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A inserção da clínica psicanalítica em equipe multidisciplinar e o manejo da transferência na instituição pública: pesquisa, intervenção e ensino no tratamento do autismo e outros problemas do desenvolvimento.

Unidade
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIENCIAS HUMANAS
Subunidade
FACULDADE DE PSICOLOGIA
Coordenador
ROSEANE FREITAS NICOLAU
Período
2024-01-01 a 2025-12-31
Grupo
Pesquisa

ODS vinculados

  • 3 - Saúde e Bem-Estar
  • 4 - Educação de Qualidade
  • 11 - Cidades e Comunidades Sustentáveis
  • 13 - Ação Contra a Mudança Global do Clima
  • 14 - Vida na Água
  • 15 - Vida Terrestre

Resumo

Este projeto propõe ampliar as atividades do projeto anterior desenvolvido nos três últimos anos no Hospital Bettina Ferro de Souza sobre o tema do tratamento multidisciplinar de crianças com problemas do desenvolvimento, em particular o autismo, que, por sua vez, decorre de pesquisas que ao longo de quatorze anos têm se voltado ao diálogo da clínica médica com a teoria psicanalítica, visando a elaboração de dispositivos clínicos de tratamentos em instituições públicas e estratégias de trabalho em equipe multiprofissional de assistência integral à saúde. A ampliação dará efetividade ao diálogo da clínica médica com a teoria psicanalítica, permitindo um melhor desenvolvimento das estratégias de trabalho clínico em equipe, que articule os modos de assistência integral à saúde e estimule o ensino e a produção de conhecimento na área. Nesse sentido, a escuta ao singular dos profissionais e dos pais foi estabelecida a partir das dificuldades de sustentação do trabalho analítico com as crianças e seus responsáveis, advindas particularmente da falta de integração com o trabalho da equipe. Além disso, na atual conjuntura política, em que os tratamentos analítico-comportamentais são fortemente indicados nos encaminhamentos médicos de crianças autistas, em detrimento de outras possibilidades clínicas, os pais tendem a buscar essa modalidade de tratamento, por trabalharem com o desenvolvimento de competências e habilidades sociais, aspectos muito valorizados por eles. Essas questões exigem constante investigação e aprofundamento, pois implicam em uma série de impasses entre o discurso da ciência, que domina uma prática generalizada de prescrições medicamentosas e de procedimentos técnicos homogêneos, e o discurso da psicanálise, que visa o singular de cada sujeito. Isso leva à continuidade da investigação clínica e teórica, com o aprofundamento de estudos em três vertentes: 1) compreensão da constituição do autismo, seu diagnóstico, tratamento e os dispositivos institucionais necessários à terapêutica; 2) buscar a interface do discurso médico com o discurso psicanalítico para pensar a direção do tratamento no sentido da escuta do sujeito singular; 3) Aprofundar o estudo do lugar da psicanálise como um discurso que faz laço social em relação aos outros discursos. Desde o início visamos verificar a prática da teoria psicanalítica, o exercício da ética da psicanálise no hospital, o trabalho do psicanalista, sua eficácia, seus impasses e possibilidades, através do aprofundamento do exame da articulação dos discursos no laço social que se cria no hospital, e pela via da ética de cada uma dessas práticas: aquelas submetidas e inscritas nesse laço social específico. Muitos psicanalistas inseridos nos serviços de atenção à saúde têm pensado a inserção da psicanálise neste campo, tentando fugir a uma idealização pela via da massificação dos atendimentos. O que se marca nas discussões é que a psicanálise se constitui e se firma teorizando cada situação particular, levando em conta as singularidades dos sujeitos envolvidos. É esta especificidade que lhe dá consistência. Querer fazer da psicanálise uma ferramenta a mais para lidar com o sofrimento é uma falácia, pois ela não se presta a tamponar a falta, seja dos outros discursos, seja do profissional que intervém nas instituições. Por outro lado, a psicanálise nos ensina que para um ato clínico ser simbolicamente eficaz, ele tem que remeter a algo que seja imanente ao próprio contexto sobre o qual se propõe a produzir efeitos. Isso significa que nenhum ato é eficaz, se não se remeter a algo prévio da situação. Se tal não acontecer, não haverá ato analítico, mas uma pura e fria intervenção, que apesar de apaziguar, não terá nenhuma eficácia simbólica. É por isso que nós analistas aprendemos a escutar tanto. Para que o momento do ato, que é um momento de decisão, parta da situação, seja determinado por ela. Ressaltamos, ainda, que a investigação se dá no sentido de pensar estratégias de intervenção em equipe, onde cada profissional tem uma explicação própria para o mal que acomete o paciente. Em relação à presença da psicologia no hospital, conforme pudemos observar, está mais vinculada ao discurso da ciência e da pedagogia, ou seja, atrelada ao significante educação, determinando rotinas de atendimento desenvolvidas por alguns setores da clínica, no intuito de proporcionar o bem-estar do paciente. Nossa proposta é fazer uma interlocução com os médicos e demais profissionais, procurando-os para discutir os casos e seus tratamentos, visando incluir o tratamento psicológico. Pensamos que isso é possível a partir de reuniões de discussão de casos e oferta de escuta aos familiares das crianças na Clínica de Psicologia, caso seja necessário. Isso, de certa forma, terá um efeito sobre os tratamentos dos pacientes e família, pois ao serem convocados a falar, eles se implicam e se responsabilizam pelo tratamento. Se partirmos de uma resposta ou de um diagnóstico, só conseguimos estancar a fala e evitar qualquer questionamento sobre seu sofrimento, pois o paciente já tem descritas as características de seu mal, formulado pelo saber médico.