A HISTÓRIA ENSINADA: SABERES DOCENTES, LIVRO DIDÁTICO E NARRATIVA [2ª Fase]
ODS vinculados
- 4 - Educação de Qualidade
Resumo
Esse projeto se insere nas atividades desenvolvidas junto ao Grupo de Pesquisa Interpretações do Tempo: ensino, memória, narrativa e política (iTemnpo CNPq/UFPA) e integra o Núcleo GERA/UFPA. Trata-se do que estou denominando de segunda fase do desenvolvimento do projeto homônimo realizado entre março de 2022 a fevereiro de 2023. Nesta segunda fase, o período de execução vai de 01 março de 2024 a 28 de fevereiro de 2026, para o qual solicito a atribuição de 20 horas de carga horária. O projeto intitulado A história ensinada: saberes docentes, livro didático e narrativa, dá continuidade às pesquisas que venho desenvolvendo e estão situadas no campo do Ensino de História. A propositura desse projeto está diretamente relacionada à minha trajetória pessoal/profissional. Em 2008 recebi o convite da Editora Moderna para escrever o Livro didático de História Regional para o Estado de Pernambuco destinado aos estudantes do 4º/5º ano. Desde então, o livro didático se tornou para mim um tema de interesse acadêmico; um objeto de análise e problematizações. Essa experiência me colocou em um lugar triplo: professor que durante mais de uma década trabalhou com livro didático na Educação Básica, autor de livro didático e, atualmente, professor do Magistério Superior situado no campo do ensino de História que vem problematizando o livro didático como tema de pesquisa. É oportuno destacar que o livro didático continua sendo o principal instrumento de trabalho de milhares de professores e professoras, e pelo qual uma dada história é entendida, representada e ensinada. Vinculado a este objeto de estudo, se encontra o interesse em problematizar o ensino de História como tema de pesquisa e campo produtor de saber (Gabriel, 2019) uma vez que aquele instrumento de trabalho está diretamente relacionado com o ensino de História na sala de aula. Por extensão, também me interessa compreender os saberes dos profissionais que manuseiam aquela ferramenta, e, portanto, ampliar as reflexões acerca dos saberes docentes produzidos e mobilizados pelos/as professores/as ao ensinar História. Nesse movimento se insere o projeto A história ensinada: saberes docentes, livro didático e narrativa, para problematizar o Ensino de História com campo de disputas e força agenciadora capaz de atribuir sentido às práticas políticas e culturais, portanto históricas. De maneira mais específica, o projeto deseja ampliar a compreensão acerca dos livros didáticos e dos saberes docentes que emergem como força relacional oferecendo certas narrativas acerca das experiências humanas no tempo; narrativas que resultam das práticas discursivas e não discursivas que representam, inscrevem, inventariam e nomeiam as relações de poder, que em última instância permitem uma dada interpretação do mundo. O projeto em tela se propõe a ampliar a análise, sobre quais histórias tem sido ensinadas na formação inicial do professor e, por conseguinte, como que o principal instrumento de trabalho dos docentes da Educação Básica, vem sendo apreendido e debatido durante o período de formação regular dos futuros professores e professoras. Para tanto, as pesquisas direcionam o ângulo de percepção para compreender como que os Projetos Políticos Pedagógicos (PPP) também chamados de Matrizes Curriculares dos cursos de Licenciatura em História, oferecidos nos campi sede das universidades federais do Brasil vem tematizando as discussões que envolvem o livro didático e quais são os saberes priorizados durante os percursos de formação inicial do professor de História. É oportuno destacar que esse projeto estará vinculado às atividades de ensino desenvolvidas por mim junto à Faculdade de História (FAHIS/IFCH). Entre essas, estão as disciplinas da área de ensino e os estágios supervisionados. De tal modo, outro objetivo se desdobra, qual seja: refletir como os livros didáticos são mobilizados pelos professores/as na sala de aula da Educação Básica. Esse objetivo está vinculado ao interesse de refletir acerca dos saberes docentes acionados durante o exercício da profissão, podendo com isso resultar em reflexões que permitam problematizar as relações entre os saberes da formação inicial e aqueles mobilizados na sala de aula da educação básica. A literatura especializada aponta que todos os especialistas estão de acordo que o livro didático é a ferramenta mais importante no ensino de história. Por isso, este recebe uma ampla atenção inclusive por parte daqueles que se interessam pelo ensino de história na escola e pelo seu significado para a cultura política. [...] Também os historiadores estão interessados nos livros didáticos. Eles têm vários motivos (RÜSEN, 2011, p. 109). Para esse historiador, os profissionais especialistas em pesquisas historiográficas deveriam se esforçar ao máximo, para que seu objeto de investigação acadêmica chegue o mais rápido possível aos livros didáticos. Essa interpretação de Jörn Rüsen defende que os livros didáticos exercem uma significativa influência no exercício docente no ensino de história podendo interferir de maneira incisiva na forma como uma imensa quantidade de crianças e jovens irá construir suas leituras interpretativas de si, da sociedade da qual faz parte e das demais. Isso porque, como assinalou Marc Ferro (1983), a história construída acerca dela mesma e de outrem guarda uma íntima relação com a história ensinada em sala de aula, e não seria inverossímil, acrescentar por extensão, que a história ensinada em sala de aula guarda uma íntima relação com os livros didáticos no exercício da docência de professores e professoras. Apesar de o livro didático ser o principal instrumento de trabalho da maioria de professores e professoras na educação básica, a participação desses profissionais nos debates especializados continua sendo ínfima, como ressalta também Jörn Rüsen. Essa situação é bastante complexa e produz sentidos e significados para a educação de uma maneira geral, haja vista ser do livro didático que uma grande parcela de professores e professoras elabora seu modus operandi de atuação docente. Como enfatiza Katia Maria Abud a importância que os livros didáticos adquiriram faz deles os mais poderosos instrumentos na produção do currículo no cotidiano escolar. [...] O livro didático é quase que o único material de apoio que o professor encontra à sua disposição e, por isso, apoia nele a parte central de seu trabalho (ABUD, 2007, p. 115). Em outras palavras, é do livro que professores e professoras organizam seus planejamentos de aula no cotidiano, elaboram situações didáticas, selecionam os conteúdos a serem trabalhados, constroem os exercícios de aprendizagem, preparam as atividades avaliativas, em suma, instituem sua forma de atuar profissionalmente. O livro didático também é o único livro que uma larga parcela de estudantes no Brasil e até de professores tem acesso e manuseia. Conforme destacou Selva Guimarães (2012), é o segundo livro de maior circulação no país, ficando atrás apenas da bíblia. Torna-se, portanto, imperioso que compreendamos como que as licenciaturas vêm problematizando essa importante ferramenta de trabalho entre os profissionais que estão sendo formados, e, por extensão, reflitamos quais tem sido os saberes docentes selecionados nos PPPs para compor os percursos de formação inicial do professor de História.