Contornos fenomenológicos dos processos psicoterapêuticos de intervenções clínicas centradas na pessoa. Etapa 01- construção da expertise clínica na formação de psicólogos
ODS vinculados
- 3 - Saúde e Bem-Estar
Resumo
Na sintonia da Psicologia como ciência e profissão, a construção científica da Abordagem Centrada na Pessoa do Brasil teve nas práticas profissionais de psicólogos em contextos de saúde as condições para o desenvolvimento da Psicologia Humanista de Carl Rogers, especialmente com inovações psicoterapêuticas e novas perspectivas epistemológicas (Frota, 2012). Seja como única atividade laboral ou conjugada a outra, a Psicoterapia É a principal modalidade clínica de profissionais de Psicologia (83%), entre os quais a Abordagem Centrada na Pessoa, Abordagem Humanista e Fenomenológica-existencial aparecem entre as 10 principais abordagens terapêuticas (CFP, 2021). Ao longo da história da ACP brasileira, os psicólogos humanistas foram importantes atores de inovações e desenvolvimento para a clínica psicológica, fazendo da psicoterapia com outras modalidades psicoterapêuticas. Nos anos 60, seja com a regulamentação da psicologia como profissão quanto com a criação dos primeiros cursos de psicologia nos eixo RJ-SP, a criação da teoria rogeriana foi ocasionada para formação quanto a prática do aconselhamento psicológico. Foi com os trabalhos de Antonio Barros e Rachel Rosemberg na construção no Serviço de Aconselhamento Psicológico da USP, a teoria não-diretiva quanto a teoria centrada no cliente de Rogers configuram como a abordagem terapêutica da psicologia humanista (Schmidt, 2006). Sobre a Psicoterapia, foram nos 70 que podemos situar o quanto a consolidação desta modalidade de atuação profissional decorre dos problemas da estrutura social do país. Segundo Campos (2017), as estratégias de repressão, censura e aniquilamento da ditadura militar tiveram como principais alvos a juventude militante pelos movimentos estudantis e classe média letrada politicamente. Direta ou indiretamente atingidos por estas violências, as vítimas encontraram nos consultórios de psicoterapia oportunidades de verbalizações experiências decorrentes destas situações-problemas, o quanto eram reconhecidas socialmente como desajustadas a serem tratadas psicologicamente. Já validade e sistematizada pelos anos de Rogers em Chicago, a terapia centrada no cliente ganha força para a formação e exercício profissional dos psicólogos brasileiros (Feitosa, Castelo Branco e Vieira, 2028). Nos anos 80, a perspectiva fenomenológica ganha força entre os humanistas brasileiros, os quais desenvolveram críticas aos pressupostos liberais e funcionalista na metodologia rogeriana. Reivindicando a reconstrução para uma psicoterapia humanista-fenomenológica, as experiências são compreendidas pelas suas configurações existenciais das pessoas em suas relações dialógicas. Desta epóca, podemos situar duas produções metodológicas para o campo da psicoterapia: primeiro, as Versões de Sentidos de Mauro Amatuzzi como instrumento-registro das experiências intrapessoais e interpessoais do terapeuta a serem trabalhadas na supervisão; os estudos críticos da atitudes facilitadoras na perspectiva do método fenomenológico merleau-pontyano. Pela perspectiva fenomenológica-existencial, os psicólogos humanistas deixaram de trabalhar a perspectiva centrada na pessoa restrita aos recursos e funcionamento de uma quadro de personalidade, para compreender a condição mundana da pessoa pela sua condição ambígua com o mundo(Castelo Branco, 2023). Nos anos 90, o Plantão Psicológico foi o principal promotor da circulação de ideias da ACP, muitas vezes concebido com uma prática clínica eminentemente humanista-fenomenológica. Nesta década, o plantão psicológico alcança consolidação profissional quando o Conselho Federal de Psicologia reconhece como uma prática terapêutica emergente e distinta da psicoterapia (Vieira, Boris, 2012). Neste período, com a implantação do Sistema Único de Saúde e as demandas de atuação profissional de psicólogos, o plantão psicológico permite atuação breve e focal que tanto assiste o sofrimento psicológico latente, prevenindo cronificação e promovendo condições para saúde mental. Especificamente, os humanistas investiram e desenvolveram modalidades de plantão psicológico em diferentes instituições (clínicas, escolas, PSF, CRAS e hospital) e em diferentes comunidades (população de rua, desastres urbanos ou ambientais, comunidades tradicionais ou grupos minorizados). Deste modo, os serviços das clínicas-escolas de psicologia reconhecem a importância do plantão psicológico com a mesma estatura que modalidades de psicoterapia e avaliação psicológica (Castelo Branco, 2022). Nos anos dois mil, a ACP brasileira alcançou uma consolidação de uma psicologia humanista decorrentes das inovações, construções e trabalhos para a construção de uma clínica fenomenológica. Segundo Castelo Branco e Bloc (2024), a psicologia humanista brasileira conta um vasto repertório teórico-metodológico para os campos de pesquisa, da intervenção em psicoterapia e nas investigações acerca das psicopatologias. São construções que viabilizaram uma autonomia teórica da tradição psicológica norte-americana graças à robustez intelectual da Psicologia Humanista-fenomenológica construída por brasileiras e brasileiros, como Mauro Amatuzzi e Virginia Moreira (Castelo Branco e Cirino, 2017).