A Teoria dos Tópicos no Medievo e a Influência da Interpretação Boeciana na Escolástica
Resumo
Apesar da ausência de um mapeamento completo e exaustivo da tradição lógica desenvolvida no Medievo, sabemos que a lógica medieval não deve ser considerada como apenas uma repetição da lógica aristotélica (cf. DE LIBERA, 1998). Os desenvolvimentos lógicos medievais foram diversos e muito do que foi trabalhado não seria, hoje em dia, necessariamente , considerado como pertencente ao campo da lógica (cf. SPADE, 1985). No entanto, ao pretender um mapeamento de qualquer aspecto lógico durante o período medieval, é preciso delimitar a tradição medieval a ser pesquisada. A tradição cristã latina medieval, por exemplo, apoiou-se fortemente nas traduções e comentários de Boécio e o mesmo não ocorre com a tradição árabe medieval. A lógica medieval foi um campo de estudos bastante incentivado nas principais linhas de desenvolvimento filosófico durante o Medievo e seu impacto é perceptível na argumentação de alguns dos principais filósofos do período como Abelardo, Avicena e Ockham, entre outros. Após a morte de Boécio, na primeira metade do século VI, entende-se que há um período de estagnação nos desenvolvimentos lógicos medievais que foi quebrado, apenas, no século VIII com Alcuíno de York (cf. Wyllie, 2013). Assim, entendemos como lógica no Medievo Latino, as contribuições de Boécio (cf. CRUZ, 2021) e, posteriores a ele, (...) tudo o que no ocidente latino foi produzido sobre a teoria da inferência e o que ela supõe e implica entre a redação do tratado De dialectica de Alcuíno de York em 786 e a morte de Paulo de Veneza em 1429 (WYLLIE, 2013, p. 202). No entanto, até mesmo as divisões mais tradicionais da lógica medieval devem ser tomadas com certo cuidado. Consideramos os escritos de Boécio como parte da tradição lógica do Medievo Latino, principalmente, devido à importância deste filósofo tanto como autoridade quanto como tradutor da lógica aristotélica. Mesmo que a importância de seus escritos tenha diminuído a partir do século XI com as novas traduções do corpus aristotélico e com a entrada dos comentários árabes no ocidente latino, sua influência se estendeu, pelo menos, até o século XIV. Conforme Casey aponta, os textos boecianos foram conhecidos pelos estudiosos medievais através de três modos: 1. como (...) seções do texto original, geralmente nas traduções de Boécio, seguidas de (por vezes, extensivo) comentário (CASEY, 2012, p. 204, tradução nossa); 2. (...) como anotações em textos de Aristóteles e Porfírio; e [3.] como bases para exposições e outros comentários sobre lógica (os quais, como resultado, não levavam o nome de Boécio) (CASEY, 2012, p. 204, tradução nossa). Além disso, (..) leitores do texto original de Aristóteles e de Porfírio retiravam seções inteiras dos comentários de Boécio e as inscreviam nas margens e entre as linhas dos textos de Aristóteles e de Porfírio (CASEY, 2012, p. 204, tradução nossa). Essa prática pode ser mapeada pelo menos até o século XII (cf. Casey, 2012). Mais do que isso, a influência de Boécio perdurou ao longo de todo medievo para além do conteúdo de seus escritos. Por exemplo, é da distinção de Boécio, a partir de Aristóteles, que a delimitação do papel do gramático e do filósofo surgiu na Idade Média. O tratado dos Tópicos de Aristóteles trata de partes da teoria da predicação. É neste tratado que Aristóteles esclarece a utilização dos predicáveis na discussão dialética. Esse tipo de discussão, segundo Aristóteles, deve ser orientado pela correção do conteúdo, ou seja, por sua utilidade na medida em que a argumentação busca estabelecer algum tipo de conhecimento. A discussão dialética, já em Aristóteles, apoiava-se nos predicáveis para a busca do termo médio ou, ainda, do que é correto de se argumentar acerca da questão posta sob consideração. Há, tanto no tratado original de Aristóteles quanto nos comentários subsequentes, a noção de que um tópico deve ser diferenciado no que cabe à dialética e à retórica. No entanto, é importante ter em mente que não é a interpretação original dos Tópicos que chega ao Medievo Latino. É a interpretação de Boécio da Teoria dos Tópicos que chega aos estudiosos medievais latinos e é essa interpretação que é incluída na argumentação lógica medieval. A leitura de Boécio se afasta em alguns aspectos da proposta aristotélica, uma vez que Boécio aceita tanto os escritos de Aristóteles quanto as considerações de Cícero e Temístio sobre o assunto em sua interpretação (cf. Stump, 1989). Boécio propõe que um tópico tem por objetivo causar crença. A demonstração enquanto silogismo não tem a mesma importância para a argumentação tópica que teria na Silogística. Assim, o aspecto valorativo considerado para esse tipo de inferência, na interpretação boeciana, é a plausibilidade. Chamamos atenção, em particular, entre diversos aspectos divergentes da leitura boeciana, para o fato de que na interpretação de Boécio encontramos a proposta de que os tópicos seriam, além de princípios, as Differentiae da Proposição Máxima. É aqui que se percebe a principal diferença na utilização dos predicáveis entre Aristóteles, Porfírio e Boécio. A influência de Boécio está restrita ao Medievo Latino. Os desdobramentos da Teoria dos Tópicos encontrados na Falsafa não se apoiam na tentativa de harmonização e nos pressupostos que aparecem na leitura boeciana. Dessa forma, pode-se dizer que a Teoria dos Argumentos Tópicos possui, no Medievo, duas correntes de interpretação, sendo que o principal ponto de divergência é a presença ou ausência do comentário de Boécio. Dificilmente se colocaria em dúvida o papel de Boécio nos desenvolvimentos da lógica medieval e a grande influência que ele exerce na lógica medieval através de suas traduções e comentários. No entanto, com as novas traduções disponíveis durante a Escolástica, tendo destaque as traduções da Escola de Salamanca, as traduções e comentários boecianos tem seu papel diminuído ou questionado a partir do século XI, uma vez que o acesso às obras aristotélicas é ampliado e, por vezes, facilitado. Ainda que a interpretação de Boécio, tendo sido aceita por muito como o modo correto de ler e compreender, em particular, a Teoria dos Tópicos, é apenas através de um mapeamento cuidadoso que podemos apontar a extensão de sua influência. Assim, buscaremos, neste projeto, estudar os desenvolvimentos lógicos da tradição cristã latina assim como parte da tradição árabe. Pretendemos, em particular, mapear a influência de Boécio na tradição lógica medieval.