A produção de conhecimentos no campo dos Estudos do Lazer no Brasil: um estudo sobre o lazer das mulheres
ODS vinculados
- 5 - Igualdade de Gênero
Impacto na Amazônia
- Comunidades Tradicionais – Ações com Povos Indígenas ou Originários
Resumo
O campo de Estudos do Lazer no Brasil se caracteriza como uma área investigativa interdisciplinar, na qual diversas disciplinas acadêmicas têm colocado sua contribuição para melhor análise e entendimento deste objeto. Assim, áreas como Educação Física, Turismo, Sociologia, Terapia Ocupacional tem envidados esforços no sentido de ampliar e difundir temas e reflexões sobre o lazer. No contexto do brasileiro, vale ressaltar que o campo de Estudos do Lazer tem consolidado diversos espaços de formação, tais como o Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer (PPGIEL/UFMG - Mestrado e Doutorado), vinculado a Universidade Federal de Minas Gerais; dois periódicos acadêmicos, sendo a Revista Licere e a Revista Brasileira de Estudos do Lazer RBEL; a criação da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Estudos do Lazer (ANPEL), entidade científica, que entre outras ações, realiza o Congresso Nacional de Estudos do Lazer. (CBEL) Como diversas outras áreas, o lazer também foi compreendido e conceituado sobre olhares hegemônicos coloniais, com marcas de leituras enviesadas de outras realidades, que por vezes, não representam a realidade sociocultural latino-americana, e tão pouco, a brasileira. O campo de Estudos do Lazer tem suas construções a partir de raízes europeias, da mesma forma como tantos outros conhecimentos. Hegemonicamente, o lazer é conceituado como um fenômeno moderno, típico das realidades urbano industrias ocasionadas pela Revolução Industrial europeia. Mesmo que este marco teórico seja importante para compreender as transformações socioculturais pelo qual o lazer passou dentro desta sociedade, como diz Elizalde e Gomes (2014, p 126), é necessário construir concepções próprias, contextualizadas, problematizadoras, críticas, criativas e alternativas sobre o tema, as quais tragam para o cerne da questão, as realidades dos povos latino americanos e sua articulação com o lazer. Neste contexto, entendo o lazer como um fragmento da vida social, uma necessidade humana e dimensão da cultura, a qual abarca uma multiplicidade de vivências culturais, como brincadeiras, esportes, passeios, virtualidade, artes, turismo (Gomes, 2014). Além disso, parto da compreensão de que o lazer não é um tempo isolado, ou mesmo ausente de tensões e contradições, mas que se relaciona com outras dimensões da vida social, como educação, trabalho, política. Portanto, as práticas de lazer nos ensinam algo, seja no âmbito da crítica ou da conformação, atuando, assim, na educação e na formação de sujeitos (Paraíso, 2010). Encontramos amparo no trabalho de Maurício et al., (2021, p. 697) quando intencionam a construção de um pensar outro que aproxime o campo do lazer à perspectiva decolonial, visando trazer para a cena formas de estar e compreender o mundo que foram (são) historicamente negadas e/ou descredibilizadas. Desta maneira, as identidades que foram invisibilizadas pela lógica moderno/colonial, tais como os povos originários, as mulheres, os negros, as pessoas com deficiências, produzem modos outros de viver, de trabalhar e de existência. É necessário ampliar esse olhar sobre o lazer desses grupos e comunidades, para assim, construir novos entendimentos que contemplem a vida e os processos sociais. Maurício et al., (2021) defendem uma concepção de práticas de lazer em contextos de resistência, que significa compreender que o lazer pode ser um espaço de protesto, demarcação das diferenças, e assim, combater opressões e desigualdades. Desta forma, evidenciar a produção de conhecimentos sobre o lazer de grupos historicamente excluídos, se constitui em uma prática de resistência, contra hegemônica e que traz novos olhares para o lazer. Nas palavras das autoras, o lazer, como prática de resistência e contra hegemonia, pode gerar promoção do bem-estar, fazer e sentir-se bem ou promover um quadro biopsicossocial saudável (Maurício et al., 2021). Como forma de recorte do alcance da pesquisa, esta investigação focará a produção de conhecimento no campo de Estudos do Lazer relacionado ao lazer das mulheres. hoocks (2017) ensina que o capitalismo se pauta a partir de sistemas de dominação que reforçam as parcialidades de exclusão social, como o racismo, o sexismo e o classismo. Assim, ela advoga em favor de uma pedagogia engajada que seja um instrumento de questionamento e enfrentamento destes sistemas de dominação; que valorize as vozes dos alunos, suas culturas e modo de ser. Diante disso, é importante frisar que o lazer, como esfera social, enfrenta uma série de marcadores sociais que inibem/excluem as pessoas de praticá-lo. Portanto, questões como classe social, raça, deficiências e gênero, são aspectos que exercem interseccionalidade e obstruem as vivências do lazer. A intenção deste projeto de pesquisa é reconhecer a produção de conhecimentos no campo de Estudos do Lazer que se assentam-se em sujeitos, conhecimentos e práticas que foram invisibilizados, subalternizados e negados pela violência colonial (Quijano, 2005). Como esfera social, que sofre os efeitos da colonialidade, o acesso ao lazer revela desigualdades econômico-culturais, dada as condições de classe, de gênero e étnico-raciais que marcam a vida dos povos latino americanos. A colonialidade, que se fundamenta na naturalização de hierarquias territoriais, raciais, culturais e epistêmicas ((Restrepo; Rojas, 2010), impôs uma condição de inferioridade as pessoas negras, mulheres, pessoas com deficiência, comunidade LGBTQIA+, população em situação de rua, entre outros. Em relação as mulheres e seus enfretamentos na sociedade, Tiburi (2019) afirma que questões como as jornadas de trabalho impõe ainda mais obstáculos para que as mesmas possam se inserir e manter-se em diversas práticas sociais. Como ensina a autora, o trabalho é um problema de gênero. Mesmo tendo ou não um emprego fora de casa, a maior parte das mulheres trabalhará mais dos que os homens que, de um modo geral, não fazem o serviço da casa. Em outras palavras, as mulheres acumulam, muito mais do que os homens, o trabalho remunerado com o não remunerado, e sem dúvida, isso impacta negativamente nas condições das mulheres de se fazerem presentes nas práticas esportivas e do lazer. Sobre a relação das mulheres e o lazer, Bonalume (2022) realizou um estudo em que rastreou o lazer nas pautas dos seis movimentos sociais de defesa dos direitos das mulheres. A autora percebeu mais ausências que presenças, além de formas diferenciadas de pensá-lo e de utilizá-lo que permitem estabelecer conexões diversas. Com isso, destaca que as barreiras para o usufruto do lazer são agravadas para as mulheres negras, as mais empobrecidas e com menor escolaridade. A pesquisadora também ressalta que é comum que as escolhas do lazer, vivido por muitas mulheres, representem não o seu próprio lazer, mas que elas acabam por carregar consigo, o lazer da família e dos filhos. Desta maneira, percebemos que se de modo geral, as mulheres enfrentam mais dificuldades que os homens para a prática de lazeres, essas disparidades acentuam-se mais ainda em função dos estratos sociais com condições de vida mais precárias e excludentes, como é o caso das populações negras, periféricas e empobrecidas. Por fim, Bonalume (2022, p 57) defende a necessidade de se pensar em um lazer feminista que permita o desenvolvimento de novas potencialidades de vida, pelas quais cada mulher esteja empoderada sobre seu próprio tempo para criar seu desejo de lazer e fazer suas escolhas com liberdade. Assim, se o acesso ao lazer é um direito garantido pela Constituição Brasileira de 1988, entendo que as mulheres devem ter o seu direito a escolha e múltiplas opções de lazer, o qual possa trazer momento de bem viver, alegria e que realmente represente o seu próprio interesse nas escolhas destes momentos.