Original Pagodeira: música e festa de negros e de caboclos nas versões de homens de letras no Pará no pós-Abolição (1888-1923) - Parte II
ODS vinculados
- 5 - Igualdade de Gênero
- 10 - Redução das Desigualdades
- 11 - Cidades e Comunidades Sustentáveis
- 13 - Ação Contra a Mudança Global do Clima
- 14 - Vida na Água
- 15 - Vida Terrestre
Impacto na Amazônia
- Comunidades Tradicionais – Ações com Povos Indígenas ou Originários
Resumo
O projeto propõe o uso da expressão original pagodeira como categoria analítica útil para a compreensão de disputas de sentido entre intelectuais e jornalistas do final do século XIX e primeiras décadas do século XX relacionadas direta ou indiretamente a promotores de eventos festivos e musicais identificados com a população negra e mestiça, pertencente às classes trabalhadoras paraenses, no mesmo período. Fórmula depreciativa para caracterizar manifestações musicais/festivas de negros na capital do Estado do Pará, anunciada ironicamente em nota de jornalista do periódico O Jornal, em edição de 28 de novembro de 1900 (p. 2), o emblema desqualificador sintetiza visões elitistas sobre modos populares de fruir estilos musicais, de forma a julgá-los segundo princípios moralizantes. Neste projeto, a expressão é redimensionada, a fim de evidenciar a originalidade sociocultural na produção e difusão de gêneros musicais vinculados aos modos de vida de pessoas negras e mestiças na Amazônia paraense e suas repercussões em termos de contendas simbólicas no jogo cultural hegemônico (WILLIAMS, 1979) liderado pelas elites intelectuais (escritores, folcloristas, artistas, jornalistas, viajantes brasileiros e estrangeiros). Original pagodeira, portanto, compreende o universo conflitante de sentidos e ações de agentes ligados a setores com poder desigual na sociedade regional entre a última década do século XIX e as duas primeiras do século XX. Embora considerada não-música por sua identificação popular em função da relação com manifestações festivas (samba, carimbó, batuque) recorrentes nas cidades e no campo, a pagodeira correspondia à presença em festas de gêneros musicais e coreográficos (de evidente matriz afro-brasileira) de sucesso no mercado de entretenimento local (como o maxixe e o lundu). O termo pagode resume bem a ideia de composição entre festa-música-dança, pertinente ao universo de sociabilidade festiva da população não-branca, moradora de áreas pobres das cidades e localidades interioranas do Pará, logo após a abolição da escravidão e a proclamação da república. Sua originalidade reside na especificidade de sua posição artística supostamente inferior (DAVIS, 1992) (HALL, 2006), segundo o ponto de vista de críticos da cultura (WILLIAMS, 1999) e em escritos de viajantes brasileiros e estrangeiros sobre as manifestações musicais e festivas de negros e descendentes de indígenas amazônicos no campo. Original emerge principalmente como uma constatação alarmista (ou entusiasta, em poucos casos) de literatos e jornalistas no Pará da última década do século XIX da vitalidade e do crescimento da repercussão da música de negros e mestiços (música de pagodeira) como expressão festiva da sociabilidade e dos modos de vida das classes trabalhadoras em sua diversidade e complexidade. A pesquisa percorre fontes jornalísticas e literárias, em registros produzidos por representantes intelectuais dos setores dominantes da sociedade regional no pós-Abolição e se estende até o início da década de 1920, quando a emergência do movimento literário modernista no Pará (com o lançamento da revista Belém Nova, em 1923) demarca o enquadramento intelectual de manifestações musicais e festivas negras na Amazônia como representativas do folclore brasileiro no norte do país.