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A aula como artesania educacional e o ensino de Sociologia

Unidade
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIENCIAS HUMANAS
Subunidade
FACULDADE DE CIENCIAS SOCIAIS
Coordenador
MARCIA VANESSA MALCHER DOS SANTOS
Período
- a -
Grupo
Pesquisa

ODS vinculados

  • 4 - Educação de Qualidade

Resumo

O projeto de pesquisa “As formas de prática da aula de sociologia em escolas públicas de Belém e seu entorno: um estudo dos processos de reprodução e produção socioculturais”, vigente no período de 03/07/23 a 30/06/25 no âmbito da Universidade Federal do Pará, teve como objetivos centrais: 1) Elaborar uma proposta teórico-metodológica de utilização do materialismo cultural, formulado por Raymond Williams, para investigar a prática da aula na educação escolar, em particular, da aula de Sociologia; 2) A partir de trabalho de campo baseado no “estudo de caso ampliado” (Burawoy, 2014), investigar, valendo-se das diretrizes teórico-metodológicas formuladas, as formas de prática das aulas de professores de Sociologia do Ensino Médio em duas escolas públicas de Belém-PA e seu entorno, localizadas, respectivamente, no espaço urbano e no espaço rural. No decorrer da pesquisa, constatou-se que a proposta teórico-metodológica, além de original, é de extrema complexidade pois se trata de uma reconstrução teórica. Reconstrução essa que exige um trabalho ativo de “traduções” entre conceitos e reflexões vindos do campo da educação, da arte e da cultura a fim de estudar um fenômeno sociocultural complexo e multidimensional: a aula. Embora o materialismo cultural tenha sido utilizado por Raymond Williams, principalmente, para estudar objetos e atividades explicitamente culturais (a exemplo do teatro, do cinema e da literatura), por estar sustentado em uma “concepção ampliada de cultura”, o método também pode ser empregado para estudar um fenômeno especificamente educacional, como é o caso da aula, desde que feitas as traduções necessárias. No período de vigência da pesquisa, essas traduções foram realizadas na forma de uma “pesquisa exploratória” (Severino, 2007, p.123) que definiu as principais balizas teóricas e metodológicas por meio das quais a prática da aula escolar pode ser estudada tendo como diretriz o materialismo cultural. Essas traduções foram facilitadas pelo fato de haver importantes semelhanças entre a educação e a cultura. Nos termos de Williams, podemos considerar que não só a cultura é um “sistema de significações realizado”, mas que a educação também o é, já que ambas não estão restritas aos seus próprios sistemas: a cultura vai além dos artefatos artísticos e das atividades manifestadamente culturais; e a educação não se restringe aos espaços educacionais formais. Tanto uma quanto a outra, além de terem seus próprios “sistemas de significações”, também estão “mais ou menos completamente” diluídas (Williams, 1992) em uma série de outras atividades, relações e instituições sociais tanto quanto essas outras necessidades e ações estão profundamente presentes em todas as suas atividades manifestas. Além disso, no que se refere especificamente à atividade artística e à prática da aula, existe uma “afinidade eletiva” (Löwy, 2011) entre ambas. Há uma convergência de sentido dos seus propósitos e ethos laborais, já que a arte e a aula resultam de uma qualidade de trabalho que tem o potencial de cumprir objetivos societários do tipo mais profundo . Por conta disso, assumiu-se o conceito de “educacional artistry” (“artesania educacional”, em tradução livre), formulada por Giest Biesta, o qual considera a prática educativa uma “arte situada na qual a artesania dos professores, isto é, a sua capacidade inventiva de criar situações e oportunidades educacionalmente significativas para os seus alunos em situações sempre novas e únicas desempenha um papel crucial” (Biesta, 2020, p. 6). Tendo como pressuposto as semelhanças e as afinidades citadas, iniciou-se o processo de reconstrução teórica a fim de categorizar as “formas” específicas da aula. Para isso, tomou-se como inspiração a categorização utilizada para as práticas artísticas. Se, por um lado, na arte existem diferentes convenções estéticas, a exemplo do cinema, do teatro e da literatura, na educação existem diferentes convenções educacionais por meio das quais as práticas educativas se concretizam, sendo a aula escolar uma delas; por outro, se no interior de uma convenção estética específica certas configurações estilísticas se especializaram e passaram a se organizar na forma de gêneros, o mesmo aconteceu com a aula escolar, cujos modos de organização e desígnios variam de acordo com a disciplina ministrada. Assim, chegou-se à conclusão que a aula apresenta uma forma enquanto convenção educacional e, a partir dessa convenção, uma forma enquanto “gênero” disciplinar, sendo a Sociologia um desses “gêneros” (Malcher, 2024). Essa identificação das suas formas era fundamental porque Williams buscou articular analiticamente a sociologia das formas à forma “sociológica”, ou seja, o materialismo cultural exige que se articule o estudo da forma e conteúdo de uma dada prática à investigação das suas condições sociais e materiais de produção. No caso da aula, pode-se considerar, no que concerne às suas condições sociais e materiais que se fazem presentes em relação à aula analisada, por exemplo, as normativas e práticas referentes à gestão educacional, a jornada de trabalho do professor, o regime salarial, tempo disponível para lazer, cultura e esporte, tempo de que dispõe para preparação das aulas, normas de conduta profissional locais e infraestrutura disponível no espaço de trabalho. Apenas assim é possível analisar a relação entre a prática pedagógica (labour) e a prática social (work) do trabalho educativo tomando a aula como objeto. Daí a importância de se categorizar, antes de tudo, a forma e o conteúdo da aula escolar enquanto convenção educacional. Um resultado relevante desse processo de reconstrução teórica foi a definição dos componentes do conteúdo e da forma germinal da aula ou o seu sistema de significações fundamental. Essa categorização, além de permitir que a aula escolar seja investigada na sua integralidade, também pode ser utilizada como base para o estudo dos seus diferentes “gêneros” disciplinares, não apenas a Sociologia. Essa elaboração partiu do pressuposto de que o efeito do conteúdo da aula se deve à atuação da forma, sendo que para investigar esse fenômeno é preciso examinar os seus conteúdos específicos e gerais, como estrutura e significado, e a maneira como eles estão articulados às suas formas, às suas “maneiras de dizer”, também elas específicas e gerais. Desse modo, abstraindo a imbricação e a simultaneidade existente entre o conteúdo e a forma da aula, apenas para fins de descrição conceitual, o quadro a seguir sintetiza a categorização proposta: Tabela 1 - O conteúdo e a forma germinal da aula CONTEÚDO Específico - Conhecimento sistematizado, conceitos e teorias (científicas, artísticas, filosóficas, etc.) + Capacidades e habilidades humanas encarnadas no conhecimento sistematizado Geral - Noções, sugestões, sentimentos, concepções políticas, princípios éticos, disposições e visões de mundo explícitas e/ou latentes FORMA Específica - Organização didática da aula (localização no plano de ensino; sequência didática; métodos e recursos utilizados; procedimentos avaliativos; qualidade da interação didática entre professor/a e alunos) + Princípios pedagógicos encarnados na organização didática Geral - Índices de narratividade, movimento, cena e linguagem socioculturais [Fonte: Elaborado pela autora] No que se refere ao ensino de Sociologia, defendeu-se que as dimensões específicas e gerais do conteúdo e forma germinal da aula atuam no sentido de desenvolver nos alunos uma disposição cognitiva marcada por uma “percepção figuracional da realidade social” (Malcher, 2024). Percepção essa tal como caracterizada por Bodart (2021a). Ainda que a especificidade da Sociologia no ensino básico seja um debate em aberto, compreende-se que essa formulação teórica inspirada em Norbert Elias é fecunda para definir o “gênero” educacional da aula de Sociologia. Assim, entende-se que a categorização da forma e do conteúdo germinal da aula (no interior da convenção educacional escolar) representa um avanço teórico e uma contribuição para o campo da educação em uma perspectiva interdisciplinar. Por conta dessa relevância, dada a sua complexidade, ela precisa agora ser aperfeiçoada para que possa adquirir maior rigor teórico e para que possa ser manejada com mais segurança por aqueles que se interessem em analisar a prática da aula a partir do materialismo cultural. A princípio, no projeto “As formas de prática da aula de sociologia em escolas públicas de Belém e seu entorno: um estudo dos processos de reprodução e produção socioculturais” (03/07/23 - 30/06/25), o intuito era analisar as formas de prática das aulas de professores de Sociologia do Ensino Médio em duas escolas públicas de Belém-PA e seu entorno, localizadas, respectivamente, no espaço urbano e no espaço rural, valendo-se das diretrizes teórico-metodológicas formuladas. No entanto, devido à indisponibilidade de tempo e recurso para estudar o contexto escolar ribeirinho, optou-se pela realização do campo em uma escola pública no âmbito urbano, o qual foi realizado no bairro do Guamá, em Belém. Esse trabalho de campo foi fundamental como fonte empírica para a formulação da reconstrução teórica apresentada, além de ter possibilitado o avanço na frente de pesquisa relacionada às condições sociais e materiais de produção da aula no contexto paraense, em especial no que se refere à implementação da reforma do ensino médio no estado. Esse avanço foi concretizado no artigo “A reforma do Ensino Médio no Pará: uma análise do componente curricular Projeto de Vida”, aprovado para publicação pela Revista Áskesis; e em uma pesquisa (em fase de conclusão e escrita) que visa comparar o impacto da reforma do ensino médio nas condições de trabalho de dois professores de Sociologia que atuam, respectivamente, na rede pública e privada de ensino de Belém-PA. Entretanto, avaliou-se que seria precipitado já realizar a análise das práticas de aula observadas a partir do materialismo cultural sem um maior aprofundamento e detalhamento da reconstrução teórica em torno do seu sistema de significações. Portanto, os dados empíricos referentes especificamente ao conteúdo e forma das aulas observadas serão temporariamente arquivados para que, após a conclusão da pesquisa aqui proposta, a análise dessas práticas seja feita com maior rigor e segurança. Assim, o objetivo desta pesquisa é aprofundar as “traduções” entre os campos da educação, cultura e arte a fim de aprimorar os termos conceituais referentes ao conteúdo e a forma germinal da aula, tal como definidos na Tabela 1, além de também aperfeiçoar os termos teóricos referentes à singularidade do “gênero educacional” da aula de Sociologia, ou seja, dos termos que caracterizam a especificidade do ensino de Sociologia. Com esse propósito, será dada especial atenção à “forma” da aula que engloba aspectos referentes aos “índices de narratividade, movimento, cena e linguagem socioculturais”. Trata-se do que, provisoriamente, classificou-se como os elementos de movimento e cena (a hexis corporal do professor), o tom da voz, a atitude, a vestimenta, o nível de especialização da linguagem, a gestualidade e o “gesto social” (Brecht, 1978). Entende-se que, para isso, a principal prática artística que será fonte conceitual e de reflexão é o drama na sua forma teatral, tendo em vista que a aula, assim como uma peça de teatro, é um acontecimento irreprodutível, dadas as suas características fundamentais, já que ancoradas na relação pedagógica estabelecida pela presença. Daí a necessidade de se debruçar nos estudos dramáticos para aperfeiçoar a categorização da sua forma.