativa somente em algumas localidades no Mato Grosso e no Pará, com situações adversas. No Censo 2010 (IBGE, 2012), Jacareacanga/PA é apontado como o município com a maior concentração de indígenas no estado (41,4% da população total), e também o que concentra a maior população residente na área urbana (22%), sendo esta predominante mundurukú.1 É este município que abriga as principais terras indígenas dos Mundurukú, onde a língua é adquirida como primeira língua (L1) e com presença, inclusive, de falantes monolíngues, embora não se possa afirmar se Mundurukú é uniformemente adquirida como L1 pelas crianças em todas as aldeias. Na zona urbana de Jacareacanga, local de residência de muitos indígenas, é natural supor que há, no mínimo, uma situação de bilinguismo, ou de português como L1. A língua parece ter sobrevivido parcialmente em algumas comunidades de Itaituba/PA e de Juara/MT, mas perdeu muito espaço para o português. Em Juara, segundo Freytag (2014, p. 26), “os indígenas são bilíngues, falam fluentemente a língua nativa e a portuguesa, mesmo com o processo da aculturação e hibridismo provocado pelo contato o homem não-índio.” No entanto, mais recentemente, Mundurukú e Oliva (2021, p. 157) relatam que “Os diálogos em comunidade entre os jovens estão sendo apenas em Língua Portuguesa e somente entre as pessoas mais velhas da aldeia é falada a língua materna”. Isso indica que a língua indígena não mais é adquirida como L1 nessa localidade, embora restem falantes entre os adultos e anciãos. Situação semelhante é observada nas aldeias próximas à Itaituba, não havendo informações precisas sobre a transmissão intergeracional do Mundurukú. No Amazonas, um levantamento realizado por Borella e Santos (2011) atestou que havia, na época do estudo, cinco idosos que adquiriram a língua na infância; o restante do povo tem somente o português como primeira língua. Desse modo, observa-se um cenário obscuro e, ao mesmo tempo, preocupante, resumido no quadro abaixo, com aumento do uso da língua majoritária e redução do uso da língua Mundurukú nos territórios habitados por esse povo. É esse cenário que motiva a presente pesquisa. A proposta visa construir o atual perfil (socio)linguístico da língua Mundurukú (Tupí), falada no Estado do Pará, região do Tapajós, em três ambientes: ambiente familiar, ambiente escolar e outros ambientes de interação social. Tomaremos como locus da pesquisa, as terras indígenas localizadas no município de Itaituba (TI Praia do Índio e TI Praia do Mangue), e a área urbana de Jacareacanga, com possibilidade de condução da pesquisa também em aldeias próximas a este município, onde há maior probabilidade de encontrarmos o Português com primeira língua. Por ser uma pesquisa com orientação sociolinguística, acredita-se que os resultados tenham muito a contribuir para a adoção de políticas públicas mais adequadas, especialmente no que se refere a programas de revitalização e fortalecimento da língua e de políticas linguísticas na educação indígena, incluindo: a formação de professores capazes de lidar com os mais diversos níveis de proficiência na língua; a elaboração de materiais didáticos apropriados a esses níveis; e a elaboração de um projeto político pedagógico para as escolas que incluam metodologias de ensino-aprendizagem da língua.