Saúde bucal da mulher
ODS vinculados
- 3 - Saúde e Bem-Estar
- 5 - Igualdade de Gênero
- 10 - Redução das Desigualdades
Resumo
A construção histórica da saúde pública evidencia que as necessidades específicas das mulheres têm sido, com frequência, negligenciadas nos espaços onde o cuidado deveria se materializar de forma integral. No campo da saúde bucal, essa invisibilidade assume contornos ainda mais marcantes, sobretudo quando se considera que o ciclo vital feminino é atravessado por variações hormonais que influenciam diretamente a fisiologia oral. Alterações nos níveis de estrogênio e progesterona estão associadas ao aumento da suscetibilidade a condições como gengivite, periodontite e xerostomia, especialmente em períodos como menstruação, gestação e climatério, evidenciando a estreita relação entre sistema endócrino e saúde periodontal (ADHUPIA et al., 2024; KARA, 2019; FERRAZ et al., 2022). Apesar do reconhecimento desses mecanismos biológicos, a literatura contemporânea aponta que a compreensão da saúde bucal feminina não pode ser restrita a aspectos fisiológicos isolados. Fatores sociais, econômicos e culturais exercem papel determinante na produção das iniquidades em saúde. Nesse sentido, estudos recentes demonstram que condições bucais como cárie, doença periodontal e edentulismo estão associadas a variáveis como nível socioeconômico, escolaridade, raça/etnia e inserção no mercado de trabalho, evidenciando a influência do gradiente social na saúde bucal de mulheres (ALMARIO-BARRERA; CONCHA-SÁNCHEZ, 2024). Ainda que nem todas as associações apresentem significância estatística, observa-se uma tendência consistente de maior prevalência de agravos entre mulheres em contextos sociais mais vulneráveis. Essa discussão se amplia quando incorporadas as dimensões de gênero e suas intersecções com outros marcadores sociais. Conforme destaca Jessani (2025), sexo, gênero e sexualidade são fatores interrelacionados que influenciam tanto a suscetibilidade às doenças bucais quanto o acesso aos serviços de saúde, sendo frequentemente tratados de maneira simplificada ou negligenciados na pesquisa e na prática odontológica. A ausência dessa abordagem interseccional contribui para a reprodução de desigualdades e limita o desenvolvimento de estratégias de cuidado mais inclusivas e centradas nas necessidades reais das mulheres. No contexto dos serviços públicos de saúde, especialmente no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), essas lacunas se traduzem em práticas assistenciais que, muitas vezes, desconsideram as especificidades do corpo feminino e suas condições de vida. A mulher tende a ser abordada de forma generalizada, sem a devida integração entre saúde bucal e outras dimensões do cuidado, como a saúde ginecológica e reprodutiva. Tal fragmentação é agravada por barreiras de acesso, sobrecarga de responsabilidades sociais e limitações na formação interdisciplinar dos profissionais, o que compromete a efetivação da integralidade do cuidado (FAGUNDES et al., 2020; TONETTI et al., 2017). Diante desse cenário, torna-se fundamental desenvolver investigações que articulem dimensões biológicas e sociais da saúde bucal feminina. O presente estudo propõe uma abordagem quantiqualitativa que busca integrar a análise de condições clínicas com a compreensão das experiências e percepções das mulheres e dos profissionais de saúde. Mais do que identificar agravos bucais, pretende-se compreender como os ciclos hormonais, associados a determinantes sociais como gênero, raça/cor e condições socioeconômicas, influenciam o acesso, a utilização e a qualidade do cuidado odontológico. A pesquisa será desenvolvida em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e em serviços odontológicos públicos vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS), localizados nos municípios de Belém e Ananindeua, no estado do Pará.), cenário estratégico da atenção primária, e envolverá entrevistas semiestruturadas, análise de prontuários odontológicos e ginecológicos e realização de exames clínicos intraorais baseados em protocolos padronizados (OMS, 2013). Essa combinação metodológica permitirá não apenas mensurar a ocorrência de alterações bucais associadas às fases do ciclo vital feminino, mas também identificar barreiras, percepções e fragilidades na organização do cuidado. Ao propor uma leitura ampliada da saúde bucal da mulher, este estudo busca contribuir para a construção de práticas assistenciais mais equitativas e sensíveis às diferenças. Seus resultados poderão subsidiar a elaboração de recomendações voltadas à integração multiprofissional e ao fortalecimento da atenção à saúde da mulher no SUS, incorporando uma perspectiva interseccional que reconheça a complexidade dos fatores envolvidos no processo saúde-doença. Alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, especialmente aqueles relacionados à saúde, equidade e redução das desigualdades, o projeto reafirma a necessidade de reconhecer a saúde bucal como parte indissociável da saúde integral da mulher. Em um contexto marcado por profundas desigualdades sociais, produzir conhecimento nessa área representa não apenas um avanço científico, mas um compromisso ético com a promoção de um cuidado mais justo, inclusivo e humanizado.