← Voltar

Amazônia em Disputa: crimes ambientais e redes criminosas no sul e sudeste do Pará

Unidade
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIENCIAS HUMANAS
Subunidade
FACULDADE DE CIENCIAS SOCIAIS
Coordenador
JAIME LUIZ CUNHA DE SOUZA
Período
- a -
Grupo
Pesquisa

ODS vinculados

  • 16 - Paz, Justiça e Instituições Eficazes

Resumo

O projeto de pesquisa “Amazônia em Disputa: crimes ambientais e redes criminosas no sul e sudeste do Parᔠtem como objetivo investigar a relação entre crimes ambientais, redes criminosas organizadas, atividades econômicas lícitas e agentes políticos nas microrregiões sul e sudeste do estado do Pará. A pesquisa parte do reconhecimento de que a Amazônia, embora desempenhe papel essencial na regulação climática global, na conservação da biodiversidade e na reprodução social de comunidades locais, tem sido profundamente afetada por dinâmicas de exploração ilegal de recursos naturais, conflitos fundiários, desmatamento, garimpo clandestino, grilagem de terras, narcotráfico e outras formas de criminalidade organizada. O recorte territorial do projeto concentra-se no sul e sudeste paraense, região marcada por um processo histórico de ocupação associado à expansão da fronteira agrícola, à concentração fundiária, à mineração, à pecuária extensiva e à implantação de grandes projetos de infraestrutura. Desde a segunda metade do século XX, especialmente durante o regime militar, políticas de integração territorial da Amazônia favoreceram a migração, a abertura de estradas, a exploração econômica intensiva e a apropriação privada de terras. Esse processo produziu disputas entre grandes proprietários, pequenos agricultores, trabalhadores rurais sem-terra, povos indígenas e comunidades tradicionais, consolidando a região como um dos principais focos de conflitos socioambientais e fundiários do país. A pesquisa busca compreender como diferentes modalidades de crimes ambientais estão articuladas a estruturas criminosas mais amplas, capazes de combinar atividades ilícitas e lícitas. Nesse sentido, parte-se da hipótese de que práticas como garimpo ilegal, extração clandestina de madeira, grilagem de terras, narcotráfico e lavagem de dinheiro não operam de maneira isolada, mas se conectam a mercados formais, redes políticas, agentes econômicos e fragilidades institucionais. Tais conexões contribuem para a consolidação de formas paralelas de controle territorial, nas quais organizações criminosas podem exercer influência sobre populações locais, agentes públicos, cadeias produtivas e atividades econômicas aparentemente legais. O problema central da pesquisa consiste em investigar a relação entre crimes ambientais e a forma como organizações criminosas estruturam e consolidam seu domínio territorial nos municípios das microrregiões sul e sudeste do Pará. O objetivo geral é identificar a participação de agentes políticos e de atividades lícitas na expansão das redes criminosas nessa região. Para alcançar esse objetivo, o projeto propõe identificar padrões espaciais e o modus operandi das organizações criminosas, mapear a sobreposição entre crimes ambientais e outras atividades ilícitas, avaliar a influência de agentes políticos no aumento das atividades criminosas e examinar tendências estatísticas relacionadas à expansão da fronteira agrícola, aos investimentos em infraestrutura e à criminalidade ambiental. O referencial teórico mobiliza debates sobre crime organizado, ilegalismos, governança territorial, fragilidade estatal, lavagem de dinheiro, grilagem, narcotráfico, desmatamento e articulação entre economias lícitas e ilícitas. O projeto dialoga com autores que analisam a capacidade das redes criminosas de se instalar em territórios vulneráveis, explorar brechas legais, capturar ou manipular instituições e converter atividades ilegais em ganhos econômicos formalizados. Também discute conceitos como “narco-cattle ranching”, “narco-deforestation”, “narcodegradação” e “ilegalidade costumeira”, indicando seus limites e possibilidades para compreender a realidade amazônica, especialmente quando tais abordagens tendem a simplificar as relações entre crime, comunidades locais, desigualdade fundiária e ausência de políticas públicas efetivas. A metodologia adotada será mista, combinando procedimentos quantitativos e qualitativos. O recorte temporal da pesquisa compreende o período de 2018 a 2024. A dimensão quantitativa envolverá a análise de bancos de dados, registros policiais, relatórios institucionais, informações de órgãos ambientais, dados do Ministério Público, da Polícia Civil, da Polícia Federal, do IBAMA, do ICMBio, da Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Pará, do IDESP, da Comissão Pastoral da Terra, de órgãos de imprensa e de redes sociais. Esses dados serão utilizados para mapear padrões espaciais, identificar hotspots de crimes ambientais e correlacionar atividades criminosas com indicadores econômicos, sociais, fundiários e territoriais. A pesquisa também prevê o uso de Sistemas de Informação Geográfica (SIG), estatísticas descritivas e inferenciais, análise espacial e integração de diferentes bases de dados. Essa estratégia permitirá visualizar a incidência e a sobreposição entre crimes ambientais, desmatamento, garimpo, grilagem, narcotráfico, expansão agropecuária e investimentos em infraestrutura. A triangulação de dados institucionais e territoriais buscará fortalecer a validade dos resultados e oferecer uma compreensão mais abrangente das dinâmicas socioeconômicas, criminais e ambientais presentes nas microrregiões investigadas. A dimensão qualitativa será desenvolvida por meio de entrevistas semiestruturadas com policiais, promotores de justiça, juízes, funcionários municipais e outros atores com posição privilegiada para observar o fenômeno. Essas entrevistas terão a função de aprofundar a compreensão sobre o funcionamento das redes criminosas, suas formas de inserção territorial, suas conexões com agentes públicos e privados, bem como os efeitos sociais e políticos de sua presença. A articulação entre métodos quantitativos e qualitativos permitirá compreender não apenas a distribuição espacial dos crimes, mas também os mecanismos sociais, institucionais e econômicos que tornam essas redes resilientes. O projeto prevê como metas a orientação de estudantes de iniciação científica, TCC, mestrado e doutorado, a apresentação dos resultados em evento científico regional ou nacional e a submissão de pelo menos dois artigos a periódicos nacionais e/ou internacionais. Também está prevista a elaboração de relatório final ao término da pesquisa. Dessa forma, o projeto pretende contribuir tanto para o avanço do conhecimento acadêmico sobre crime organizado e degradação ambiental na Amazônia quanto para a formação de recursos humanos e para a produção de informações relevantes ao debate público e institucional sobre governança, segurança, meio ambiente e desenvolvimento regional.