← Voltar

SAÚDE MENTAL NO ARQUIPÉLAGO DO MARAJÓ: ATORES, PRÁTICAS E CONFIGURAÇÕES ATUAIS.

Unidade
HOSPITAL UNIVERSITARIO JOAO DE BARROS BARRETO
Subunidade
COORDENADORIA ACADEMICA
Coordenador
PEDRO PAULO FREIRE PIANI
Período
2024-09-02 a 2025-08-29
Grupo
Pesquisa

ODS vinculados

  • 3 - Saúde e Bem-Estar
  • 5 - Igualdade de Gênero
  • 9 - Indústria, Inovação e Infraestrutura
  • 10 - Redução das Desigualdades
  • 11 - Cidades e Comunidades Sustentáveis

Resumo

O tema da saúde mental voltou com força na grande mídia, nas agendas institucionais, nas corporações profissionais que tratam mais diretamente com o tema, a ponto de nos perguntarmos: a saúde mental hoje sofre determinações mais intensas do que em períodos anteriores? As redes que atuam para tratar da saúde mental tornaram-se mais colaborativas ou mais conflitantes nessas novas configurações? O que se concebe hoje como saúde mental foi alterado diante das novas dinâmicas sociais? Quem determina e como o que é saúde mental hoje? Estas questões, aparentemente amplas, podem ganhar sentido quando pensadas nas relações que vivemos no cotidiano do trabalho, das instituições e dos grupos. Então, a que se refere saúde mental quando nos referimos às práticas? Práticas que expressam sofrimento psíquico, emoções, sentimentos, que interferem de forma benéfica ou prejudicial na vida das pessoas? O que se entende por saúde mental como repertório circulante entre as pessoas, grupos, uma população de uma cidade, corporações profissionais ou sistemas e instituições de saúde é uma primeira questão que se coloca em um desenho de pesquisa dessa natureza onde se pretende investigar essas configurações a partir de um território dinâmico, que passa por intensas transformações econômicas e culturais. Acrescento à esta primeira grande questão, uma segunda para compor mais a frente, o objetivo desta pesquisa: é possível investigar em um território com poucos serviços públicos, principalmente na área de saúde mental, e pequeno desenvolvimento tecnológico estruturante, restrito ainda à tecnologia como celulares e computadores, mas que não é ainda um grande polo industrial, os aspectos característicos de suas práticas que predominam quando a demanda é por saúde mental? Recentemente, o tema da saúde mental ganhou visibilidade mundial com a situação sanitária declarada como de pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 11 de março de 2020. Decisões de governos nacionais foram tomadas dentre elas, restrições sanitárias, isolamento social, e consequências imediatas foram notadas como paralização parcial de setores econômicos e a visível saturação de todos os sistemas de saúde público e privado. Todos esses efeitos foram compreendidos como determinantes para uma situação de vulnerabilidade na saúde mental das pessoas e da população. Este cenário que teve como um dos seus efeitos chamar a atenção para a saúde mental, não deve se sobrepor à um cenário anterior de transformações aceleradas pelas quais já passava o mundo contemporâneo com grande disseminação de tecnologias, recessões econômicas e ascensão de governos autoritários no mundo ocidental. Falar em soma de cenários também pode dizer muito pouco para quem deseja empreender investigações acadêmicas. Apontar para uma complexidade maior com muitas relações e acontecimentos pode ser o ponto de partida. Nesse cenário, o grande arquipélago do Marajó, não está imune a estas transformações, mesmo persistindo características da vida rural, não urbana, sem fortalecer aqui uma noção de separação que não permite analisar as cidades pequenas ou grandes e suas transformações. Alguns trabalhos acadêmicos e registros municipais já indicavam um crescimento da demanda em saúde mental nas cidades marajoaras: a situação do uso abusivo de drogas, a violência, o crescimento da população desempregada, a expansão de atividades econômicas sem fiscalização, a expulsão de famílias ou grupos dos seus territórios e a tristeza relatada por seus moradores são alguns desses problemas. Como é construída a demanda por saúde mental num território com essas características? Como uma cidade organiza seus serviços de saúde mental diante de novas demandas de seus cidadãos e da população? Há estruturas e práticas que expressam a atenção para os problemas que aparecem ou que persistem entre a população? Há uma relação de natureza macrossocial que impacta a vida dos moradores deste imenso território? Essas indagações compõem a segunda grande questão, mas localizada em um território adscrito em que lançaremos um olhar investigativo. O conhecido estudo de Boltansky (2004), realizado entre 1967 e 1968, com grupos e comunidades na periferia de Paris, na cidade industrial de Vervins e em uma comunidade rural de Fontaine-les-Vervins, relatou sistemas simbólicos de saúde atravessados por uma organização social estratificada em classes sociais, com semelhanças e distinções quanto a forma de ver medicina popular e a medicina científica, a relação médico-paciente, os discursos sobre as doenças e sobre o corpo. Estas categorias utilizadas por Bolstansky foram confrontadas a partir dos discursos da população, categorias já reconhecidas em termo de uso em vários campos de saber e que circulavam em maior ou menor força nas comunidades. Territórios com características econômicas diferentes foram utilizados como referência para análise de Boltansky. Pessoas, grupos, populações vivem em territórios dinâmicos, cidades mais ou menos complexas. Pessoas diversas podem receber rótulos diversos. Becker afirma em sua obra Outsiders, estudos de sociologia do desvio que: “...ser apanhado e marcado como desviante tem importantes consequências para a participação social mais ampla e a autoimagem do indivíduo. A mais importante é a mudança drástica em sua identidade pública. Cometer o ato impróprio e ser apanhado lhe confere um novo status. Ele revelou-se um tipo de pessoa diferente do que supostamente era. É rotulado de ‘bicha”, ‘viciado’, ‘maluco’ ou ‘doido’. E supostamente tratado como tal.” (2008, p. 42) Esta rotulação (Becker), estigma (Goffman) ou categorização (Foucault) é que constrói um arcabouço matricial que consolidar ou cristalizar uma visão sobre o outro com abordagens científicas também diversas. Podem argumentar que essas visões geram formas de atendimento, tratamento ou cuidado necessárias. Isso faz parte da análise e não pode ser excluído, pois a análise também deve ser ética na sua condução, no seu exame. Pode parecer prescritivo e o é no aspecto ético sob pena de se perder ou direcionar análises, fechando-se os olhos para as relações que vão surgindo na pesquisa a partir dos cenários investigados. Há de se chamar a atenção para novas configurações de cidades tanto urbanas como rurais em que esta distinção não parece ser tão evidente se forem consideradas determinadas tecnologias como computadores e celulares, hoje mais acessíveis às classes populares. Se temos atualmente territórios restritos como grandes condomínios para pessoas com alto poder aquisitivo, temos cidades em que a presença de segmentos sociais distintos economicamente é mais próxima e circula por toda a cidade, apresentando vários tipos de relação sem eliminar as divisões de natureza econômica e hierárquica que estão estabelecidas pelos regimes locais. Caponi (2012), aponta para uma biopolítica das populações para explicar como ocorreu uma encampação do sofrimento psíquico no rol das anomalias que necessitavam ser medicalizadas. Como compreender uma sociedade e suas demandas de saúde mental por meio de uma matriz mais aberta e não restrita à alguma explicação? Nas palavras de Latour (2019), perde-se em riqueza das contribuições quando descarta-se a análise de outros sistemas de compreensão para além do “mental”, característico da psiquiatria. Annemarie Mol, em seu livro The logic of the care: health and the problem of patient choice (2008), trazendo os termos cuidado, cura, escolha do paciente e bom atendimento, problematiza algo que é muito caro hoje como conquista dos pacientes, de setores acadêmicos, de movimentos da saúde que é a escolha do paciente. Sem deixar de reconhecer essa conquista, Mol afirma a importância de se investigar o bom atendimento nas práticas em uso, em qualquer regime médico ou de saúde que os pacientes transitem. Confrontando os termos cuidado e cura, mas adotando o primeiro, sua pesquisa ocorreu com pacientes de uma doença crônica, o diabetes, na Holanda. Mol aponta a necessidade desse olhar local, sabendo que o local não deve ser generalizado, mas pode ter sentido para outras situações e acontecimentos. Latour e Mol não estão dissonantes quanto ao aspecto de olhar para sistemas ou regimes diferentes. Latour ressalta a riqueza do olhar para os vários sistemas em uso em uma sociedade, enquanto Mol destaca a importância de não se descartar aquilo que chamam de tradicional em razão de escolhas, pois o critério do bom atendimento deve predominar, ou seja, a lógica do cuidado tem critérios testados na prática, no cotidiano. Não é possível imaginar algo cristalizado, de uma totalidade impermeável nas sociedades atuais. Bauman (2003; 2021) faz uma análise nesse sentido acerca das sociedades, comunidades, lugares e territórios na contemporaneidade. Aquilo que se representa ou que se entende como código cultural coletivo tem suas rupturas, vetos e interdições de grupos ou indivíduos. Então, como a loucura é imaginada e planejada enquanto política para uma cidade com matizes variadas, se forma uma matriz de ações e programas, sendo assim, o estudo de campo pode auxiliar nessa tarefa interpretativa. A outra possibilidade é a não política oficial deliberada, que não seria uma ausência de política, mas uma ação intencional de não dispender esforços, tempo, recursos para tal empreitada do estado na polis. Outra aproximação que faremos conceitualmente sobre saúde mental está baseada na ideia de híbridos e paradoxais trazida por Shroeder (2010). Os conceitos que expressam binarismos com outros conceitos constituem-se um problema para a compreensão de situações de saúde mental que parece ser um campo paradoxal, utilizando, aqui o termo do texto de Shroeder e, sendo difícil compreender, também é difícil cuidar de pessoas ou grupos que manifestam suas demandas. Aspectos históricos da saúde mental no Marajó compõem o panorama desta pesquisa em seu aspecto matricial, de tempo longo (Spink, 2010, p. 26). A literatura, a partir de gêneros variados, escreveu sobre o Marajó há séculos. Notas históricas, ensaios, romances e mais recentemente dissertações e teses Estes gêneros trataram pontualmente relatos, casos e outros coisas mais acerca da loucura. Este trabalho não concentrará atenção nesses aspectos da história, contudo, considerará como elementos do tempo longo que continuam a matriciar crenças, histórias e todos os repertórios circulantes que perpassam as narrativas, inclusive aquilo que se classifica como oficial, como ciência, enfim, como prática discursiva acerca da saúde mental.