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Justiça Socioambiental, Diversidade Linguística e Educação

Unidade
INSTITUTO DE LETRAS E COMUNICACAO - ILC
Subunidade
POS-GRADUACAO EM LETRAS
Coordenador
THOMAS MASSAO FAIRCHILD
Período
- a -
Grupo
Pesquisa

ODS vinculados

  • 4 - Educação de Qualidade
  • 13 - Ação Contra a Mudança Global do Clima

Impacto na Amazônia

  • Comunidades Tradicionais – Ações com Povos Indígenas ou Originários

Resumo

Propõe-se a cooperação internacional entre seis universidades situadas no Brasil, na Argentina e no Uruguai, a fim de se desenvolver práticas formativas voltadas para a integração entre justiça ambiental e diversidade linguística. Tem-se como objeto as comunidades de matriz indígena, quilombola e/ou “ribeirinha”, existentes nos contextos das universidades parceiras. Tais grupos se encontram implicados em conflitos socioambientais que caracterizam as sociedades contemporâneas, tendo seus modos de vida ameaçados pelo avanço do modelo capitalista de produção e da crise climática que é efeito deste. Longe de constituírem comunidades isoladas, estas populações estabelecem relações plurais e contraditórias com o seu entorno, integrando-se aos espaços escolares e, mais recentemente, em parte como resultado de políticas afirmativas, à vida acadêmica no âmbito do ensino superior (CAMPOS, 2016; COSTA, 2013; FERNANDES, 2007; MACHADO e ORTIZ, 2018; MARTINS, 2017; MAUÉS e OLIVEIRA, 2023; REIS, 2023; SITO, 2018). A presente iniciativa busca elaborar propostas para o desenvolvimento sustentável e a valorização das culturas tradicionais a partir de saberes e práticas calcados na ancestralidade indígena, quilombola e “ribeirinha”, colocados em diálogo com os modos de vida das sociedades científico-industriais, de modo que contribua para fortalecer a diversidade cultural e ambiental na América Latina (DUBIN, 2014; RÉDUA e KATO, 2020). A pesquisa concentra-se na interface entre linguagem e meio ambiente, tomada em dois níveis. No primeiro, entende-se que os saberes tradicionais de matriz indígena, quilombola e “ribeirinha” são indissociáveis das línguas e/ou das variedades linguísticas faladas por esses grupos, de modo que uma política de preservação desses saberes implica deve ter necessariamente uma dimensão linguística (FREIRE, 2011; LAVAREDA, 2021; NEVES, 2023). Sob esse prisma, a preservação de textos e discursos (narrativas, provérbios, explicações, instruções etc.), aliados ao estudo de aspectos da língua e da atividade linguística (modos de argumentar, estilos de conversação etc.), são requisitos para se acessar os conhecimentos dessas comunidades a respeito do mundo natural, do universo do trabalho, das formas de habitação e locomoção em seus territórios etc. Em um segundo nível, a relação entre linguagem e meio ambiente é tematizada pelo estudo dos discursos a respeito dessas populações e de suas implicações com as pautas ambientais. Interessa-nos fazer uma leitura crítica dos sentidos produzidos a respeito das noções de sustentabilidade e saberes/populações tradicionais, em diferentes âmbitos, com destaque para o acadêmico (por meio da análise de trabalhos acadêmicos das áreas de Letras, Educação Ambiental e afins) e o midiático (por meio da análise de materiais jornalísticos, de divulgação científica e afins). O estudo proposto acima abarca as línguas, saberes e práticas das comunidades “tradicionais” tomadas em seus loci de origem e as relações que estas estabelecem com as línguas, saberes e práticas hegemônicos das sociedades “ocidentais”. Na presente proposta, tais estudos, além de levar à comparação entre diferentes contextos latino-americanos, têm o papel de subsidiar ações formativas voltadas para o intercâmbio de experiências em desenvolvimento sustentável. À luz do que foi exposto, estão previstos, metodologicamente: a) estudos qualitativos de natureza colaborativa, realizados em comunidades tradicionais ou em espaços educacionais (escolas e universidades) nos quais os membros dessas comunidades se fazem presentes; b) estudos qualitativos de natureza documental, voltados para o mapeamento, cotejamento e análise de literatura acadêmica e de documentos midiáticos sobre línguas, saberes e práticas dos grupos em foco; c) ações educativas/formativas, como oficinas pedagógicas interculturais, que envolverão diferentes atores sociais, incluindo representantes de povos indígenas e comunidades tradicionais situadas em territórios afetados por conflitos socioambientais e pela emergência climática, nas áreas onde se localizam as instituições participantes. O referencial teórico baseia-se na perspectiva intercultural e decolonial, enfatizando a importância de integrar saberes locais e tradicionais ao processo acadêmico, um conceito amplamente discutido no grupo Modernidade/Colonialidade na América Latina (QUIJANO, 2005; MIGNOLO, 2020). Aliada a essa perspectiva, adota-se uma concepção discursiva/enunciativa da linguagem, calcada nos preceitos da Análise do Discurso (OSAKABE, 1999; PÊCHEUX, 1990; 1995; POSSENTI, 2009), especialmente no que se refere ao complexo Ideologia / práticas discursivas e ao conceito de interdiscurso (MAINGUENEAU, 2005), que dá conta da instabilidade e da permanente abertura dos discursos para o seu exterior. As contribuições do dialogismo do círculo de Bakhtin (BAKHTIN, 1997; 2004; 2015; GERALDI, 2005; PONZIO, 2008) complementam essa mirada, dando conta de uma noção de sujeito que não é dominada pela categoria do assujeitamento, mas pelas da responsividade/“respondibilidade” – fundamento necessário para toda ação de caráter propositivo.