Seyla Benhabib: silenciamento de gênero na história da filosofia. Por uma ética universalista sensível ao contexto.
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Resumo
A filósofa Seyla Benhabib é professora de filosofia e ciência políticada Universidade de Yale, nos Estados Unidos. É autora da filosofia contemporâneae pertence à tradição da teoriacrítica, com atuação em ética e filosofia política e destaque às discussõesdemocráticas, à ética do discurso a partir do alargamento da teoria de Habermas, aos estudos feministas, à articulação entre universalismo e particularismoe aos direitos humanos. É uma autora que discute os problemas do nosso tempo. Diante da vastidão de possibilidades e perspectivas de abordagens da sua teoria, considero que uma importante chave de leitura da sua obra é analisa-la e compreendê-la à luz da construção de um projeto moderno de democratização da democracia e de um universalismo ético sensível ao contexto, passando pela concepção de um modelo de espaço público que equacione as contribuiçõesdo feminismoà filosofia moral e que seja pautado pela abertura a diálogos com vozes historicamente silenciadas. Benhabib apresenta um modelo forte de democracia, propondo uma ampliação do valor democrático. Trabalha com referenciais da teoria crítica feminista para a construção de uma teoria e de uma práxis reflexiva e emancipatória. A autora apresenta uma crítica consistente às implicações epistemológicas e normativas da moderna teoria moral e política que promoveu um silenciamento e exclusão das mulheres do espaço público a partir de uma concepção dominante de racionalidade que permitiu a legitimação de discursos que invisibilizaram amulher da história, empurrando-a para a esfera privada do cuidado e da intimidade, para o domínio da natureza, para o interior da casa, para amissão de nutrir e reproduzir. Para Benhabib, a invisibilização do domínio privado significa que, enquanto os homens celebram a passagem da natureza para a cultura, do conflito para o consenso, as mulheres permanecem num universo interminável, condenadas a repetir os ciclos da vida no reino atemporal dacasa (nascimento, crescimento, desenvolvimento, envelhecimento e morte). Há uma dicotomia: lei da razão (que pertence aos homens) x a obscuridade da emoção (domínio das mulheres). A teoria moral universal contemporânea, que se limita à perspectiva do outro generalizado,herdou essa dicotomia entre autonomia da razão x cuidados maternais; independência x vinculação; a esfera da justiça e o reino pessoal doméstico. (BENHABIB, 1987, p. 97), ignorando a vulnerabilidade e dependência dos sujeitos comoselves corpóreos. Um ponto importante é que Benhabib situa a sua obra nos marcos da modernidade. Segundo a autora, há um ceticismo como estado de ânimo nos círculos intelectuais, acadêmicos e artísticos acerca da continuidade do projeto modernista, em face de umadesilusão compreensível em razão de uma forma de vida que produz guerras, destruição do meio ambiente, armamentismo, exploração econômica e a violação das condições de realização da dignidade humana, uma forma de vida que debilita as bases de uma coexistência solidária. No entanto, segundo o seu pensamento, o projeto de modernidade apenas pode ser reformado com os recursos intelectuais, morais e políticos possibilitados graças ao desenvolvimento da própria modernidade. Entre os legados da modernidade que necessitam de uma reconstrução, mas não desmantelamento, se encontra o universalismo moral e político que estabelece o respeito universal a cada pessoa em virtude de sua humanidade, a autonomia moral do indivíduo, a justiça, igualdade econômica e social, participaçãodemocrática e exercício de liberdades civis e políticas. O projeto filosófico de Seyla Benhabib retoma ideias da modernidade em defesa do universalismo (sensível ao contexto) moral e político, mas com reformulações e ajustes decisivos em relação defasagens acumuladas historicamente. Desde Platão, passando por Descartes até Kant e Hegel, a filosofia ocidental tematiza a história do sujeito masculino da razão. O sujeito da tradição intelectual ocidental tem sido normalmente o chefe da casa masculino, branco, proprietário e cristão. Então a história como registrada até agora é a sua história. Ademais, as várias filosofias da história dominantes desde o Iluminismo forçaram a narrativa da união, homogeneidade e linearidade que têm como consequência a obliteração da fragmentação, da heterogeneidade e, sobretudo, do ritmo variado de temporalidades diferentes experimentadas por diferentes grupos. Nesse contexto, Benhabib ressalta o gracejo de Hegel sobre a África não ter história, e o cita: A África não é parte da história do mundo... O que propriamente entendemos por África é o espírito a-histórico, não desenvolvido, ainda envolvido nas condições da simples natureza (BENHABIB, 2018, p. 38). Até há pouco tempo, as mulheres também não tinham sua própria história, sua própria narrativa com diferentes categorias de periodização e com diferentes regularidades estruturais. É nesse contexto que, nos marcos do pensamento da filósofa Seyla Benhabib, o presente projeto de pesquisa discutirá a ideia de espaço público; o seu modelo deliberativo de democracia; as críticas ao sujeito da tradição moral herdeira do pensamento moderno; o silenciamento de gênero na história da filosofia; e o universalismo interativo, com ainteração do outro generalizado com o outro concreto a partir do atravessamento da opressão de gênero.