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Mulheres, educação e processos de independência: Angola e Guiné Bissau (1963-1976)

Unidade
CAMPUS UNIVERSITARIO DE BRAGANCA
Subunidade
FACULDADE DE HISTORIA - BRAGANCA
Coordenador
LUIZ AUGUSTO PINHEIRO LEAL
Período
2025-09-01 a 2026-08-31
Grupo
Pesquisa

ODS vinculados

  • 4 - Educação de Qualidade
  • 5 - Igualdade de Gênero

Impacto na Amazônia

  • Comunidades Tradicionais – Ações com Povos Indígenas ou Originários

Resumo

A ação de mulheres no contexto das lutas pela independência pode ser imaginada em diferentes situações. Uma das abordagens mais destacadas se volta para a condição de heroína, ou guerrilheira, disposta a pegar em armas contra o sistema colonial. Um estudo clássico nesse sentido é o de Paredes (2010), que participou das lutas pela libertação de Angola e produziu uma tese interessante sobre o tema. Contudo, nem sempre o lugar das mulheres, no processo revolucionário, foi exclusivamente na condição de combatente. Deolinda Rodrigues, em Angola, atuou longamente como articuladora política em sua militância junto ao MPLA. Em seu diário pessoal registrou a persistência dos privilégios do patriarcado dentro da organização do movimento (Leal; Pinheiro, 2023). Não conseguindo intervir com mais ênfase nas ações políticas pela libertação, passou a atuar na linha do combate armado, quando foi assassinada. Outras mulheres seguiram esse caminho e muitas, após a conquista da independência, reclamavam por não terem obtido nenhum reconhecimento por parte do governo revolucionário (Paredes, 2010). A luta armada, felizmente, não foi a única opção para a insurgência feminina. Além da participação em espaços voltados para a saúde, algumas mulheres tiveram a oportunidade de desenvolver ações no campo intelectual e da educação. Em Angola, Maria do Céu se destacou como militante que atuou na organização da resistência ao sistema colonial e que, posteriormente, assumiu o processo de organização do sistema educacional do país (Leal; Elias, 2023). Sua trajetória revela um engajamento parecido, inicialmente, com o de Deolinda, mas com articulações diferenciadas que garantiram sua continuidade de ação dentro do MPLA. De qualquer modo, Deolinda e Maria do Céu não foram as únicas mulheres militantes e intelectuais no processo de libertação de Angola. Maria Mambo Café e muitas outras tiveram participação significativa, mesmo ainda sem o devido reconhecimento. Visando compreender o lugar das mulheres em uma estrutura patriarcal herdada da lógica colonial, em que raça e gênero permaneciam em condições sociais subalternas, cabe estender a abordagem para outros lugares de lutas. Em particular, Guiné Bissau que, através do pensamento de Amílcar Cabral, refletia sobre a condição feminina e o seu potencial revolucionário. Sendo um dos principais mentores revolucionários africanos, Cabral defendia um lugar de protagonismo para as mulheres. Em Guiné Bissau, em um levantamento preliminar, as mulheres se destacaram bem mais do que em Angola em relação às lutas pela independência. A maior parte das produções, até o momento, ressaltam a figura da mulher combatente. Contudo, há indícios de certo protagonismo feminino na trajetória de algumas mulheres, a exemplo de Carmem Pereira, que teve uma importância significativa na organização política de Guiné Bissau. Segundo Mbundé, ela “Ajudou a população guineense no ensino nas zonas libertadas, trabalhou como técnica de enfermagem e hospedou os combatentes” (MBUNDÉ, 2013, p. 30). Além disso, cabe observar as denúncias de mulheres que, além de combater o processo colonial ainda combatiam uma segunda colonização praticada por seus pares masculinos. Em sua pesquisa sobre Representação Política das Mulheres na Guiné-Bissau, Márcia Assunção coletou um depoimento significativo em relação ao tema. Para a ex-combatente Teodora Gomes, as mulheres vivenciavam uma dupla colonização. Tanto pelos portugueses quanto pelos homens colonizados que não as respeitavam. Haveriam tradições em que “as mulheres não devem participar na política, que não têm direitos, que devem ocupar-se dos trabalhos mais desprezados das tarefas, como a cozinha e a limpeza” (ASSUNÇÃO, 2018, p.31). As funções atribuídas às mulheres, durante a guerra foram bastante variadas. Cozinheiras, agricultoras, mensageiras, gestoras de armazéns e até mobilizadoras políticas. Além disso, em Guiné-Bissau, a presença feminina também se estendeu a cargos de relativa importância, como membro de tribunais de aldeias e nas estruturas partidárias. Nomes como Carmen Pereira, Titina Sila, Teodora Gomes e Francisca Pereira são exemplos de mulheres que assumiram cargos mais elevados, segundo Assunção (2018). Nesse sentido, um recorte pautado na produção intelectual dessas mulheres, e sua possível atuação no campo da educação, poderá permitir o acesso à compreensão sobre a permanência dos limites e continuidade da herança colonial do patriarcado no processo revolucionário de Angola e Guiné Bissau.