Título do projeto: As paisagens citadinas na/da porção norte da capital paraense e seus dilemas socioambientais: os distritos de Icoaraci (DAICO) e de Outeiro (DOUT) como ecossistemas urbanos-mais-do-que-humanos1 na Região Metropolitana de Belém (RMB)
ODS vinculados
- 4 - Educação de Qualidade
- 9 - Indústria, Inovação e Infraestrutura
- 11 - Cidades e Comunidades Sustentáveis
- 13 - Ação Contra a Mudança Global do Clima
- 14 - Vida na Água
- 15 - Vida Terrestre
Impacto na Amazônia
- Comunidades Tradicionais – Ações com Ribeirinhos
Resumo
O projeto em questão apresenta-se como um desdobramento de estudos anteriores realizados por mim na cidade de Belém, capital do Estado do Pará, ao longo dos 16 anos em que vivo na região, mais especificamente no contexto da Amazônia Oriental brasileira, e tenta reunir uma série de interesses cotejados ao longo destes anos em torno do mundo urbano contemporâneo belenense, ou ainda, no âmbito da metrópole amazônica1, de maneira a avançar nas perspectivas que venho elaborando/contribuindo para o entendimento de suas complexidades socioculturais e ambientais2. Neste sentido, a proposta que aqui apresento volta-se aos tradicionais distritos de Icoaraci (DAICO) e Outeiro (DOUT) passados mais de 10 anos dos meus estudos iniciais nesta porção da cidade, especialmente, no bairro do Cruzeiro, situado primeiro e retoma criticamente as reflexões de outrora, amadurecidas, obviamente, porque acrescidas de um arcabouço acumulado sobre as dinâmicas da urbe na Amazônia Oriental (especialmente a capital do Estado), na tentativa de ampliar a compreensão de sua importância nos âmbitos municipal/distrital, urbano e metropolitano no que tange ao seu caráter histórico-cultural, urbanístico e ecossistêmico no contexto belenense. Os distritos em questão3 distam cerca de 18/25 km da região central da capital do Estado, estando separados entre si pelo Furo do Maguari, constituindo-se como a parte mais setentrional dos 8 distritos existentes no município de Belém4. Ambos apresentam respectivamente 400 e 80 mil habitantes e, apesar dos processos desordenados de urbanização, detêm feições ribeirinhas na sua ocupação histórica e nos modos de vida que podem ser observados ainda hoje, especialmente nas formas sensíveis de praticar e manejar os lugares (pelo extrativismo vegetal e a pesca; pela circulação de pequenas embarcações de diversos tipos (incluindo os famosos popopôs); devido ao ofício em olarias e o trabalho com artesanato ceramista; a partir de sociabilidades festivas; pela manutenção de quintais nas moradias, entre outros aspectos), sendo, no entanto, possível observar uma série de impactos socioambientais que se fazem presentes nos seus espaços ao longo do tempo. Trata-se, portanto, de arrabaldes bastante tradicionais e antigos no contexto urbano belenense que remontam a ocupação portuguesa do século XVIII. No caso de Icoaraci e especialmente o seu núcleo inicial, que seria posteriormente denominado de bairro do Cruzeiro fica claro que ele experimenta processos de transformação significativos ligados a ascensão à vila; à constituição de uma comunidade ligada ao arruamento do tipo xadrez; ao fluxo de um comércio voltado ao extrativismo que o vinculava à porção central da cidade a partir de suas relações (o fluxo de gente e coisas) com as ilhas de Caratateua (Outeiro), Cotijuba, Mosqueiro (entre outras), além da mais distante delas, a do Marajó; à edificação das moradias dos ricos no XIX; à constituição de um matadouro (Caratateua/Outeiro) para fornecimento de carne bovina e suína à cidade; entre outras dinâmicas da economia local naquele período. Sendo assim, Icoaraci vinculava-se perifericamente ao centro urbano de Belém no plano socioeconômico desde longa data, no entanto, o núcleo central de Santa Maria de Belém do Grão-Pará experimentou processos de modernização estimulados pelo boom da borracha na virada do século XIX para o XX, a partir daí as relações com a região periférica sofreram mudanças, quando a elite enriquecida passa a construir palacetes/casarões no bairro do Cruzeiro como segunda morada, ou melhor, constituem áreas de ócio5 voltadas ao refrigério e aos banhos nas águas da baía do Guajará6 que encontram a baía do Marajó7; daí Icoaraci revelar-se um destino de evasão para a classe abastada com ares de aristocracia tropical. Neste sentido, a porção continental onde Icoaraci desponta como área de enorme centralidade urbana para o contexto regional8 está associada a uma parcela do conjunto de 39 ilhas que compõem o arquipélago existente no contexto belenense. Destaco para o interesse mais imediato deste estudo as ilhas de Outeiro (Caratateua) e de Cotijuba. Portanto, o estudo centra-se no Distrito de Icoaraci, dando atenção maior ao bairro mais antigo do mesmo, Cruzeiro, assim como busca cotejar aspectos da insularidade presentes em Outeiro e Cotijuba dada as intensas relações de ambos com o referido bairro através do trapiche municipal que existe no bairro. O arrabalde se consolidou, como afirmei acima, enquanto área de refrigério das elites endinheiradas pela extração da seringa, que nele contribuíram para a expansão/consolidação/melhoramento de um traçado urbano associado à construção de praças e à edificação de palacetes distribuídos pelas ruas arborizadas com mangueiras (Mangifera indica) e, principalmente ao longo da orla de Icoaraci, sendo que atualmente alguns resistem transformados em restaurantes e espaços comerciais, hospedando sedes institucionais como a Biblioteca Municipal e a sede da Polícia, ou restam abandonados em processo de arruinamento. A Estrada de Ferro Belém-Bragança que ligava Belém à cidade de Bragança (situada na Zona do Salgado Paraense) facilitou o deslocamento até Icoaraci - especialmente ao Cruzeiro - permitindo o fluxo de pessoas e bens entre os dois núcleos regionais do município. Portanto, há uma memória do fausto da borracha presente no contexto urbano do distrito, consubstanciada em edificações mais ou menos conservadas, quando não completamente arruinadas, bem como uma ligação direta com o curso hídrico principal (baía do Guajará) e as diversas ilhas que estão presentes na região, cujo arquipélago é uma das formações fisionômicas presentes no Golfão Marajoara. Icoaraci revela-se uma área de enorme relevância sociocultural no contexto belenense pela heterogeneidade cultural presente nas suas paisagens urbanas, pois a extensão do distrito é atravessada, ou constituída, por realidades distintas de ocupação e de formação de coletivos sociais, que indicam formas tanto tradicionais quanto de evidente modernização em processo desde pelo menos o XIX9. Há, por exemplo, relação direta com o passado pré-colombiano mediante a valorização do artesanato com influência arqueológica, dos grafismos e estéticas marajoara e tapajônica na cerâmica produzida no bairro do Paracuri, bastante reconhecido quando se pensa no turismo e na arte existentes na região; bem como de expressões culturais evocadoras de um imaginário afro-ameríndio mestiçado com elementos europeus com fortes referências às tradições folclóricas (boi bumbá, pássaros, quadrilhas joaninas, festejos religiosos, como o Círio de Nossa Senhora das Graças e os congraçamentos natalinos (Figueiredo e Tavares, 2006; Silveira e Soares, 2007; Silva, Silveira e Netto, 2010), entre outros), além dos vínculos com os saberes e fazeres relativos aos manejos sensíveis e ecológicos das coisas do rio-mar na sua dimensão flúvio-marinha e, por certo, com uma ecossistêmica urbano-ribeirinha que tanto considera as complexas relações humanos-não humanos vivos nas ínsulas como no continente. Por outro lado, o núcleo citadino de Icoaraci experimenta franca expansão, especialmente quando se pensa nos desdobramentos de sua formação urbana e a (re)configuração dinâmica dos bairros que o constituem, na consolidação de artefatos/equipamentos e infraestruturas de caráter urbano, mais ou menos precarizados, além de processos de requalificação/gentrificação da sua orla10, que se estendem contraditoriamente à vizinha ilha-distrito de Outeiro ligada ao continente pela ponte Governador Enéas Pinheiro, e que enfrenta sérios problemas socioambientais, alguns deles relacionados a um turismo local incipiente11 mas desregrado e agressivo sobre as paisagens. Este é, sucintamente, o panorama dos lugares da pesquisa que intento realizar nesta nova proposta que apresento.