Equidade em Saúde e Saúde Bucal da Mulher: Impactos dos Ciclos Biológicos e das Barreiras de Gênero no Acesso ao SUS
ODS vinculados
- 3 - Saúde e Bem-Estar
- 5 - Igualdade de Gênero
- 10 - Redução das Desigualdades
Resumo
A história da saúde pública tem mostrado que muitas necessidades femininas permanecem invisíveis onde o cuidado deveria ser integral. No campo da saúde bucal, essa invisibilidade é ainda mais evidente. Em cada fase da vida da mulher da puberdade à menopausa , seu corpo passa por mudanças hormonais que impactam diretamente a cavidade oral, aumentando o risco de gengivites, periodontites, xerostomia e outras alterações. Contudo, apesar de essas evidências já serem bem documentadas pela literatura científica (KARA, 2019; FERRAZ et al., 2022; GOMES-FILHO et al., 2023), a prática nos serviços públicos de saúde ainda trata a mulher como um corpo neutro, desconsiderando suas especificidades biológicas e sociais. Essa lacuna no cuidado tem consequências reais. Mulheres em situação de vulnerabilidade social e econômica, sobrecarregadas por jornadas múltiplas e com pouco acesso à informação, muitas vezes deixam de buscar o atendimento odontológico preventivo, só chegando aos consultórios em situações de emergência. Além disso, os próprios profissionais da saúde, por falta de formação interdisciplinar, nem sempre reconhecem a importância de integrar a saúde bucal aos cuidados ginecológicos, especialmente em fases críticas como a gestação e o climatério (FAGUNDES et al., 2020; TONETTI et al., 2017). É diante dessa realidade que este projeto propõe uma investigação quantiqualitativa pioneira, capaz de reunir o rigor dos dados clínicos com a escuta humanizada das mulheres e dos profissionais que atuam na linha de frente do Sistema Único de Saúde (SUS). Nosso olhar não se limita ao diagnóstico de doenças bucais: buscamos compreender como a trajetória biológica e social da mulher influencia sua saúde bucal e como as práticas assistenciais podem (ou não) responder a essas necessidades. A pesquisa será desenvolvida em Unidades Básicas de Saúde (UBS), onde o cuidado cotidiano acontece, e envolverá entrevistas semiestruturadas, análise de prontuários odontológicos e ginecológicos, além da realização de exames clínicos intraorais baseados em protocolos reconhecidos internacionalmente (OMS, 2013). Essa combinação permitirá identificar não apenas a prevalência das alterações bucais associadas aos ciclos hormonais, mas também as percepções, desafios e fragilidades no atendimento à saúde da mulher. O diferencial desta proposta reside em sua capacidade de gerar resultados aplicáveis: ao final do estudo, será possível propor recomendações práticas para a qualificação do cuidado odontológico à mulher no SUS, fortalecendo ações multiprofissionais e interdisciplinares que articulem odontologia, ginecologia e demais áreas da saúde da mulher. Além disso, o estudo poderá subsidiar a formulação de protocolos clínicos e estratégias educativas voltadas à promoção da equidade no cuidado bucal. Alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, especialmente o ODS 3 (vida saudável e bem-estar) e o ODS 5 (igualdade de gênero), o projeto reconhece a saúde bucal como parte essencial da saúde integral da mulher e defende que o desenvolvimento sustentável passa, necessariamente, pela promoção do cuidado equitativo e inclusivo. Ao abordar também aspectos relacionados à redução das desigualdades (ODS 10), à educação em saúde (ODS 4) e ao combate à pobreza (ODS 1), esta pesquisa se posiciona como uma ação transformadora, socialmente comprometida com o fortalecimento do SUS. O apoio financeiro a esta proposta permitirá não apenas a execução metodológica do projeto, mas a formação crítica da pesquisadora e de profissionais em formação, ampliando a capacidade local de pesquisa em saúde da mulher e odontologia coletiva. Em um país marcado por desigualdades estruturais, pesquisas como esta são essenciais para gerar conhecimento aplicado, que possa transformar políticas públicas e impactar positivamente a vida das mulheres que mais dependem do serviço público para exercer seu direito à saúde. Esta não é apenas uma investigação científica: é um convite para repensarmos o cuidado odontológico como parte do direito à saúde integral da mulher em todas as fases da vida. Um passo necessário para que o futuro da saúde pública brasileira seja mais inclusivo, mais equitativo e mais humano.