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Cidadania Digital e Resistência Amazônida: Computação aplicada ao Multiletramento e Protagonismo das Comunidades Tradicionais

Unidade
CAMPUS UNIVERSITARIO DE TUCURUI
Subunidade
FACULDADE DE ENGENHARIA DA COMPUTACAO - TUCURUI
Coordenador
VIVIANE ALMEIDA DOS SANTOS
Período
2025-08-01 a 2026-07-31
Grupo
Pesquisa

ODS vinculados

  • 4 - Educação de Qualidade
  • 5 - Igualdade de Gênero
  • 10 - Redução das Desigualdades
  • 16 - Paz, Justiça e Instituições Eficazes

Impacto na Amazônia

  • Comunidades Tradicionais – Ações com Povos Indígenas ou Originários
  • Comunidades Tradicionais – Ações com Quilombolas
  • Comunidades Tradicionais – Ações com Ribeirinhos
  • Políticas Públicas – Apoio à Formulação
  • Mudanças Climáticas – Sustentabilidade

Resumo

O projeto “Cidadania Digital e Resistência Amazônida: Computação aplicada ao Multiletramento e Protagonismo das Comunidades Tradicionais” nasce do nosso compromisso coletivo com a superação dos desafios históricos de invisibilidade, desinformação e exclusão midiática enfrentados pelas comunidades tradicionais, ribeirinhas, quilombolas e indígenas da região do Lago de Tucuruí, no estado do Pará. Reconhecemos que essas comunidades, embora submetidas a intensas desigualdades sociais, territoriais e comunicacionais, são também portadoras de uma rica diversidade de saberes, modos de vida e resistências cotidianas que há séculos enfrentam as engrenagens do capitalismo periférico e das estruturas coloniais que marcam a relação entre Estado, mercado e os territórios amazônicos. Diante desse cenário, consideramos urgente fortalecer formas alternativas de circulação da informação, capazes de potencializar o protagonismo dessas comunidades e promover uma cidadania digital enraizada em valores de justiça social, diversidade, ancestralidade e autonomia. Propomos, assim, este projeto como uma resposta insurgente à exclusão histórica que recai sobre os ombros de mulheres, juventudes, quilombolas, ribeirinhos e indígenas. Partimos da compreensão de que a tecnologia, tal como tem sido produzida e distribuída sob a lógica do capitalismo contemporâneo, opera como instrumento de controle e dominação. A Inteligência Artificial, as redes algorítmicas e a plataformização da vida não representam “avanços naturais”, mas são expressões materiais de um modelo que converte dados em mercadoria, subjetividades em capital simbólico, afetos em engajamento e territórios em recursos exploráveis. Nesse contexto, compreendemos que as comunidades tradicionais não são apenas invisibilizadas, mas sistematicamente silenciadas, deslocadas e exploradas. É nesse ponto de tensão que nos inserimos. Alinhamos nossa proposta ao reconhecimento das contradições estruturais de nosso tempo, no qual a digitalização da vida se aprofunda ao mesmo tempo em que crescem as desigualdades sociais, raciais, de gênero e territoriais. Não buscamos adaptar os povos amazônidas ao mercado digital, mas subverter a lógica da técnica, transformando-a em ferramenta de emancipação, a serviço da luta popular por soberania informacional, autodeterminação dos povos e reconstrução das identidades coletivas. Inspiramo-nos nas leituras críticas de Marx (1977), Leontiev (1978), Castells (2003), Rojo (2017), bem como nas contribuições de pensadoras contemporâneas como Angela Davis (2016) e Grada Kilomba (2019), para afirmar que a linguagem, a comunicação e a tecnologia são campos de disputa. Entendemos a linguagem como força produtiva, a comunicação como práxis e a tecnologia, quando arrancada das mãos do capital, como aliada na construção de alternativas à barbárie informacional. Nosso ponto de partida é o território do Lago de Tucuruí, onde comunidades inteiras vivem sob a herança violenta de megaprojetos de desenvolvimento, como a construção da hidrelétrica, que trouxeram promessas de progresso, mas entregaram deslocamento, desestruturação e apagamento cultural. Nesses locais, a internet chega de forma precária; o Estado, por meio da repressão ou da omissão; a escola é fragilizada, e a mídia, quando chega, contribui para estigmatizar. Diante disso, propomos um movimento de reapropriação crítica da comunicação e das tecnologias digitais. Buscamos construir, em diálogo com 100 mulheres, jovens e lideranças comunitárias, processos formativos baseados nos saberes locais, na escuta ativa, na valorização da ancestralidade e no uso ético e estratégico das tecnologias. Não pretendemos ofertar cursos no modelo tradicional de transmissão de conteúdo, mas cocriar processos formativos horizontais e emancipatórios. Por meio de oficinas de multiletramentos, inteligência artificial, storytelling, leitura crítica da mídia e produção de conteúdos audiovisuais, pretendemos formar comunicadoras e comunicadores populares, agentes de transformação e intelectuais orgânicos/as de seus próprios territórios. Propomos ressignificar os processos comunicacionais a partir de uma perspectiva educomunicativa, fundamentada na educação popular freiriana, pautada na escuta, no diálogo horizontal e na ação transformadora. Para isso, organizamos nossas atividades em três fases: diagnóstico e escuta comunitária; formação e produção de conteúdo; e sistematização e difusão das experiências. Em cada etapa, realizaremos rodas de conversa, produção colaborativa, registros em diários de campo e avaliação participativa. Os produtos gerados — como vídeos, podcasts, postagens, intervenções visuais e narrativas digitais — serão criados com ferramentas acessíveis, garantindo a apropriação autônoma dos meios de produção simbólica. Além das oficinas, desenvolveremos soluções tecnológicas específicas, incluindo o protótipo de um agente inteligente voltado à identificação de desinformação regional e uma plataforma digital de código aberto que funcionará como acervo coletivo das narrativas insurgentes amazônidas. Nossas soluções computacionais seguirão os princípios da acessibilidade, transparência, licenciamento livre e usabilidade adaptada às realidades locais. Atuaremos também na formação de redes, promovendo articulações entre lideranças comunitárias, coletivos juvenis, grupos de mulheres e instituições acadêmicas, com o objetivo de fortalecer práticas de solidariedade, afirmação da identidade étnico-racial, consciência de classe e intercâmbio de saberes. Estimamos como resultados concretos a seleção de 100 participantes (80 de territórios periféricos e 20 do Coletivo Quilombola do CAMTUC/UFPA), a realização de ao menos 10 oficinas, a criação de uma tecnologia social voltada à comunicação cidadã, o desenvolvimento de soluções computacionais para o combate à desinformação, a produção de 20 conteúdos digitais originais, a formação de pelo menos 20 lideranças comunitárias femininas e juventude como multiplicadoras(es), a criação de uma plataforma colaborativa com os conteúdos produzidos, a organização de um repositório digital de memória e resistência, e a submissão de dois artigos científicos (um para evento e outro para periódico da área de Computação ou áreas afins). Contudo, compreendemos que os impactos do projeto vão muito além dos números. Nossa proposta busca disputar a hegemonia também nos campos da técnica, da ciência e da epistemologia. Reivindicamos o direito de as comunidades amazônicas produzirem conhecimento, desenvolverem suas próprias tecnologias, nomearem o mundo com suas palavras e resistirem com seus próprios códigos. Criticamos abertamente o papel da tecnologia como reprodutora de desigualdades sob o neoliberalismo tardio, mas reafirmamos que, quando enraizada no território e subvertida em sua lógica, ela pode transformar-se em trincheira de luta e libertação. Buscamos, portanto, forjar trincheiras digitais, antenas de resistência, redes de solidariedade e práticas de emancipação. Para além dos produtos científicos e tecnológicos, pretendemos gerar impactos sociais estruturantes. Ao promover o letramento digital e midiático e a apropriação crítica das tecnologias por populações tradicionalmente excluídas, buscamos reduzir assimetrias informacionais e fortalecer a cidadania digital como direito humano. Alinhamos nosso projeto a marcos legais e educacionais como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018), o Plano Estadual de Educação do Pará e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030, especialmente os ODS 4 (Educação de Qualidade), ODS 5 (Igualdade de Gênero), ODS 10 (Redução das Desigualdades), ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes) e o ODS 18 (Igualdade Étnico-Racial, no âmbito nacional). Contudo, nossa motivação ultrapassa os protocolos institucionais: trata-se de uma escolha ética, política e epistemológica. Acreditamos que a universidade pública, especialmente na Amazônia, não pode permanecer alheia às lutas concretas dos povos que a sustentam. Defendemos que seu lugar é no território, ao lado das comunidades, como parceira na construção de futuros possíveis. Queremos contribuir para que a computação seja não apenas uma linguagem de lucro e vigilância, mas de autonomia, diálogo e construção coletiva. Ao final deste processo, esperamos ter plantado sementes de pensamento crítico, soberania digital e protagonismo comunitário, que possam germinar em novos projetos, redes e articulações. Como nos ensinou Paulo Freire (1967), não há saber mais legítimo do que aquele construído com o povo, e não há transformação sem escuta, partilha e sonho coletivo. Este projeto é, portanto, nossa declaração política: de que resistir é comunicar, comunicar é lutar, e lutar é, sempre, reinventar o mundo. Também reconhecemos o valor acadêmico desta proposta. Ao adotar uma metodologia participativa, crítica e interseccional, contribuímos para a ampliação dos marcos teóricos e metodológicos da computação aplicada a contextos socioterritoriais vulnerabilizados. A atuação conjunta entre universidade e território, entre pesquisadoras e comunidades, entre ciência e ancestralidade, entre tecnologia e humanização expressa nosso compromisso com uma produção de conhecimento socialmente referenciada, antirracista, feminista, decolonial e transformadora da realidade amazônica. Estruturamos nossa abordagem metodológica com base nos princípios da pesquisa-ação (Thiollent, 2011), em que pesquisadoras e participantes atuam conjuntamente na produção de dados, no planejamento das ações e na avaliação dos resultados. Registraremos todas as atividades em diários de campo, formulários avaliativos e sistematizações coletivas. Realizaremos uma avaliação contínua e participativa, ajustando os rumos do projeto de acordo com as demandas e contribuições das comunidades envolvidas. Ao integrar práticas educomunicativas, tecnologias computacionais e saberes tradicionais, reafirmamos a Amazônia como território de produção de ciência, cultura, resistência e futuro. Os dados e experiências gerados serão sistematizados em relatórios, artigos científicos e materiais digitais de acesso aberto, com o objetivo de subsidiar políticas públicas e inspirar outras iniciativas em contextos semelhantes. Reafirmamos, assim, o papel da universidade pública como agente de transformação social, comprometida com a justiça, a equidade e a valorização das vozes historicamente silenciadas — vozes que, com apoio da ciência e da tecnologia, hoje podem se erguer em potência.