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Práticas de saúde e doenças na Amazônia: as ações do Brasil e Estados Unidos no Pará na década de 1940

Unidade
ESCOLA DE APLICACAO
Subunidade
COORDENACAO DE PESQUISA E EXTENSAO
Coordenador
EDIVANDO DA SILVA COSTA
Período
2024-09-01 a 2026-09-01
Grupo
Pesquisa

ODS vinculados

  • 3 - Saúde e Bem-Estar
  • 4 - Educação de Qualidade
  • 9 - Indústria, Inovação e Infraestrutura
  • 13 - Ação Contra a Mudança Global do Clima
  • 14 - Vida na Água
  • 15 - Vida Terrestre

Impacto na Amazônia

  • Políticas Públicas – Apoio à Formulação

Resumo

Em 1944, o periódico carioca Correio da Manhã divulgou um artigo sobre a situação do Pará e uma análise do governo do Coronel Magalhães Barata, ao qual o editorial o menciona como um “governo essencialmente devotado aos problemas do povo e à democracia” Em se tratando da área da saúde o jornal, após diversos elogios ao governador, destacava que “o Pará dispensava 16,40% de sua renda com o seu departamento de saúde, colocando-se em primeiro plano, entre os estados da federação, na solução dos problemas de saúde pública” (Correio da Manhã, 15 de junho1944: 5). Mostrar os feitos do então interventor estadual seria uma forma de o jornal apresentar para o país as “benfeitorias” que o Estado Novo e o governo Vargas traziam para as diferentes regiões do país. Segundo Adriano Codato (2013: 193), “as interventorias nos estados foram a forma de promover a ascensão das novas lideranças regionais e de conter o poder das velhas lideranças e a maneira de integrar os subsistemas regionais ao Estado Nacional”. Afinados com esses ditames, os jornais se colocavam como porta-vozes da época e buscavam reproduzir um contexto social e político favorável. Não à toa, “a imprensa periódica seleciona, ordena, estrutura e narra de uma determinada forma, aquilo que se elegeu como digno de chegar até o público” (Luca 2011: 139). O contexto vivenciado era a Segunda Guerra Mundial e desde o ano de 1942 Brasil e Estados Unidos firmaram vários acordos diplomáticos. Como resultado da Política de Boa Vizinhança e da “cooperação interamericana”, foi criado, em março de 1942, o IAIA (Instituto de Assuntos Interamericanos), que teve como presidente, o norte-americano, General Dunham e, como vice-presidente, o Coronel Harold B. Gotass” (Bastos, 1996: 29). O Instituto tinha como finalidade, além de atender as necessidades espontâneas da guerra, também lançar as bases permanentes de uma vida mais feliz e saudável para as populações do continente Americano” (Boletim do SESP nº 9, 1944: 1). Para os representantes norte-americanos, o Instituto tinha o objetivo “concretizar a política de boa vizinhança”. Os discursos apontavam que “os povos americanos encontrariam motivos para gratidão imorredoura aos estadistas que planejaram tais programas de cooperação e aos técnicos que, anonimamente, realizaram a luta contra a doença nas Américas” (Boletim do SESP nº 49, 1947: 7). Em se tratando de sua finalidade, o Instituto teria sido organizado para executar as recomendações da III Reunião dos Ministros das Relações Exteriores das Repúblicas Americanas, realizada no Brasil, em 1942. Uma das frentes de batalha que se iniciaria a partir das relações bilaterais era o cuidado com a saúde dos trabalhadores envolvidos na extração da borracha e dos soldados estadunidenses estacionados em solo amazônico. Para Campos (2005: 9) “a importância militar do programa sanitário para os norte-americanos fica evidenciada pelo número de oficiais do exército neles envolvidos, incluindo-se o diretor da divisão de saúde e saneamento do IAIA”. É nesse cenário bélico que foi criado o SESP (Serviço Especial de Saúde Pública), responsável por organizar e desenvolver políticas públicas de saúde para o Brasil, em especial em regiões produtoras de matérias primas. Entre as atribuições dessa agência bilateral estava a realização de serviços sanitários na Amazônia, implantação de estruturas médicas, o preparo de profissionais para trabalhos de saúde pública e o combate às doenças na região. Este projeto de pesquisa tem como proposta analisar as práticas de saúde e as doenças presentes na Amazônia, ao longo dos anos de 1940, a partir das relações estabelecidas entre o Brasil e os Estados Unidos. Ao considerar o contexto vivenciado, podemos problematizar as intencionalidades dos países na região através de serviços de saúde, em plena guerra mundial. Além da montagem de toda uma estrutura médica e sanitária, a agência buscou interagir com a população local, formando uma extensa rede social (familiar, religiosa, educacional), para alcançar os seus objetivos. Portanto, a atuação dos países e a criação do SESP possibilita refletir enquanto agência especializada, dotada de regras e discursos, práticas de intervenções na saúde/doença , bem como a mobilização de diversos sujeitos envolvidos no processo. Nesse sentido, tornou-se o SESP, por ter sido uma experiência vivenciada na Amazônia, e em especial no Pará, instituição possível a ser analisada pela história, pois como bem nos alerta Marc Bloch (2001: 79), “tudo o que o homem diz ou escreve, tudo o que fabrica, tudo o que toca pode e deve informar sobre ele”. A pesquisa se propõe a investigar: o que era o Pará na década de 1940, principalmente durante o curso da Segunda Guerra Mundial? Que motivações levaram Brasil e Estados Unidos a investirem em políticas públicas de saúde para região? A relação entre os países era simétrica ou havia um projeto hegemônico em curso? O que se pensava sobre as práticas de saúde e as doenças no estado paraense, em sua área urbana e rural, no contexto histórico abordado? Como a escola, a igreja e a família foram envolvidas no processo de educação sanitária proposto pelo SESP? Tais questões nos possibilitam entender as políticas públicas de saúde voltadas para a região amazônica e em especial no estado do Pará. Tal proposta de pesquisa justifica-se na medida em que, por meio das práticas e das relações estabelecidas pelo SESP, pode-se entender muito das populações assistidas por este serviço de saúde pública e muito do que era o Pará do contexto aqui proposto.