← Voltar

OCUPAÇÕES, PERDAS E ADOECIMENTO CRÔNICO

Unidade
INSTITUTO DE CIENCIAS DA SAUDE
Subunidade
FACULDADE DE FISIOTERAPIA E TERAPIA OCUPACIONAL
Coordenador
VICTOR AUGUSTO CAVALEIRO CORREA
Período
- a -
Grupo
Pesquisa

ODS vinculados

  • 3 - Saúde e Bem-Estar

Resumo

O objetivo desta pesquisa é compreender como se apresentam as ocupações de pessoas após o adoecimento crônico e suas perdas significativas. Os processos crônicos de adoecimento caracterizam-se por um início gradual, de prognóstico usualmente incerto, com longa ou indefinida duração, sendo necessário cuidados contínuos e longitudinalidade da atenção. Além disso, pessoas acometidas por doenças crônicas vivenciam diversas alterações em suas vidas, tal como desconfortos e incômodos que decorrem dos sintomas da doença propriamente, bem como o sofrimento psicoemocional ao vislumbrar aspectos incapacitantes ao longo do tempo por conta da doença que os acomete (MOREIRA et al 2017, p. 2, apud CAÇADOR; GOMES, 2020, p. 2). O adoecimento crônico não apenas compromete a saúde em aspectos orgânicos, como também pode levar a perda da autonomia e a danos à integridade psicoemocional e física da pessoa acometida, gerando assim reflexões sobre a própria finitude, acarretando em um processo de luto. Ademais, o adoecimento crônico causa perdas significativas na vida das pessoas, pois sua condição passa a fazer parte do seu dia a dia, fato que modifica toda a realidade e a relação que a pessoa tem consigo e com o mundo, repercutindo fortemente nas ocupações desempenhadas pela pessoa que possui uma doença crônica e em seus familiares (LINO; JACOB; GALHEIGO, 2021). O adoecimento crônico é marcado por um processo de inúmeras perdas, tais como a perda de ocupações que são significativas na vida das pessoas que apresentam tal condição, aflorando assim questões sobre a iminência de morte, do processo de morrer e a vivência do luto devido às perdas ocasionadas pelo estado dinâmico de adoecer, pela renúncia do “EU” na relação consigo mesmo e com mundo externo, com perdas identitárias, perda ou interrupção de projetos de vida para o futuro, perda de autonomia, perda de independência, entre outros, o que requer reestruturação e adaptações no fazer de suas ocupações. (CUNHA; CASTELLO, 2023). Segundo a American Occupational Therapy Association (2020), as ocupações são definidas como atividades significativas nas quais as pessoas se envolvem para ocupar e usufruir de seu tempo. Já a World Federation of Occupational Therapists - WFOT (2020) define o termo ocupação sendo às atividades cotidianas que as pessoas realizam como indivíduos, nas famílias e nas comunidades, para ocupar o tempo e trazer significado e propósito à vida. As ocupações incluem coisas que as pessoas precisam, querem e devem fazer. Sainburg et al., (2017), descrevem o termo ocupação como uma ampla gama de atividades que são executadas como parte natural da vida. Ocupações são todas as formas de fazer. Logo, essas ações são realizadas em um contexto característico situacional e particular, entendidas como determinantes, não apenas ações como resultado das condições em que ocorrem, mas também dos significados com os quais essas ações foram adotadas, pelo grupo social que produz e é produzido neste contexto. Em termos gerais, as ocupações podem favorecer os estados assistenciais e, portanto, à saúde (CERÓN, 2019). De acordo com Salles e Matsukura (2016), a Ciência Ocupacional, criada para fundamentar a prática da Terapia Ocupacional, muito tem contribuído para a compreensão da relação entre o engajamento ocupacional e a saúde, e o bem-estar e a participação social, na qual as ocupações estão simbolicamente constituídas na cultura e são interpretadas a partir do contexto da história de vida das pessoas. O ser humano, como um ser ocupacional, se envolve em ocupações que são necessárias para sua adaptação e sobrevivência e fornece mecanismos para a aprendizagem, automanutenção, entretenimento, satisfação e plenitude no cotidiano (MORRISON et al., 2017). A Ciência Ocupacional é um campo interdisciplinar focado na compreensão das bases da ocupação humana, definidas como as atividades que compõem a vida diária. O estudo da ciência ocupacional aumentou a compreensão da complexidade dos fatores que influenciam a ocupação e seu impacto na saúde e bem-estar e criou uma prova base para validar a prática terapêutica ocupacional (SAINBURG et al., 2017; CARDOSO, 2022). Segundo Davis et al., (2016) a Ciência da Ocupação possui vários aspectos com uma filosofia fundamentada em uma visão biopsicossocial do indivíduo. Estuda os elementos da função, assim como as ocupações, incluindo os elementos de cognição, habilidades psicomotoras, sociais e outros conhecimentos relacionados a uma diversidade de áreas sociais e disciplinas. Sendo assim, a ciência ocupacional está essencialmente preocupada em promover saúde, bem-estar e maior qualidade de vida por meio do equilíbrio ocupacional. Mesmo na diversidade de definições sobre ocupação, o foco da Ciência da Ocupação não se resume a atividade em si, mas também, os atores sociais que participam dessas ocupações em contextos sociais, culturais e históricos de seu mundo vivido, em como as pessoas vivem e aprendem na vida cotidiana; dando importância à relação entre atividade, participação e saúde; e destacando como a participação e estruturas sociais como saúde social, participação, qualidade de vida e experiência humana são permitidas e exigidas (ANDRADE, 2019). De acordo com Rudman (2018), o conhecimento promovido pela Ciência da Ocupação permite a capacidade e habilidade de adaptação, contribuindo para as oportunidades de vida para as pessoas com e sem deficiências, por meio do envolvimento em ocupações, que se caracteriza no envolvimento em atividades cotidianas com a participação ativa do ser humano em um contexto social. Além disso, o acometimento por uma doença crônica pode reverberar no indivíduo reflexões acerca do desenvolvimento da finitude. Este processo pode despertar inúmeras sensações e reações de acordo com o modo que a experiência é vivenciada, sendo capaz de suscitar questões culturais, éticas, morais e de valores. Quando a morte se apresenta como uma possibilidade, pode desencadear distintos sentimentos tais como medo, angústia, dor, desespero, surpresa, choque e sofrimento são comumente vivenciados perante a possibilidade iminente de morte. Portanto, pessoas com doenças crônicas vivenciam inúmeros processos de luto em decorrência de perdas contínuas (CHAGAS, 2021). O luto é um processo mental e/ou experiência vivida internamente, manifestada e compartilhada no meio externo e vivida em algum momento da vida. É uma reação de cada pessoa e pode ocorrer sentimentos de pesar, tristeza, angústia, raiva, saudade, medo, isolamento, ausência, entre outras, diante de situações de perdas e/ou separações, morte de entes queridos, que pode levar a mudanças na vida (PARKES, 1998; BROMBERG, 2009; PARKES, 2009; COSTA, 2017). Além disso, surge a necessidade do enlutado em adaptar-se ao luto e à nova realidade (SACILOTI; BOMBARDA, 2022). Destaca-se ainda que nas condições de luto, pode-se verificar mudanças nas ocupações que eram realizadas com o ente que faleceu, consequentemente, ocorre a diminuição do engajamento ocupacional (CORRÊA, 2010; SACILOTI, 2022). Desse modo, este projeto destaca-se por oferecer um espaço aos discentes e profissionais participantes um espaço de cuidados, ações, acolhimento e de debate em torno das perdas significativas, dos processos de luto e das ocupações. Um espaço para expressar como se apresentam as ocupações do dia-a-dia, bem como para expressar possíveis processos de luto e suas implicações. Dessa forma, a presente proposta tem como objetivo a oferta de encontros quanto a temática da ocupação, luto e sentido, buscando agregar ações de ensino-pesquisa-extensão, de acordo com o tripé universitário. Nesse sentido, esta pesquisa busca responder: Como se apresentam as ocupações de pessoas após o adoecimento crônico e as suas perdas significativas.