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CORPOS-VÍTIMAS DE OPRESSÃO E VIDA ACADÊMICA

Unidade
INSTITUTO DE CIENCIAS DA SAUDE
Subunidade
FACULDADE DE FISIOTERAPIA E TERAPIA OCUPACIONAL
Coordenador
ROSEANE DO SOCORRO DA SILVA MATOS FERNANDES
Período
- a -
Grupo
Pesquisa

ODS vinculados

  • 3 - Saúde e Bem-Estar
  • 4 - Educação de Qualidade
  • 10 - Redução das Desigualdades

Resumo

Aproximar-se do conceito de CORPOREIDADE é, em certo sentido, vivenciar possibilidades e conhecer-se como SER complexo e único no mundo. Quer dizer, um indivíduo é “o único capaz de testemunhar sua própria experiência, mergulhado na complexa rede de interrelações a partir da qual constrói sua vivência singular” (Freitas, 2004, p.51). Com relação à nossa unicidade, podemos nos remeter a esta complexidade, por ser ela que nos proporciona a experiência de, juntamente ao contexto em que estamos inseridos nos desenvolvemos enquanto homem, gerar nossa subjetividade, sermos únicos enquanto SER-NO-MUNDO. Toda essa teia existencial se dá pela presença do CORPO-NO-MUNDO, enquanto unidade participativa e significativa que, por sua vez, possui a propriedade de estabelecer relações que é a própria CORPOREIDADE. O corpo não existe sem a alma e vice-versa predominou por toda a filosofia medieval, sendo superada pelo dualismo cartesiano (Descartes) de que alma e corpo são duas substâncias diferentes; o corpo é, simplesmente, uma máquina, sendo essa concepção referência de vários estudos sobre os corpos vivos. “Para Descartes, o homem ao libertar-se do seu corpo, estenda-se aí aos seus sentidos, este alcançaria o saber racional, verdadeiro, daí o valor da razão no processo de conhecimento. O acesso à realidade e ao valor objetivo das ideias pelo sujeito cartesiano só ocorreria pelo aval divino, sendo que a fundamentação do conhecimento pela subjetividade pura é intenção que não acontece. Concebe ainda este filósofo o sujeito como um ente envolto pela realidade mundana, na defesa de que a consciência deve prevalecer sobre a sensibilidade, sendo que sua filosofia preconiza o dualismo corpo/mente. O homem tornando-se indiferente às manifestações do corpo pode possuí-lo em pensamento, pois quem percebia era a alma e não o corpo” (Fernandes, 2013, p.28). Essa tese prevalente, até então, é contestada pelo que Husserl nomeou como Crise das Ciências Europeias, resultado da supervalorização do estatuto científico (objetivo) em detrimento das dimensões humanas como cultura, valores, sentimentos, suprimidos pela neutralidade do mundo científico, o que cria um abismo entre a ciência e o mundo da vida (Datirgues, 2008). Segundo Husserl, é no mundo da vida que os enredos humanos são instalados como experiência e servem inclusive de motes para os estudos científicos, embora sejam ocultados pelas ciências. Vale frisar que a atitude do filósofo não é combater a ciência e seus frutos, mas a supremacia da razão na produção do conhecimento científico. Assim nasce a fenomenologia, propositiva na investigação do objeto percebido e não mais da concepção que se tem dele, com preceito de que a verdade sob o olhar humano assenta -se nos sentidos e não nos fatos em si, embora nem todas as coisas sejam compreendidas de imediato. O mundo é compreendido como fenômeno que se constitui como tal quando manifesto na vivência da realidade, na sua descrição da maneira mais completa possível, para assim, atingir a própria essência das coisas, sua estrutura lógica necessária. É a partir da fenomenologia de Husserl que Merleau-Ponty (2006) desafia a tradição intelectualista, na defesa de que a capacidade de pensar do homem é vinculada ao corpo e à percepção. Sem essa vinculação não é possível uma experiência filosófica. Dedica-se ao estudo da aparição do ser para a consciência à medida que o mundo se mostra. Volta ao primado do mundo da vida como nascente do sentido. No seu pensamento só atribuímos sentido às coisas – aquilo que é dado ao ser ante sua consciência – na sua condição originária, que é sempre polissêmica, nunca absoluta ou acabada. Na existência há sempre sentidos e mais sentidos, tanto que o sensível assume centralidade na vida humana. Afinal, ao longo da vida, o ser humano vê, toca, sente, percebe, ouve, narra, o que instala nele uma particularidade que não pode ser generalizada a todos os outros seres humanos. Ele – o mundo – é inacabado, está sempre por ser constituído pela interferência da subjetividade humana, que não é anexo do corpo, mas precisa de um corpo com forma específica, pois conhecer é uma atitude corpórea(Fernandes, 2013, p.36). É nessa esteira filosófica – da FENOMENOLOGIA – em interface com a Terapia Ocupacional (TO) e a Ciência Ocupacional que pretendo descrever como estudantes compreendem a si próprios por meio da ocupação EDUCAÇÃO (AOTA, 2015). Essa interface é necessária e possível porque a TO preocupa-se em compreender o significado e o sentido da ocupação na vida das pessoas em diálogo com a Sociologia, Psicologia, Antropologia, entre outras Ciências para melhor subsidiar a sua atuação. “Os serviços de terapia ocupacional visam à habilitação, reabilitação e promoção da saúde e do bem estar em clientes com necessidades relacionadas ou não a incapacidade” (Associação Americana de Terapia Ocupacional, 2025, p.4). Quanto à Ciência Ocupacional esta focaliza a forma, a função e o significado da ocupação humana. A forma refere-se aos aspectos que são diretamente observáveis. A função refere-se ao modo como a ocupação influencia o desenvolvimento, a adaptação, a saúde e a qualidade de vida. E o significado refere-se à experiência subjetiva da participação nas ocupações, onde são atribuídos valores pessoais, culturais e sociais. As ocupações estão simbolicamente constituídas em uma cultura e são interpretadas a partir do contexto e da história de vida das pessoas (COSTA et al., 2017, p.653). O ser estudante tem a ver com aquilo que esse sujeito vive nos espaços educacionais. Aceitar a experiência vivida como referência na formação acadêmica, por exemplo, materializa uma reação à visão que se ancora na racionalidade técnico-científica, ao entender que para exercer uma atividade profissional ele necessita apenas de uma certificação.