Experimentalismos, Expansões e Fronteiras Literárias
ODS vinculados
- 4 - Educação de Qualidade
- 5 - Igualdade de Gênero
- 10 - Redução das Desigualdades
- 16 - Paz, Justiça e Instituições Eficazes
Resumo
Em diversos momentos Anne Carson nos lembra que Todo contato é crise. Este pensamento base que surge em Eros the Bittersweet (1986), a partir do estudo da poesia de Safo, irá atravessar toda sua obra, se desdobrando de múltiplas maneiras. O que aprendemos, é que contato está relacionado com limites e fronteiras. Há diferentes tipos de fronteiras. As fronteiras mais óbvias para os estudos literários são as fronteiras dos gêneros literários ou mesmo as possíveis fronteiras entre literatura e outras artes, porém outras fronteiras podem entrar em questão: fronteiras linguísticas, tradutórias, de atos e costumes, fronteiras de gêneros, fronteiras raciais, nacionais, temporais, entre tantas outras. Poderíamos dizer que o que marca o literário, a literatura como tal, tem a ver com limites, com bordas e como delimitamos as coisas ao nosso redor. Mas o que acontece se esses limites são borrados? O que acontece na fronteira? O que acontece quando esses limites já não são mais claros? Estas são algumas das questões que podemos fazer a partir das ideias de Anne Carson. Tocar os limites, evidenciar estes locais, até mesmo dar nome a eles e identificá-los, é um modo de crise. A partir dos anos 60s e 80s, temos uma série de correntes teóricas que irão questionar, se não plenamente destruir e desconstruir os limites claros e distintos da sociedade. Dentro de uma hermenêutica da suspeição, pensadores disruptivos de base pós-estruturalistas desmantelaram as noções de essência e natureza, permitindo uma rearticulação dos limites e uma compreensão plena deste como construção cultural. O que então pode começar como uma pergunta ou questão sobre limites eróticos na obra de Carson pode ser desdobrado para experimentalismos literários e outras artes, para as fronteiras entre estes e como operam. Mas a pergunta por limites do literário ou a relação da literatura e outras artes não pode - como muitas vezes ocorreu - cair em um formalismo isolacionista. Não podemos ignorar outros tipos de fronteiras e como essas tensionam os limites do literário. Florencia Garramuñno (2009), retornando um importante artigo de Rosalind Kraus (2022), propõe o conceito de literatura em um campo expandido, no sentido de que haveria um movimento para inespecificidade do literário, uma expansão que abre o literário tanto para registros tidos como não-literários (textos de jornal, resenhas do google, guias de viagens, etc.), quanto para outras artes. Haveria na literatura contemporânea (com raízes já no modernismo) um movimento de ampliar o literários para além de sua fronteiras, incorporando e borrando limites. O movimento não é inteiramente novo. Os estudos literários já havia passado por uma revisão e ampliação das concepções de área nos anos 80s com os Cultural Studies e o próprio domínio anglófono dos departamentos de Theory (Durão 2011). O que talvez seja interessante na proposta de Garramuño é que ela se distingue de uma noção de Interartes, como apresentada por teóricos como Claus Clüver (2006), por se distanciar de um domínio da literatura comparada e da semiótica como bases de análise (e sua segmentação tecnicista das artes), para lançar mão da um cabedal de fundo pós-estruturalista, borrando muito mais que cingindo. Se lermos a proposta de Garramuño ao lado da de Josefina Ludmer (2010) de uma literatura pós-autônoma, i.e., de uma literatura se encaixa em categorias tradicionais de tempo, espaço, personagens e afins, porque se distancia, de diversas maneiras, da noção de autonomia da obra de arte, rompendo os limites convencionados entre ficção e realidade, teremos o âmbito expresso de uma ampliação do literário para além do objeto de consumo burguês, para uma amplitude estranha que incide na sociedade. No momento que notamos estes movimentos, devemos também compreender outros gestos de expansão na sociedade como implicitamente interligados ao literário, como as interligações tradutórias abordados por Barbara Cassin (2022, 2024), a reversibilidade corpo/mente e corpo/mundo de Merleau-Ponty (2006), as indeterminações de gênero em Judith Butler (1988), e tantos outros. Em termos gerais, poderíamos pensar que o que certos procedimentos de vanguarda foram incorporados ao uso diário, dilatando e forçando uma revisão de como lidamos e conceituamos o literário. São estes tipos de movimentos que vemos em obras como o Nox de Anne Carson (2010), livro-objeto em que a tentativa de escrever um caderno a partir de fotografias do irmão como ato de luto pelo mesmo irmão, se casam com a tentativa de traduzir o poema 101 de Catulo em um livro que incorpora trechos de dicionários, ensaios, rabiscos, cartas, colagens e uma amálgama de mídias. Outro caso, é o plaquete De uma a outra ilha, de Ana Martins Marques (2023) em que a autora cria um longo poema que incorpora versos de Safo, resenhas do google maps, trechos de jornais, em uma obra cujo mote parte da crise de refugiados no campo de Moria em Lesbos, ilha de onde provém a poeta grega Safo. Ainda um último exemplo poderia ser o Dart de Alice Oswald (2002), longo poema que segue o curso do rio Dart de sua nascente até o mar. A voz primeira que fala é a do rio, mas ela rapidamente se mistura com a de todos aqueles que coabitam este ecossistema: focas, pescadores, lavadeiras, peixes, pedras e uma infinidade de humanos e não-humanos. A forma do dizer, a multiplicidade do sentir/pensar/agir/dizer dos corpos, torna-se forma/conteúdo. Apropriações, intertextos, traduções, imagens, todos se misturam em uma coisa que chamamos poema.