Turismo Comunitário e Tecnologias Sociais em Comunidades Tradicionais da Amazônia um estudo exploratório.
ODS vinculados
- 8 - Trabalho Decente e Crescimento Econômico
Resumo
O turismo comunitário (TC) ou turismo de base comunitária (TBC) é compreendido por muitos estudiosos como estratégia para alívio da pobreza de grupos sociais em situação de vulnerabilidade social, ambiental e econômica (RUIZ-BALLESTEROS, 2017; PURBASARI; MANAF, 2018; CORIOLANO, SAMPAIO, 2012; MORAES, IRVING, 2018). Para Coriolano (2003), isto ocorre porque o turismo em comunidades é concebido de baixo para cima, em contraposição ao turismo convencional gerido de cima para baixo. As comunidades ribeirinhas da Amazônia compõem um dos grupos sociais do cenário brasileiro em situação de vulnerabilidade socioeconômica e ambiental, que adotou o turismo como uma prática econômica complementar às atividades tradicionais; como uma luta comunitária (SANSOLO e BURSZTYN, 2009) estratégica para reivindicar direitos sociais, como uso do território e conservação dos recursos naturais como essenciais à sua sobrevivência; como forma de resistência (CORIOLANO, 2006) aos interesses capitalistas na biodiversidade amazônica. A principal característica do TC é a base endógena (IRVING, 2009). O envolvimento das comunidades receptoras na gestão do turismo estimula a participação, o protagonismo, e consequentemente, o empoderamento das populações locais, que são condições para o surgimento, fortalecimento e manutenção de iniciativas de TC (CORIOLANO, 2003; OKASAKI, 2008; IRVING, 2009; FORTUNATO E SILVA, 2013; RUIZ-BALLESTEROS, 2017). O turismo comunitário, ao se organizar em torno do protagonismo de grupos étnicos e sociais, considerados minorias marginalizadas e oprimidas na sociedade capitalista, se apresenta como uma outra forma de fazer turismo, um outro paradigma para planejar, operacionalizar e gerir as atividades turísticas. Nesse outro processo de desenvolver o turismo, a proposta é gerar benefícios coletivos por meio de uma gestão comunitária compartilhada ou coletiva, também chamada autogestão. Esse é o maior desafio, pois exige capacitação da comunidade em várias frentes de trabalho: planejamento; prestação de serviços aos turistas; promoção e comercialização do produto no mercado; mediação de conflitos coletivos no ambiente endógeno; gestão de parceiros comerciais externos; monitoramento do desenvolvimento do turismo e impactos na comunidade, entre outras. Pelo exposto, para que consigam alcançar a sustentabilidade econômica, e manter as iniciativas de turismo ao longo do tempo, as comunidades precisam desenvolver habilidades de gestão em dois ambientes: comunitário e mercado de viagens, de forma holística e integrada. Em função da complexidade que essa governança envolve, muitas experiências de TC fracassam após o término das parcerias com agentes externos de fomento. Assis (2021) identificou que a autonomia na gestão do turismo somente pode ser viabilizada quando a comunidade é livre e plenamente capaz de tomar decisões em todos os processos que envolvem a operação turística, os quais ocorrem tanto no seu ambiente interno (o comunitário), quanto no externo (mercado de viagens). Portanto, se compreende nessa proposta de pesquisa, que o êxito de iniciativas de TC deve ser reflexo de uma comunidade preparada para autogerir-se de forma integrada, entre suas demandas endógenas e as exigidas pelo mercado de viagens, considerando que existe entre esses dois ambientes uma dependência recíproca própria de um sistema complexo, como é o turismo comunitário, de acordo com o paradigma da complexidade proposto por Morin (2005). A tecnologia social, por ser uma proposta de desenvolvimento de uma solução para uma questão social a partir da interação com a comunidade, é uma estratégia inclusiva, democrática e, portanto, mais adequada para a construção da autonomia comunitária na gestão do turismo. A perspectiva dialógica entre saber local e saber acadêmico-científico, é relevante e necessária para fornecer informações específicas sobre o ambiente endógeno, como as particularidades do território e da organização social, e do ambiente exógeno, como a dinâmica de comercialização de produtos turísticos, técnicas de promoção no mercado, entre outros. A junção desses conhecimentos é fundamental para criar uma metodologia de gestão integrada entre um ambiente (endógeno) no qual o capital humano e social é mais valorizado, e o outro ambiente (exógeno) onde prevalece o capital financeiro.