Análise dos Determinantes Genéticos, Socioambientais e Epidemiológicos de Agravos Metabólicos em Populações da Amazônia no Contexto do Programa Mais Médicos: Um Estudo Baseado em Dados Secundários
ODS vinculados
- 3 - Saúde e Bem-Estar
- 10 - Redução das Desigualdades
- 17 - Parcerias e Meios de Implementação
Impacto na Amazônia
- Comunidades Tradicionais – Ações com Povos Indígenas ou Originários
- Comunidades Tradicionais – Ações com Ribeirinhos
- Mudanças Climáticas – Sustentabilidade
Resumo
As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), especialmente os agravos metabólicos como o diabetes tipo 2, a obesidade, a dislipidemia e a hipertensão arterial, configuram-se como os principais desafios contemporâneos para os sistemas de saúde pública em todo o mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (2023), as doenças cardiovasculares muitas vezes decorrentes desses distúrbios metabólicos são responsáveis por mais de 17 milhões de mortes por ano. No Brasil, essas condições são particularmente prevalentes em populações socioeconomicamente vulneráveis, contribuindo de forma expressiva para os indicadores de morbimortalidade, redução da capacidade funcional e perda da qualidade de vida. Na Região Norte do país, e em especial na Amazônia brasileira, a complexa interação entre fatores genéticos, determinantes socioeconômicos, ambientais e culturais influencia fortemente a prevalência e distribuição desses agravos. Barreiras estruturais, como a desigualdade no acesso a serviços de saúde, o isolamento geográfico, a precariedade do saneamento básico e a insegurança alimentar, se somam a mudanças nos padrões alimentares e de estilo de vida, resultando em um ambiente propício à transição nutricional e ao aumento de doenças crônicas. Além disso, aspectos genéticos desempenham papel relevante na suscetibilidade individual a essas condições. Estudos de associação genômica ampla (GWAS) identificaram variantes genéticas nos genes FTO, TCF7L2, ADIPOQ, APOE, SLC2A2, ACE, entre outros, relacionados a características como obesidade, metabolismo da glicose, regulação da pressão arterial e dislipidemias. Entretanto, a maior parte dessas análises é realizada em populações de países desenvolvidos, com baixa representatividade das populações brasileiras e amazônicas. Considerando a elevada miscigenação genética da região Norte, marcada pela ancestralidade indígena, africana e europeia, torna-se imperativo compreender o padrão de distribuição dessas variantes em grupos populacionais locais. Nesse contexto, este projeto de iniciação científica propõe uma análise integrada e descritiva dos fatores genéticos, socioambientais e epidemiológicos relacionados aos agravos metabólicos em populações da Amazônia atendidas pela Atenção Primária em Saúde (APS), com especial destaque para os municípios contemplados pelo Programa Mais Médicos (PMMB). A proposta se insere nos esforços de geração de conhecimento científico regionalizado, contribuindo para subsidiar estratégias de vigilância, prevenção e cuidado integral no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). O estudo será observacional, de abordagem mista (quantitativa e qualitativa), e será realizado exclusivamente com dados secundários públicos e institucionais, não envolvendo coleta primária com seres humanos. Portanto, conforme a Resolução CNS nº 510/2016, não exige submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa. A análise genética será baseada em dados documentais oriundos de bancos genômicos de acesso aberto, como o 1000 Genomes Project, o Genome Aggregation Database (gnomAD) e o Arquivo Brasileiro de Genoma de Origem Mista (ABraOM). A proposta não prevê experimentação laboratorial nem sequenciamento de DNA, mas sim a identificação de polimorfismos genéticos previamente associados às doenças metabólicas e a análise de sua distribuição por ancestralidade, a partir de estudos publicados. Essa abordagem metodológica está alinhada à viabilidade e aos objetivos formativos da iniciação científica, permitindo a introdução do discente aos fundamentos da bioinformática, genética populacional e interpretação crítica da literatura biomédica. No que tange ao componente epidemiológico e social, o projeto utilizará dados oriundos de sistemas públicos como o DATASUS/TabNet, SISAB (e-SUS AB), IBGE (PNAD, POF, Censo), Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil (PNUD) e relatórios institucionais do PMMB, buscando compor um retrato amplo dos determinantes sociais e ambientais associados aos agravos metabólicos na região. A análise incluirá variáveis como faixa etária, sexo, prevalência de doenças, cobertura vacinal, acesso a serviços de saúde, renda, escolaridade, segurança alimentar e saneamento básico. Entre os municípios a serem incluídos, serão selecionadas unidades da federação da Amazônia brasileira com presença documentada de equipes da APS vinculadas ao PMMB, e que disponham de dados epidemiológicos e socioeconômicos adequados. Serão excluídos municípios com baixa cobertura da APS ou com dados insuficientes para análise comparativa. Os territórios serão organizados conforme tipologias oficiais (urbano, rural e ribeirinho), possibilitando a análise das desigualdades territoriais na distribuição dos agravos. A metodologia contempla cinco eixos principais: (1) levantamento e sistematização da literatura científica sobre polimorfismos genéticos associados às doenças metabólicas; (2) identificação das variantes relevantes e análise descritiva de sua distribuição nas bases genômicas; (3) levantamento de dados epidemiológicos e organização das informações por município, agravo, faixa etária e outros indicadores; (4) análise comparativa entre contextos urbano e rural; e (5) integração dos dados em painéis interpretativos, com produção de mapas, gráficos, tabelas e infográficos temáticos. Entre os resultados esperados, incluem-se: A sistematização de evidências sobre a prevalência de doenças metabólicas na Amazônia; A caracterização dos principais fatores socioambientais associados aos agravos; A análise interpretativa de variantes genéticas em populações miscigenadas; A produção de relatório técnico-científico com recomendações para a APS; A submissão de artigo científico a periódico da área de saúde coletiva; A elaboração de infográfico técnico para gestores municipais e profissionais da APS. O projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, destacando-se os seguintes: ODS 3 Saúde e Bem-Estar, ao contribuir com evidências que subsidiam ações de prevenção e cuidado; ODS 10 Redução das Desigualdades, ao focar em populações historicamente negligenciadas da Amazônia; ODS 17 Parcerias e Meios de Implementação, ao articular dados públicos, instituições acadêmicas e políticas do SUS. Além da contribuição científica, espera-se promover formação qualificada do bolsista, com desenvolvimento de competências em análise de dados, bioinformática básica, leitura crítica da literatura científica, escrita acadêmica, uso de softwares de análise estatística e construção de produtos de divulgação técnica e científica. A experiência proporcionará ao discente uma vivência formativa completa, preparando-o para atuar em pesquisas futuras com maior complexidade. Dessa forma, a proposta atende aos objetivos institucionais do PIBIC/UFPA, reforçando a tríade formação pesquisa impacto social, e busca contribuir, de forma concreta, para o fortalecimento da produção científica sobre agravos metabólicos no contexto amazônico, com base em evidências robustas e aplicabilidade em saúde pública.