O turismo amazônico como fator de cooperação acadêmico-científica no Sul global: conexões afro-latino-americanas
ODS vinculados
- 4 - Educação de Qualidade
- 11 - Cidades e Comunidades Sustentáveis
- 17 - Parcerias e Meios de Implementação
Resumo
O turismo enquanto experiência que envolve oferta e demanda, enquadra-se no setor terciário da economia em uma troca de bens, serviços e capitais bastante complexas, que consubstanciam a mercadoria-turismo (Pinto, 2016). O produto turístico caracteriza-se por elementos tangíveis e intangíveis que afetam quase todos os setores da vida social e é, em sua essência, uma prestação de serviços imbricada em distintas atividades de transformação e produção (Ansarah, 2001). A mercadoria-turismo molda-se para o atendimento do fluxo demandante realizando adequações às situações experimentadas nos destinos ou localidades turísticas e, na maioria das vezes, reproduzindo modelos e sofrendo influências dos grupos de interesse os mais diversos. Nas últimas décadas, o turismo tem ampliado sua relevância para além de sua dimensão econômica, consolidando-se como um fenômeno social, cultural e político capaz de promover a circulação de pessoas, saberes e experiências em escala global. Essa ampliação de perspectivas tem favorecido a compreensão do turismo como um elemento de intercâmbio intercultural (Barretto, 2007) e de fortalecimento das relações internacionais, especialmente em contextos nos quais a mobilidade humana se associa à produção e à difusão do conhecimento científico. A Amazônia, enquanto bioma, registra uma trajetória que a inclui como território sociobiodiverso e a sua salvaguarda apresenta-se como uma prioridade para a manutenção da vida no planeta.. Entretanto, a inserção da Amazônia nos processos de globalização, em suas mais diferentes concepções, visibilizou os conflitos crescentes impulsionados pela dilapidação dos recursos naturais, de um lado, e pelo movimento de resistência das populações locais, de outro. Em consonância com afirmação de Pinto (2006), no âmbito destes conflitos e dos embates teóricos e práticos decorrentes, a perspectiva da sustentabilidade é inserida, por organismos oficiais do Estado, como elemento mediador entre a exploração desenfreada e a conservação dos recursos naturais. Entretanto, a sustentabilidade, segundo Leff (2001) e Becker (2009), aponta que a nova ordem se constrói sob a desordem global e se baseia no uso máximo e ótimo das potencialidades locais, nesse contexto o modelo de desenvolvimento endógeno é reforçado como alternativa para a ampliação da participação das comunidades amazônicas. Nessa perspectiva, o modelo ressalta o poder local como proposta centrada nos recursos naturais que requerem conhecimento sobre a própria realidade, daí a importância da participação comunitária (Teixeira, 2001; Veiga, 2005). Desse modo, os princípios da sustentabilidade são aplicados no campo do turismo enquanto perspectiva teórica do turismo sustentável, requisitando um novo olhar sobre os destinos turísticos e, como afirmam Irving, Bursztyn, Sancho e Melo (2005, p. 2), deve estar [...] apoiada na noção de espaço material e imaterial, lugar concreto e abstrato, cenário de interações, conflitos e transformações, ponto de contato entre o local e o global. Portanto, é sob a ótica do turismo sustentável que o turismo amazônico se assenta como fator diferenciador no cenário turístico nacional e internacional. Na Amazônia, o turismo tem se destacado pelo reconhecimento da relação intrínseca entre o ser humano e os recursos naturais, e pela inserção da participação das populações locais principalmente nos segmentos do turismo cultural e de natureza como, por exemplo, o gastronômico e o turismo de base comunitária, respectivamente. O reconhecimento do fator diferenciador do turismo amazônico está centrado nas referências históricas, culturais e étnicas também compartilhadas entre os países da América Latina e da África. Nesse cenário, a região emerge como um território estratégico, não apenas por sua singularidade ambiental e sociocultural, mas também por seu potencial de atrair pesquisadores, estudantes e instituições interessados em temas relacionados à biodiversidade, ao patrimônio cultural, às mudanças climáticas, às populações tradicionais e a sustentabilidade. Por essa perspectiva, a Universidade Federal do Pará (UFPA) vem desenvolvendo projetos de cooperação com países africanos de língua oficial portuguesa e uma das iniciativas mais recentes, no âmbito do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA), coube a Faculdade de Turismo (FACTUR) e se deu com a Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) (Pinto; Cruz; Oliveira; Ferreira, 2021). Tal cooperação resultou em seminários, visitas institucionais, rodas de conversas, publicação de livros e protocolos de irmanamento. Nesse conjunto de ações, as relações estabelecidas entre Brasil e Cabo Verde revelam-se particularmente proeminentes. Os dois países compartilham vínculos históricos, culturais e linguísticos que favorecem o desenvolvimento de iniciativas de intercâmbio em diferentes áreas do conhecimento, bem como projetos conjuntos de pesquisa e ações voltadas à internacionalização do ensino superior, configurando um cenário oportuno para a formação de redes de cooperação acadêmico-científica. Embora a literatura sobre cooperação acadêmico-científica apresente avanços significativos, observa-se que a maior parte das investigações se concentra em áreas como ciência, tecnologia, inovação, saúde global e mudanças climáticas, permanecendo ainda incipientes os estudos que examinam o papel do turismo como elemento estruturante dessas relações (Silva; Freitas; Mendes; Campos; Pinto, 2022). Tal lacuna torna-se ainda mais evidente quando se considera o turismo amazônico, cuja abordagem permanece predominantemente vinculada às dimensões ambiental, econômica e cultural, sendo pouco exploradas suas potencialidades como mecanismo de internacionalização universitária e de fortalecimento da cooperação acadêmico-científica. Denota-se disso que o desenvolvimento de estudos com foco no turismo amazônico proporcionará intercâmbios de conhecimentos e o partilhamento de experiências em ciência e tecnologia e qualificação profissional em turismo, bem como para o enfretamento de problemas sociais, culturais e ambientais advindos do processo de turistificação dos lugares. Nessa diretriz, este projeto de pesquisa objetiva analisar o espectro de atuação do turismo amazônico como fator diferenciador e estratégico de cooperação acadêmico-científica entre instituições públicas de ensino superior do Sul global, particularmente no âmbito das conexões afro-latino-americanas. Para tanto, é necessário a utilização de pressupostos teórico-metodológicos interdisciplinares para o exame das experiências de cooperação das instituições envolvidas, e investigar as possibilidades do estabelecimento de rede de cooperação. Tal iniciativa, possibilitará o estreitamento do intercâmbio a ser desenvolvido a partir dos supostos do turismo de natureza e sustentável nas vertentes social, cultural e ambiental, na salvaguarda do patrimônio e na qualificação profissional, reforçando e ampliando as iniciativas recentes de internacionalização do ensino de graduação e da pós-graduação no âmbito do ICSA e da UFPA. Resultando na intensificação do elo existente entre Belém do Pará e Cabo Verde e na ampliação dos laços científicos, tecnológicos, culturais e turísticos com outras instituições de ensino africanas.