Teste de Progresso na formação médica: análise longitudinal e psicométrica do desenvolvimento de competências e do alinhamento às Diretrizes Curriculares Nacionais e ao Enamed
ODS vinculados
- 4 - Educação de Qualidade
Resumo
O projeto de pesquisa intitulado Teste de progresso na formação médica: análise longitudinal e psicométrica do desenvolvimento de competências e do alinhamento às Diretrizes Curriculares Nacionais e ao Enamed propõe investigar o teste de progresso como instrumento de avaliação longitudinal na formação médica, analisando seu comportamento ao longo do tempo, suas propriedades psicométricas e seu alinhamento aos referenciais contemporâneos da educação médica brasileira, especialmente às Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) e ao contexto do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). A proposta fundamenta-se nas transformações observadas nos processos avaliativos da educação médica nas últimas décadas, marcadas pela transição de modelos centrados exclusivamente na transmissão de conteúdos para abordagens orientadas pelo desenvolvimento de competências profissionais. Nesse cenário, consolida-se a compreensão de que a formação médica exige estratégias avaliativas capazes de acompanhar, de maneira contínua e integrada, a evolução do conhecimento, das habilidades e das atitudes necessárias ao exercício profissional, superando modelos baseados apenas em avaliações pontuais e fragmentadas. Historicamente, a formação médica brasileira foi fortemente influenciada por modelos biomédicos tradicionais, caracterizados pela centralidade do conhecimento teórico e por avaliações predominantemente somativas. A publicação das Diretrizes Curriculares Nacionais de 2001 representou um marco inicial de reorientação desse modelo ao introduzir princípios relacionados à formação generalista, crítica e humanista. Posteriormente, as DCNs de 2014 aprofundaram essa transformação ao consolidar a formação baseada em competências e reforçar a integração entre ensino, serviço e comunidade, alinhada aos princípios do Sistema Único de Saúde. Mais recentemente, as DCNs de 2025 ampliam esse movimento ao reafirmar a centralidade das competências profissionais, da responsabilidade social e da coerência entre currículo, metodologias e avaliação. Nesse contexto, a avaliação longitudinal assume papel estratégico na educação médica contemporânea, permitindo acompanhar a progressão do desenvolvimento discente ao longo da graduação. Entre os instrumentos utilizados nesse modelo, o teste de progresso destaca-se como uma avaliação cognitiva longitudinal aplicada simultaneamente a estudantes de diferentes períodos do curso, construída com base no nível esperado de egresso. Essa metodologia permite analisar não apenas o desempenho acumulado, mas também trajetórias de aprendizagem e lacunas formativas ao longo da formação médica. Estudos recentes apontam vantagens importantes do teste de progresso em relação aos modelos tradicionais de avaliação, incluindo estímulo ao aprendizado contínuo, redução da memorização de curto prazo e oferta de feedback formativo aos estudantes e às instituições. Além disso, sua utilização sistemática possibilita a identificação de fragilidades curriculares e pode subsidiar intervenções pedagógicas voltadas ao aprimoramento da formação médica. Entretanto, apesar da crescente utilização do instrumento em cursos de Medicina no Brasil, ainda são relativamente escassas as investigações que integrem, em um mesmo desenho analítico, a análise longitudinal do desempenho discente, a avaliação psicométrica dos itens e o mapeamento das questões segundo os domínios de competência previstos nas Diretrizes Curriculares Nacionais. Outro aspecto relevante refere-se à necessidade de avaliar a qualidade psicométrica do instrumento, considerando indicadores como dificuldade dos itens, capacidade de discriminação e consistência interna. A análise desses parâmetros é fundamental para verificar a validade e a confiabilidade do teste como medida do conhecimento e das competências desenvolvidas ao longo da graduação. Estudos nacionais recentes têm demonstrado variações importantes nesses indicadores entre diferentes aplicações e áreas do conhecimento, evidenciando a necessidade de análises sistemáticas voltadas à qualificação do instrumento. Além disso, a recente implementação do Enamed amplia a relevância do debate sobre avaliação na educação médica brasileira, ao estabelecer um instrumento nacional voltado à verificação das competências adquiridas pelos estudantes ao longo da graduação. Embora o presente estudo não tenha como objetivo avaliar diretamente o Enamed, o contexto inaugurado por esse exame reforça a necessidade de compreender em que medida os instrumentos avaliativos internos utilizados pelas instituições de ensino superior estão alinhados aos referenciais nacionais de formação médica e são capazes de produzir evidências consistentes sobre o desenvolvimento discente. A pesquisa será desenvolvida no contexto de um curso de graduação em Medicina de instituição pública localizada na região Norte do Brasil, em cenário de interiorização da formação em saúde. O curso, criado em 2016, apresenta Projeto Pedagógico alinhado às Diretrizes Curriculares Nacionais e orientado pela formação baseada em competências, integração ensino-serviço-comunidade e compromisso com as necessidades de saúde da população amazônica. Nesse contexto regional, caracterizado por especificidades epidemiológicas, desigualdades de acesso aos serviços de saúde e desafios relacionados à interiorização da educação superior, a produção de evidências contextualizadas sobre avaliação educacional assume relevância estratégica para o fortalecimento da formação médica. O objetivo geral do estudo é analisar o teste de progresso como instrumento de avaliação na formação médica, por meio da investigação longitudinal do desempenho discente, da análise psicométrica dos itens e do alinhamento dos conteúdos avaliados aos domínios de competência das Diretrizes Curriculares Nacionais e ao Projeto Pedagógico do Curso, considerando suas implicações para os processos avaliativos. Entre os objetivos específicos, destacam-se: analisar a evolução do desempenho discente ao longo de quatro aplicações do teste realizadas entre 2025 e 2027; classificar os itens segundo os domínios de competência das DCNs; examinar a distribuição do desempenho entre os diferentes eixos formativos; avaliar parâmetros psicométricos dos itens; estimar a concordância entre avaliadores na classificação das questões; e discutir as implicações dos achados para o aprimoramento das estratégias avaliativas. Trata-se de um estudo observacional, analítico, longitudinal, com abordagem quantitativa, baseado em dados secundários provenientes de quatro aplicações do Teste de Progresso realizadas no período de 2025 a 2027. As fontes de dados incluirão bancos institucionais de desempenho discente, cadernos de prova e gabaritos oficiais. A população do estudo será composta por estudantes regularmente matriculados no curso de Medicina que participaram das aplicações analisadas. As unidades de análise compreenderão tanto os estudantes, para avaliação longitudinal do desempenho, quanto os itens das provas, para análise psicométrica. O instrumento analisado corresponde ao modelo de Teste de Progresso adotado em âmbito nacional pela Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM). O teste caracteriza-se como avaliação cognitiva, longitudinal, institucional e formativa, construída a partir do perfil de egresso estabelecido pelas DCNs. A prova é composta por 120 itens de múltipla escolha distribuídos entre as grandes áreas da Medicina: clínica médica, cirurgia, pediatria, ginecologia e obstetrícia, saúde coletiva e medicina de família e comunidade. Os itens são elaborados com base em matriz estruturada e blueprint fundamentados nas Diretrizes Curriculares Nacionais. As variáveis relacionadas aos estudantes incluirão período do curso, escore bruto e percentual de acertos. Em relação aos itens, serão analisados indicadores como proporção de acertos, índice de dificuldade, índice de discriminação e domínio de competência. Os itens das provas serão classificados segundo os domínios previstos nas DCNs, com interpretação à luz da organização curricular descrita no Projeto Pedagógico do Curso. Essa classificação será realizada por dois avaliadores independentes, sendo posteriormente estimada a concordância entre avaliadores por meio do coeficiente Kappa. A análise psicométrica contemplará o índice de dificuldade, correspondente à proporção de acertos por item; o índice de discriminação, relacionado à capacidade do item de diferenciar estudantes com diferentes níveis de desempenho; e a consistência interna estimada pelo alfa de Cronbach. Também serão examinados padrões de comportamento dos itens entre diferentes aplicações do teste, permitindo avaliar possíveis variações na qualidade do instrumento ao longo do período analisado. A análise estatística incluirá medidas descritivas e inferenciais. A evolução do desempenho discente será analisada por meio de comparações entre aplicações e períodos do curso, utilizando testes paramétricos ou não paramétricos conforme a distribuição dos dados, incluindo análise de variância (ANOVA) ou teste de Kruskal-Wallis. A normalidade será verificada pelo teste de Shapiro-Wilk, adotando-se nível de significância de 5%. No que se refere aos aspectos éticos, o estudo será submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da instituição responsável, em conformidade com as normativas vigentes. Por tratar-se de pesquisa baseada em dados secundários, serão adotadas medidas destinadas à garantia da confidencialidade e do anonimato das informações analisadas. Como resultados esperados, prevê-se a produção de evidências quantitativas e analíticas sobre o comportamento do teste de progresso como instrumento de avaliação na formação médica, possibilitando maior compreensão acerca de sua capacidade de refletir a progressão do conhecimento discente e o desenvolvimento de competências ao longo da graduação. Espera-se identificar padrões de evolução do desempenho, variações entre períodos do curso e possíveis assimetrias entre diferentes domínios de competência, além de caracterizar o comportamento psicométrico dos itens quanto à dificuldade, discriminação e consistência interna. No âmbito institucional, os resultados poderão contribuir para o uso mais qualificado dos dados do teste de progresso, ampliando seu potencial como ferramenta de gestão acadêmica, monitoramento da formação discente, revisão curricular e aperfeiçoamento das estratégias pedagógicas e avaliativas. Espera-se, ainda, que o estudo contribua para o fortalecimento das discussões sobre avaliação longitudinal, educação baseada em competências e alinhamento entre currículo, avaliação e Diretrizes Curriculares Nacionais no contexto da educação médica brasileira.